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Crónica

Lembram-se desta? Quando Vieira se metia no elevador e descia das presidenciais alturas ao balneário? Cuidado com ele, até tremiam

E da estratégia do investir em tempos de crise, em contraciclo, ao contrário do que estavam a fazer todos os clubes europeus muito mais ricos do que o Benfica? Surpreendentemente, parece que não resultou. O que é que isto significa? Formação, Seixal, Florentino, Gedson, Camará, Gonçalo Ramos, sandes de courato, sumol de laranja, vivó Benfica!

Bruno Vieira Amaral

TIAGO MIRANDA

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A melhor notícia da semana passada foi o anúncio da chegada dos alemães à Luz. “Finalmente!”, pensei. “Até a Merkel já percebeu que o Benfica só vai lá com uma gestão germânica.” Nos meus sonhos, já via o clube transformado numa Autoeuropa futebolística, a produzir monovolumes em vez de monos e volumes que ninguém sabe onde arrumar. Centenas de herrs e fraus e frauleins a marcharem nos corredores em vez de erros e frades e fraudezinhas. Uma defesa imbatível em campo em vez de uma defesa informática cheia de buracos. Que bom! Vinham aí os alemães. Baldes de Schmidts!

Afinal, os alemães vieram, pois vieram, mas são médicos. E instalaram-se na Luz, pois foi, mas no Hospital da Luz. Por enquanto, e até ver, continuamos entregues aos portugueses. Era a altura ideal para uma mudança de paradigma: o regresso ao treinador estrangeiro.

Estão a ver o tipo? O indivíduo que chega à Portela sem saber dizer “bom dia” ou “não se importa de dar um jeitinho” e implementa métodos revolucionários num alegre desconhecimento das especificidades do “lusopédio”? É disso que precisamos.

O problema é que, de acordo com os jornais, mudar o paradigma não é o mesmo que pôr pastilhas novas nos travões e custa para cima de oito milhões de euros. Portanto, o melhor é manter o paradigma durante mais uns milhares de quilómetros que o tempo não está para despesas.

Não sou que o digo. É o presidente Vieira. Lembram-se da estratégia do investir em tempos de crise, em contraciclo, ao contrário do que estavam a fazer todos os clubes europeus muito mais ricos do que o Benfica?

Surpreendentemente, parece que não resultou. É verdade. Ninguém consegue explicar a razão, mas, a onze pontos do Sporting no fim da primeira volta, já não há dúvidas: alguém produziu uma quantidade paquidérmica de matéria fecal.

O que é que isto significa? Formação, Seixal, Florentino, Gedson, Camará, Gonçalo Ramos, sandes de courato, sumol de laranja, vivó Benfica! Nem as aparições do presidente no balneário resultaram. Também não sei se se lembram desta. Aqui há uns anos, quando o Benfica enfrentava crises semestrais, havia um remédio que podia não ser santo, mas tinha amplo destaque na comunicação social. Era a descida do presidente ao balneário. As coisas podiam correr mal, mas quando o presidente se metia no elevador e descia das presidenciais alturas às catacumbas do balneário, cuidado com ele! Os jogadores até tremiam.

Com o passar do tempo o ritual deixou de ter impacto psicológico e as descidas do presidente ao balneário foram substituídas pelos “gritos do Luisão”. Ah, a boa e velha educação à portuguesa. Isto não vai lá com falinhas mansas, com “olha que nem cortámos nos ordenados” ou “já viram as belíssimas condições de que desfrutam aqui no centro de treinos” ou “e esta máquina? Isto nem em Milanello, ó Pizzi!”

Não. Quando tudo falha, põe-se o paizão aos berros, a passar a mística através dos decibéis e perdigotos. Não é para desanimar ninguém, mas queria recuperar aqui as palavras sábias de um homem que sabe um bocadinho da velha mística benfiquista, Álvaro Magalhães: “A mística é ganhar.” E mainada. Digam o que disserem, gritem, esperneiem, cortem regalias. Mística é ganhar.

Por falar em mística, ontem só pude assistir aos derradeiros minutos do Braga-Porto. Ou seja, só vi o melhor. Mas reparei que a equipa de Sérgio Conceição continua imbatível no “salto sincronizado do banco”.

Minutos após o fim do jogo, um comentador afeto ao Futebol Clube do Porto pedia o encarceramento do árbitro Artur Soares Dias. Eu sei que andamos todos muito enervados por causa da pandemia e que qualquer dia estamos a exigir a castração química de quem bebe um café ao postigo, mas é preciso manter alguma calma perante as adversidades.

O mundo não acaba com um empate na Pedreira.