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Crónica

Nas palavras de Vieira, “o que passou-se”? Duas explicações: ou o arquiteto da hegemonia era Paulo Gonçalves ou há excesso de génios por m2

Confesso que gosto muito desta explicação e acredito que a maioria dos benquistas também. Quer dizer, é provável que desconfiem da bondade da mesma e se perguntem “será que o gajo está a dizer que o Benfica ganhou por causa de jogadas manhosas?” Mas, ao mesmo tempo, sorriem porque sabem que há aqui um fundo de verdade, é uma explicação que não explica tudo mas tem a sua graça e sempre explica alguma coisa. A outra explicação é o excesso de planeamento

Bruno Vieira Amaral

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O Benfica começou a época com 100 milhões de avanço e dez anos à frente e arrisca-se a terminar esta jornada a nove pontos do líder e com a sensação de estar atascado na pré-história. E a acontecer, será num estádio que nos últimos anos tem sido de grande hospitalidade e contra uma equipa que, no início da época, de acordo com os melhores prognósticos, estaria a estas horas uns dois ou três pontinhos acima da linha de água.

Feddal? Pedro Porro? Adán? Eu diria que a estratégia do Sporting não foi muito diferente da dos outros anos, com empréstimos às cegas, compras a suaves prestações de artigos muito provavelmente danificados, Tommie Hillfuger, Ardidas, material contrafeito pensado para uma época e não digas que vais daqui. É vê-los agora, a jogar como gente grande, de peito feito, sem receios. Sim, senhor. Até parece que foi de propósito.

O que é que aconteceu ao Benfica? “O que passou-se?” citando as imortais palavras de Luís Filipe Vieira. Como é que um clube onde impera o rigor e a planificação, com um scouting que scouta da Guiné à Polinésia, da milionária Bundesliga às mais recônditas divisões do futebol brasileiro, gerido por um conselho de sábios financeiros, envolto em plástico de tecnologia de ponta, se vê subitamente em palpos de aranha no campeonato português e a comer com os fumos do tubo de escape de um Sporting em que as grandes decisões parecem ter saído de um brainstorming de esquimós que nunca viram um jogo de futebol?

Há duas explicações. A primeira é que, afinal, o verdadeiro arquiteto da dita hegemonia benfiquista era Paulo Gonçalves. O povo estava distraído a olhar para o rolo compressor de Jesus, a inteligência elástica de Jonas, o atrevimento de João Félix e, na sombra dos gabinetes, trabalhando noite e dia, contactando obscuros funcionários judiciais do tribunal da comarca de Gondarém ou de Mafamude, revendo contratos, aconselhando discretamente o presidente, Paulo Gonçalves construía o Sacro Império Benfiquista que, com a sua expulsão sacrificial, veio por aí abaixo.

Confesso que gosto muito desta explicação e acredito que a maioria dos benquistas também. Quer dizer, é provável que desconfiem da bondade da mesma e se perguntem “será que o gajo está a dizer que o Benfica ganhou por causa de jogadas manhosas?” Mas, ao mesmo tempo, sorriem porque sabem que há aqui um fundo de verdade, é uma explicação que não explica tudo mas tem a sua graça e sempre explica alguma coisa.

Sejamos sinceros: durante anos, os benfiquistas queixavam-se da falta deste know how (chamemos-lhe assim), de o clube não ter peixes de águas profundas. Reparem que não falo de corrupção e outras atividades puníveis por lei, mas de adaptação ao meio envolvente, a inteligência de não mandar o Corpo Nacional de Escutas combater no Vietname. Paulo Gonçalves era esse peixe de águas profundas, o braço direito do líder. Não se pode esperar que a eficácia seja a mesma quando se perde o braço direito.

A outra explicação é o excesso de planeamento. No futebol, como em qualquer outra atividade humana, o planeamento é fundamental: saber o que se quer, quais os meios necessários para o alcançar, quais os recursos indispensáveis e os que são facilmente substituíveis, etc. Mas, a partir de um certo ponto, o excesso de racionalidade conduz ao que já alguém chamou a “superstição da razão” e à crença, também ela supersticiosa, de que uma organização humana pode funcionar com a previsibilidade e a fiabilidade de uma máquina.

De repente, o Domingos Soares Oliveira era um génio, no Benfica Lab eram tantos os génios que andavam aos encontrões no Seixal, na formação eram fornadas atrás fornadas cientificamente programadas de génios e génios e génios. Só faltava o génio Jorge Jesus. E ele veio. Tanto génio por metro quadrado nem nas paredes do MoMA.

E isso põe alguns problemas: com tanto planeamento, onde é que se vai buscar a capacidade de improviso? “Cadê” o espaço para dar um jeitinho? Quem é que nos vai desenrascar? Se tudo o que temos são génios para inventar a eletricidade onde é que vamos desencantar um estúpido que esteja lá só para ligar o interruptor? Conhecem aquela cena do filme Manhattan, de Woody Allen? A personagem de Diane Keaton fala sobre algumas pessoas que conhece e diz que são todas geniais. Isaac Davis, a personagem de Woody Allen, desconfia de tanta genialidade: “Conheces uma data de génios, sabias? De vez em quando devias conhecer gente estúpida, percebes, podia ser que aprendesses alguma coisa.”

Em vez de astrofísicos que põem o clube dez anos à frente, onde o futuro é maravilhoso, o Benfica devia investir no recrutamento de pessoas de inteligência mediana que o trouxessem de volta a 2021, aquele lugar onde as coisas não estão a correr lá muito bem.