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2020 passou a correr para Sérgio Conceição. Devíamos parar e reconhecer o que ele fez

Um dia, Sérgio Conceição correu porta fora e parou quando voltou a entrar. No dia seguinte, abriu a porta, correu e só parou outra vez quando voltou a entrar. Depois, nunca mais parou, nem de correr, nem de ganhar: uma Liga, uma Taça, uma Supertaça e um lugar nos oitavos-de-final da Champions. É o homem do ano 2020

Pedro Candeias

RUI DUARTE SILVA

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Um dia, Sérgio Conceição correu porta fora e parou quando voltou a entrar. No dia seguinte, abriu a porta, correu e só parou outra vez quando voltou a entrar. Depois, nunca mais parou.

Durante a primeira vaga da pandemia, o treinador português transformou-se num runner com resultados que ultrapassaram os efeitos mais óbvios: aos 45 anos, Sérgio terá ficado abaixo do peso que tinha quando jogava, mas correr também foi uma forma de escapar ao mundo confinado. Basicamente, terapia em movimento para um homem frenético, que assume ter um buraco negro impreenchível dentro dele.

Conceição manteve essa rotina quase diária durante o final da época passada, nesta pré-época e agora na época corrente. Horas depois do triunfo na Supertaça, o treinador ligou para o programa da manhã da Rádio Comercial e disse a Pedro Ribeiro que estava a cumprir os seus “20 quilómetros” após ter dormitado “umas duas ou três horas”. Normalmente, Conceição corre do Olival para a sua casa - ou o inverso -, e as suas passadas são vitoriadas por alguns adeptos que o apanham na Nacional 222.

2020 passou a correr para Sérgio Conceição, mas nós devíamos parar e apreciar o que ele fez.

Devemos-lhe isso.

Carlos Rodrigues

Sérgio Conceição agarrou uma equipa dada como condenada, ultrapassou o Benfica e sagrou-se campeão pela segunda vez em três anos.

Campeonatos são sempre campeonatos, mas o FC Porto ganhou dois em circunstâncias complicadas e num contexto particularmente adverso: os portistas estão financeiramente asfixiados pela UEFA,viram partir jogadores nucleares a custo zero, recuperaram emprestados proscritos e contrataram sobretudo futebolistas da liga portuguesa; os benfiquistas vivem no desafogo que lhes permite ir à Alemanha gastar €35 milhões em dois atletas e à segunda divisão espanhola despejar €24 milhões num ponta-de-lança, e ainda resgatar um antigo treinador com um ordenado que só se pratica em determinados lugares - Portugal não é um deles.

Cada um faz o que pode; podendo mais, o Benfica também fez mais, embora os desfechos contrariem a tese encarnada da hegemonia total e indiscutível.

Retomando, o FC Porto de Sérgio Conceição reconquistou a Liga ao Benfica, a seguir venceu a Taça de Portugal, na final contra o Benfica, e há dias juntou-lhe a Supertaça, diante do Benfica, o grande rival que derrotou exemplarmente em lugares diferentes: em casa, fora de casa e em dois terrenos neutros.

Além disso, ultrapassou com dignidade um grupo exigente na Liga dos Campeões e está nos oitavos-de-final da competição que dá prestígio e muito dinheiro. O Benfica, somou desaires domésticos às péssimas prestações na Liga dos Campeões: esta época nem sequer lá entrou, eliminado pelo PAOK com um golo marcado pelo despachado Zivkovic.

Objetivamente, o FC Porto de Sérgio Conceição é a equipa mais competitiva em Portugal, porque o número de pontos, triunfos e de troféus arrebanhados superam os da concorrência. Subjetivamente, o FC Porto de Sérgio Conceição é a equipa mais adulta e fiável de Portugal, que resiste à tentação de trair os seus princípios porque a crítica lhe aponta qualidades, bom, pouco técnicas, como “intensidade” e “músculo”.

Sim, o FC Porto é tramado de contornar no choque e na velocidade, mas é bem mais do que isso: é meticuloso, obcecado, detalhado, metódico, preparado, sabe escolher os momentos e os sítios certos para pressionar e desferir golpes.

E o mérito é de Sérgio Conceição, cujo controlo sobre tudo o que acontece na equipa de futebol é total, da altura da relva à conversa com as namoradas, mulheres e famílias dos jogadores.

Nada se atravessa no caminho dele quando a porta se abre.