Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Parece que, ao fim de setecentos jogos, o Benfica lá se cansou de ser atropelado pelo Porto - e Jesus saiu da toca

Foi uma mudança de mentalidades e de costumes demasiado brusca para ser assimilada em tempo útil. Sérgio Conceição sentiu-se tão perdido como um cavaleiro medieval que aterrasse num clube de strip-tease. Há poucas semanas, em conferência de imprensa, o treinador do Porto até se tinha dado ao luxo de tratar Jorge Jesus com uma condescendência inaudita. Não só relatou um telefonema privado como contou ao mundo que, nessa conversa, tinha dito ao rival que não gostava de o ver tão macambúzio, que o queria “mais vivo”

Bruno Vieira Amaral

Octavio Passos

Partilhar

Parece que, ao fim de setecentos jogos, o Benfica lá se cansou de ser atropelado pelo Porto. Custou mas foi. É que uma vez, pronto, acontece. Uma pessoa distrai-se. Duas, ainda vá que não vá. Três, mau, já começa a ser chato. Quatro, tu queres ver que isto é de propósito? À quinta seria caso para supor algum tipo de parafilia, um masoquismo futebolístico. Mas a equipa reagiu, arregaçou as mangas e, por incrível que pareça, fez faltas.

Gosto do futebol com nota artística, do jogo bonito, dos jogadores que parecem jogar com botas de veludo, de belas triangulações. Tenho um fraquinho por uma boa transição ofensiva. Confesso. Pronto. Mas do que eu tinha saudades era dos jogadores do Benfica a fazerem faltas. As faltas faziam-me muita falta e eu nem sabia. A exibição foi boa, o resultado foi assim-assim, mas as faltas, meus amigos, as faltas foram qualquer coisa. Quase trinta. Quando vi as estatísticas chorei. Uma emoção inexplicável. Isso mesmo. De ver e chorar por mais: só mais um chega-pra-lá, vá lá, só mais uma faltinha, nem que fosse cirúrgica ou daquelas pornográficas em que o comentador, ferido no seu desportivismo, garante que “o jogador não teve qualquer intenção de jogar a bola.”

Quer dizer, os jogadores não foram para a degola, tranquilamente conduzidos para o matadouro. Foram lá disputar o jogo. A dada altura fiquei com a impressão, talvez errada, de que queriam ganhar. Não fui só eu a ficar surpreendido. Viu-se que os jogadores e o treinador do Porto não estavam preparados para uma coisa assim. De certa forma, percebo. Já não estavam habituados. Oscilaram entre a perplexidade e a indignação: “mas então o Weigl também corre? Então agora vale tudo, é isso? Só falta o Pizzi andar metido em confusões!”

Foi uma mudança de mentalidades e de costumes demasiado brusca para ser assimilada em tempo útil. Sérgio Conceição sentiu-se tão perdido como um cavaleiro medieval que aterrasse num clube de strip-tease. Há poucas semanas, em conferência de imprensa, o treinador do Porto até se tinha dado ao luxo de tratar Jorge Jesus com uma condescendência inaudita. Não só relatou um telefonema privado como contou ao mundo que, nessa conversa, tinha dito ao rival que não gostava de o ver tão macambúzio, que o queria “mais vivo.”

Honestamente, não sei que tipo de relação os dois têm. Se não são amigos, aquilo foi um golpe magnífico. Se são amigos, foi uma tremenda sacanice. Como diria o meu primo caluanda: “o mais velho está a ser abandalhado.” Abandalhado, humilhado, desconsiderado, desrespeitado. E, aparentemente, imperturbável. Só ele saberá o que sentiu. Porém, cá para fora, a imagem que passou foi a de um homem que já nem reage às provocações. Até à passada sexta-feira. Alguém disse que Jesus tinha saído da toca, aludindo às palavras do próprio Jesus para Rui Vitória: “queria fazê-lo sair da toca.”

Só que Conceição estava à espera que, da toca, saltasse um coelhinho inofensivo e apareceu-lhe o Jesus de antigamente. O bate-boca no fim do jogo não foi apenas um fait-divers, antes a conclusão natural do jogo, ou seja, a sua continuação por outros meios. E a demonstração de que Jesus sentiu as palavras que o antigo pupilo lhe tinha dirigido tempos antes. O que, para os benfiquistas, é bom sinal. Quase tão bom como ver o número de faltas.

PS: acabei a crónica da semana passada a dizer que o Sporting, depois do triunfo no lodaçal da Choupana, mostrara ser uma equipa para todas as estações. Depois disso, a equipa de Rúben Amorim perdeu um jogo e empatou outro. Seria presunçoso da minha parte afirmar que as duas coisas estão ligadas, mas, por via das dúvidas, estou a pensar seriamente em elogiar o Sporting todas as semanas.