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Crónica

Gilberto: a última fronteira de Jorge Jesus

Traduzindo, parece que a culpa do Benfica ter cedido dois pontos é de Diogo Gonçalves: Gilberto saiu lesionado aos 47’, o português entrou minutos depois e foi pelo lado dele que o Santa Clara chegou ao empate, disse o treinador. Ou seja, o resultado de uma equipa em cima da qual foi despejada uma centena de milhões de euros depende de um só jogador e de uma só substituição. É um argumento absurdo

Pedro Candeias

ANTÓNIO COTRIM

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Traduzindo Jorge Jesus, parece que a culpa do Benfica ter cedido dois pontos é de Diogo Gonçalves: Gilberto saiu lesionado aos 47’, o português entrou minutos depois e foi pelo lado dele que o Santa Clara chegou ao empate, disse o treinador. Ou seja, o resultado de uma equipa em cima da qual foi despejada uma centena de milhões de euros depende de um só jogador e de uma só substituição. É um argumento absurdo, uma defesa indesculpável - e a última barreira que separava a lógica do disparate foi ultrapassada.

E tão extraordinária como a fundamentação de Jorge Jesus, foi a forma como a apresentou, sem pestanejar e de ombros encolhidos, conformado. Jesus pode repetir as vezes que quiser que não é o mesmo treinador de há 10 anos e que isso é um sinal de evolução, mas a verdade é que a mudança ocorreu em poucochinhos meses. Mais precisamente, desde três de agosto de 2020, na sua mega-apresentação em que expôs os seus mega-objetivos e fez as suas mega-promessas - foi tudo megalómano, mas esse era o timbre de Jesus, não havia moderação possível, ele estava de volta para “arrasar” e pôr o Benfica “a jogar o triplo”.

Só que as palavras, quando mal medidas, têm o hábito de nos morder nos momentos menos oportunos; a péssima gestão de expectativas do Benfica - e também do seu treinador - veio a revelar-se novamente perigosa quando a equipa começou a descompensar, em termos qualitativos e absolutos. Primeiro, na Liga dos Campeões; depois, na Liga e a seguir na Supertaça: num par de jogos, foram-se dois objetivos, restando a Taça da Liga, a Taça de Portugal e o campeonato. E, sobre este último, deparam-se um clássico e um dérbi, dois berbicachos para Jesus resolver em janeiro, a 15, com o FC Porto, e a 31, com o Sporting, jogos em que ninguém - ninguém - pode friamente defender que o Benfica parte favorito.

Algo aconteceu no caminho, pois são muitas exibições indigentes que foram resultando em vitórias alcançadas no limite; perder pontos, como nos Açores, era inevitável, mais dia, menos dia.

Nesta fase, só um golpe de asa - ou seja, duas noites acidentais de inspiração - podem transformar o Benfica num clube vencedor, legitimando um ataque de €75,4 milhões (Rafa, Waldschmidt, Darwin, Everton), uma defesa com internacionais da Grécia, Bélgica e Argentina e a repentina substituição de um paradigma (formação) por outro (investimento) - e isso implica diretamente Luís Filipe Vieira. Independentemente das contratações de futebolistas, do resgate de Jorge Jesus e do corte filosófico com o passado, este Benfica continua a parecer-se demasiado com o Benfica de 2019-20. O problema poderá estar mais fundo e não há truques de maquilhagem que o resolvam.