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Duarte Gomes

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Ex-árbitro de futebol

FC Porto: o golo marcado por Evanilson tinha tudo para ser ilegal. Só que não foi

Primeiro que tudo, e para facilitar este esclarecimento, apelo à vossa memória e tentem visualizar o lance em questão

Duarte Gomes

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O golo marcado por Evanilson, depois de servido por Taremi, tinha tudo para ser ilegal... só que não foi.

Por partes.

Primeiro que tudo e para facilitar este esclarecimento, apelo à vossa memória. Tentem visualizar o lance em questão: a bola foi cortada por um jogador do Nacional (curiosamente, voou da cabeça para o braço, mas de forma involuntária) e ressaltou depois no cotovelo de Taremi.

Por força desse contacto, o avançado iraniano assumiu a jogada, deu quatro toques curtos e assistiu Evanilson que, descaído à esquerda, finalizou de primeira e com sucesso.

Entre o cotovelo acidental de Taremi e o golo do FC Porto passaram sete, oito segundos e foram dados um total de cinco toques na bola (quatro de Taremi e o remate vitorioso do brasileiro).

Agora ao que interessa.

Quando se lê o que dispõe a Lei 12 (e a clarificação que depois acrescenta, num capítulo posterior), não ficamos com muitas dúvidas: o golo devia ter sido anulado.

O texto refere que há infração quando, imediatamente a seguir à tal mão/braço involuntários, uma equipa marque um golo ou "crie uma clara oportunidade na baliza adversária". Ora, na prática, parece ter sido isso que aconteceu ali: contacto fortuito, toques curtos, passe, remate, golo. Tudo mais ou menos rápido.

O problema (e é mesmo um problema que tem que ser revisto) é que a letra da lei não esclarece, como devia e podia, o que pretende dizer. Não esclarece, com a objetividade que se exigia, aquilo que o IFAB pretendia alcançar quando introduziu a alteração.

É importante que percebam que esta explicação não é uma mera opinião pessoal. Não corresponde a uma leitura ou interpretação do caso concreto. As coisas são assim mesmo.

Para memória futura, entendam por favor o seguinte:

1 - Apesar de a lei referir literalmente que há infração quando a tal "mão/braço fortuitos" criam uma clara oportunidade ou que, através deles, é marcado um golo imediatamente a seguir, esta na verdade quer dizer que só há falta quando a bola entra, no instante seguinte, na baliza do adversário.

2 - Por "instante seguinte", leia-se quando daquele contacto acidental é feita uma assistência imediata para golo, quando decorrem apenas um ou dois toques curtos, quando a bola entra um, no máximo dois segundos depois.

3 - A partir do momento, em que há vários toques, vários passes (ou um passe longo) ou apenas um drible que seja, deixa de se considerar que houve infração.

4 - No fundo, a ideia desta imposição é "limitar" a injustiça aparente que é sancionar como faltosa uma mão que não foi propositada, que não teve ação deliberada e que, em boa verdade, nunca seria punida noutra qualquer zona do terreno, com outros quaisquer jogadores.

É certo e sabido que o International Board vai voltar a rever, em março, várias referências que fez sobre o uso regular/irregular de mãos e braços na bola.

Vai fazê-lo, por entender (e bem) que, apesar do seu esforço em tornar a questão o mais factual possível, jamais conseguirá consensos, porque a natureza técnica destes lances é tudo menos factual.

Espera-se (eu, pelo menos, espero) que, em relação a esta questão em particular, o IFAB possa objetivar, ao máximo, quando é que são e quando é que não são puníveis essas mãos ocasionais.

Se isso não acontecer de forma clara, continuaremos a correr o risco de, em lances-limite como os de ontem, especular levianamente sobre boas ou más decisões, não propriamente porque procuramos a verdade dos factos, mas porventura porque olhamos para o caso concreto com os olhos que mais nos convêm a cada momento.

Às vezes, não custa nada tornar fácil o que só aparenta ser difícil.