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Jesus é o amigo que encontramos no supermercado e que não anda com boa cara, meio amarelado. Será fígado? Divórcio? Ele responde com bocejos

“Como se não bastasse ao adepto benfiquista sofrer com a exibição semanal das misérias da equipa”, escreve Bruno Vieira Amaral, “agora ainda tem de se preocupar com o estado anímico de Jorge Jesus”

Bruno Vieira Amaral

Jorge Jesus, treinador do Benfica, que parece pouco preocupado com o que se passa à sua volta. “É para o lado que dorme melhor”

JOSEP LAGO

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Como se não bastasse ao adepto benfiquista sofrer com a exibição semanal das misérias da equipa agora ainda tem de se preocupar com o estado anímico de Jorge Jesus. É grave. É muito grave. Jesus é aquele amigo que encontramos no supermercado e que não anda com boa cara, meio amarelado. Será fígado? Divórcio? Damos-lhe uma palmada nas costas e a reação é quase invertebrada. Nota-se-lhe uma falta de apetite pela vida, uma rendição voluptuosa à melancolia. Assim está Jesus. A precisar de umas ampolas, umas vitaminas, uma injeção de vitalidade.

Nas conferências de imprensa, a fanfarronice desapareceu. No seu lugar, uns suspiros saudosos, uns lamentos lúgubres: no Brasil tinha setenta mil adeptos a aplaudi-lo, no Brasil aquilo é que é futebol, no Brasil é que sabem dar cabo do Cóvi, Brasil, Brasil, Brasil, ai, ai, meu Brasil, Brasileiro, meu rico Arão, meu querido Gerson, meu santo Gabigol. Imagino Jesus no balneário, sentado ao lado de Cebolinha e Pedrinho e a pedir-lhes que lhe falem do cheiro da goiaba e do sabor da pitanga, do quindim e do açaí, enquanto as lágrimas lhe escorrem pelo rosto.

Antigamente, os clubes contratavam psicólogos para os jogadores. Agora um psicólogo não chega. Precisamos de um ISPA inteiro para acompanhar Jesus. Mais. De um Freud. Em vez de ir a Viena depositar flores no túmulo de Béla Guttmann, é preciso ir a Londres honrar as cinzas do pai da psicanálise. Ou então ir a uma bruxa na Cruz de Pau. Porque isto pode ser quebranto. Mau-olhado. Enguiço. Espinhela caída. Quem sabe se o verdadeiro Jorge Jesus não estará fechado numas masmorras enquanto o Benfica é treinado por um sósia. Ou será chantagem? Seja o que for, é grave. Repito, é grave.

Jesus lá se justifica, mas fá-lo com a mesma falta de convicção que demonstra nos jogos. Diz que evoluiu. Que já não é o mesmo treinador que era há dez anos quando chegou à Luz. E aqui achamos que está a gozar connosco. Jesus nem sequer é o treinador que era há dez meses. Será que ele acha que não o víamos no Flamengo em noventa minutos de tremores pentecostais ou fervores de terreiro de candomblé, com gritos de huno e exortações macedónias para as suas tropas? Que raio de evolução foi esta que, do último dos moicanos, a brandir o machado do seu português imaginativo, o transformou nesta criatura crepuscular, neste Séneca a recomendar a Lucílio as vantagens do estoicismo?

Na primeira passagem de Jesus pelo Benfica, temíamos que o homem caísse fulminado pelo excesso de emoção. Nesta segunda vinda, está ali no banco, apático e desconsolado, um romano a quem só falta a toga e um adjunto a tocar lira, a experimentar as moderadas delícias da ataraxia. Taarabt pode perder cinquenta bolas em dez minutos, Grimaldo pode despistar-se numa daquelas subidas temerárias sem o mapa do regresso, Otamendi pode marcar um autogolo em todos os jogos que nada parece acordar Jesus deste suave sono competitivo. Luisão berra aos jogadores, Sérgio Conceição diz publicamente que não gosta de o ver assim tão tristonho e mortiço, e Jesus, com uma infinita tranquilidade budista, reage afirmando que ainda tem a mesma paixão. Só lhe falta bocejar e virar-se para o lado. Para o lado que ele dorme melhor.