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Crónica

A falta que faz a moldura humana

"Sem a 'moldura humana' (como eu amo estas expressões radiofónicas de antanho), sem o dramatismo cénico da multidão e a banda sonora viva (não as emoções enlatadas que nos servem em algumas transmissões), o jogo é aquilo que dizia a minha avó: 22 dois marmanjos a correr atrás de uma bola", escreve Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

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Tenho um amigo (tenho e posso confirmar, se as autoridades mo pedirem; desconfio que seria uma boa regra no estado de emergência, só poder circular com um atestado de amizade), portanto, tenho um amigo, ia eu dizendo, que desistiu de tudo. Calma. Quero dizer que desistiu de tudo o que tenha que ver com futebol.

Cancelou as subscrições de todos os canais de desporto, depositou camisolas e cachecóis naqueles pontos de recolha de roupa à entrada dos supermercados, doou troféus pessoais, arrancou da parede os posters do plantel do Benfica de 1993/94 e guardou-os no sótão e jura que enquanto os estádios não voltarem a ter espetadores – multidões – manterá esta decisão radical e vogará livre no espaço sideral das plataformas de streaming, incapaz de responder a perguntas tão triviais como “a que horas é o jogo logo à noite?” ou “quanto é ficou o Benfica?”

Sim, o meu amigo é benfiquista. Apesar disso, tem razão. Para começar, e se cancelou as subscrições antes do jogo de ontem com o Moreirense, foi poupado a mais um falhanço inacreditável de Rafa. Peço desculpa. Os falhanços de Rafa só foram inacreditáveis durante as duas primeiras temporadas. Depois, houve ali um momento em que alguém deve ter calibrado a pontaria do rapaz e o Rafa esteve quase a ponto de se tornar um goleador. Agora, voltou ao normal. Que é excecional.

Falhar golos pode não ser uma arte, mas Rafa transformou-o num ofício. O homem entra em campo com o propósito beckettiano de falhar outra vez e falhar melhor. Falhar, falhar até ao falhanço perfeito. Aquele falhanço total que lançará o universo no caos, criará um buraco negro, sei lá, no estádio António Coimbra da Mota e, nesse momento, o meu amigo nem se aperceberá do desperdício que foi ter cancelado as subscrições dos canais desportivos.

Carlos Rodrigues

Tem razão o meu amigo, dizia eu. Sem a “moldura humana” (como eu amo estas expressões radiofónicas de antanho), sem o dramatismo cénico da multidão e a banda sonora viva (não as emoções enlatadas que nos servem em algumas transmissões), o jogo é aquilo que dizia a minha avó: 22 dois marmanjos a correr atrás de uma bola. Vinte e dois adultos numa brincadeira que, sem a turba, fica exposta na sua inapelável futilidade. Nelson Rodrigues dizia que poucas mulheres podem ficar nuas sem perder o mistério e o encanto (ele que me perdoe se não era bem isto). Ora, nenhum jogo de futebol sobrevive à cristalina nudez das bancadas despidas. Nenhum.

O que sobrevive, e aí gabo a coragem do meu amigo em ter cortado a ilusão pela raiz, é o nosso desejo, enquanto adeptos, que o futebol continue o mesmo. É um faz de conta, em que é o espetador em casa que tem de fazer o esforço de suspender a descrença e fingir que aquilo é o mesmo futebol a que estava habituado. Não é. Há que dizê-lo. Eu próprio quis acreditar que, sem público, o jogo seria sublimado, a sua essência pura seria revelada. Bem, e foi. E é esta: 22 marmanjos a correr atrás de uma bola. Quem é que, ao assistir a esta modalidade, ao “novibol”, não se interrogou já sobre o que andam ali aqueles malucos a fazer se não têm lá ninguém? É impossível digerir o futebol em estado bruto. Como outras coisas, o seu excessivo grau de pureza torna-se letal.

O futebol só é tolerado pelo espírito depois de ser filtrado pela multidão. A multidão faz falta. A multidão embriaga e a multidão atrai. Todos nós temos a nostalgia da multidão, de nos perdermos no meio dos outros, porque a multidão protege e desresponsabiliza, oculta as nossas falhas. As paradas militares soviéticas, os grandes desfiles nazis ou, se quiserem um exemplo mais benigno, a “onda” mexicana provam que ser indivíduo todos os dias cansa. De vez em quando, queremos ser o pontinho anónimo, indistinguível, a peça na engrenagem. Quando hoje vemos um jogo e deparamos com as bancadas vazias sentimos falta desse animal coletivo que é a multidão. Não é do adepto, do Manel que rói e chora e sofre pelo seu clube. É do rugido do grupo, da tribo, do clã. Da massa humana impessoal. Ser ninguém e toda a gente, eis o sonho ocasional do homem. Agora é apenas um ser atónito a olhar para estádios vazios.