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Sporting - SC Braga: a aristocracia falida defrontou o novo-riquismo megalómano. Ou José Carlos Pereira contra o humilde empreiteiro

Há eventos anuais que nunca perco: os Óscares, o festival da Eurovisão, a final da Taça de Inglaterra e a eliminação do Porto da Taça da Liga. Já faltam adjetivos para descrever os 14 (!) insucessos do Porto nesta competição. Mas já chega de Futebol Clube do Porto e das suas desventuras no reino da Taça da Liga. É que na final defrontaram-se os dois protagonistas de uma telenovela que remonta aos tempos de Godinho Lopes, o sétimo

Bruno Vieira Amaral

CARLOS COSTA

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Há eventos anuais que nunca perco: os Óscares, o festival da Eurovisão, a final da Taça de Inglaterra e a eliminação do Porto da Taça da Liga. Já faltam adjetivos para descrever os 14 (!) insucessos do Porto nesta competição, mas podemos tentar: hilariante; patético; bizarro; sobrenatural. Enganei-me. Afinal não faltam adjetivos.

O que começou por ser uma brincadeira, alvo de indiferença altiva, agora é encarado com um profissionalismo inatacável. Se é para perder que seja a sério. Afinal, há seguidores de cultos antiquíssimos que organizam o calendário das colheitas em função dos jogos do Porto na Taça da Liga. Quando se dá a eliminação, os sacerdotes escolhem três raparigas em idade núbil que se despem e correm em círculos à volta das árvores (creio que são abetos).

Quando parece que vai ser mesmo desta vez, há sempre um acidente cósmico, um penálti incompreensível, dois golos de Jovane Cabral, que tornam impagável a cara de Sérgio Conceição como se perguntasse “mas o que é que foi agora?”

A Taça da Liga está a devolver com juros as palavras descorteses de Pinto da Costa há uns anos. Isto já não é uma competição. É uma mulher despeitada. Se eu fosse dirigente do Porto, punha caixas de bombons na sede da Liga e um envelope com bilhetes de avião para um país tropical, ou seja, aquilo que há uns anos ofereciam aos árbitros, mas agora para a Taça.

Como se isto já não fosse suficiente para divertir rivais que têm poucos motivos para sorrir ainda insistem naquele ritual polinésio da rodinha no final do jogo. Aposto que há estudantes de antropologia a preparar teses de doutoramento sobre aquele momento que está entre a terapia coletiva, o apedrejamento público e a autocrítica dos comunistas.

A seleção neozelandesa de râguebi tem o haka, que serve para intimidar os adversários, o Porto de Sérgio Conceição tem o pós-haka, que serve para os animar.

Mas já chega de Futebol Clube do Porto e das suas desventuras no reino da Taça da Liga. É que na final defrontaram-se os dois protagonistas de uma telenovela que remonta aos tempos de Godinho Lopes, o sétimo, uma guerra artificial entre aristocratas falidos e novos-ricos com aspirações megalómanas, com negociações suspensas, dívidas que nunca mais se saldam e arrufos variados.

Tudo com aquele toque freudiano dos dois Sportings, os gémeos separados à nascença que seguiram caminhos muito diferentes.

Quando a SIC adaptar esta comovente história de superação e inveja, José Carlos Pereira será o Sporting Clube de Portugal – a beber um whisky desiludido na sua moradia de Cascais enquanto assiste ao desmoronar metafórico dos valores familiares – e o Sporting Clube de Braga um humilde empreiteiro nortenho que constrói um império que se estende para lá das freguesias de Lamaçães e Adaúfe.

Antigamente era só uma picardiazita, umas bocas museológicas, uns remoques, mas, como se viu pelo baile de máscaras na tribuna presidencial em Leiria, aquilo caminha a toda a brida para um conflito israelo-palestiniano.

Consigo perceber a fúria de António Salvador. O Sporting roubou-lhe o treinador que tinha dado a taça da Liga ao Braga, não pagou e o mesmo treinador levou o troféu para Alvalade. Isto foi muito mais do que um triunfo, foi uma burla à vista de toda a gente. Há até uma expressão popular que resume a experiência do presidente do Braga nesta espécie de negócio com o Sporting e que termina assim: “… e não pagaram.”

Aplausos para o Dr. Varandas que tem demonstrado uma sagacidade invulgar e inesperada. Nos últimos tempos, a sua imagem junto dos adeptos melhorou bastante. Só teve de fazer uma coisa: desaparecer. Para o presidente de um grande clube, não é fácil desaparecer. Não é fácil resistir à tentação de um microfone esticado que está mesmo a pedir uma declaração inconsequente.

Exige uma concentração de monge de Shaolin. O mérito também deve ser reconhecido ao remodelado departamento de comunicação do Sporting que se transformou num gabinete de incomunicação. Lamentavelmente, devido ao imbróglio Unilabs, o Dr. Varandas teve de voltar a falar em público, numa daquelas conferências de imprensa penosas em que, ao lado do presidente do Sporting, um Tiago Mayan Gonçalves parece um orador motivacional.

O suplício durou pouco e o Dr. Varandas regressou ao silêncio. Dias depois, o Sporting ganhou a taça. Coincidência?