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Crónica

Se eu fosse homem de apostas insólitas, estaria a comer a gravata, o chapéu ou a sola do sapato: quem diria que este Sporting seria campeão?

Parem de bater na madeira, caros sportinguistas. Não tapem os ouvidos. A realidade é a que é. Bem podem dizer que reservar o Marquês é coisa de benfiquistas com triunfalismo precoce, mas todos sabemos que só o pudor e a imaginação de um castigo sobrenatural, e talvez o respeito pelas regras de confinamento, vos impede de saírem à rua, agitarem os cachecóis e soltarem o grito amarrado na garganta há longos dezanove anos

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Se eu fosse homem de apostas insólitas, estaria a estas horas a comer a gravata que não uso com molho de mostarda. Ou o chapéu. Ou a sola do sapato. Não seria o único. Postos lado a lado, seríamos milhares de comensais, em número suficiente para enchermos os tabuleiros de duas pontes Vasco da Gama e batermos o recorde mundial de comedores de gravata, de terríveis apostadores. Quem diria que o Sporting de Rúben Amorim seria campeão com esta facilidade?

Parem de bater na madeira, caros sportinguistas. Não tapem os ouvidos. A realidade é a que é. Bem podem dizer que reservar o Marquês é coisa de benfiquistas com triunfalismo precoce, mas todos sabemos que só o pudor e a imaginação de um castigo sobrenatural, e talvez o respeito pelas regras de confinamento, vos impede de saírem à rua, agitarem os cachecóis e soltarem o grito amarrado na garganta há longos dezanove anos.

Agarrados a terrores ancestrais, primitivos, com receio de despertarem os deuses que, ao longo dos anos, se têm entretido a frustrar-lhes os planos como uma criança indolente se diverte a arrancar as asas de uma mosca, os meus amigos sportinguistas recusam-se, com todas as forças, a assumirem o favoritismo evidente e merecido. Porque não são só os títulos que se merecem. O favoritismo também.

Agora leio nos jornais que a estrutura do Sporting está à espera do resultado no Dragão. Presumo que uma vitória ou até um empate implique uma mudança de discurso do “não, não, de maneira nenhuma, por amor de Deus, nós, candidatos? É que nem pensar nisso. Seria um atrevimento inqualificável, não, não” para o “inchem!”. Ou talvez a candidatura do Sporting siga determinados preceitos que não se exigem aos outros. Talvez necessite de 7500 assinaturas e validação do Tribunal Constitucional. Ouviríamos, então, o Dr. Varandas a anunciar urbi et orbi a candidatura e o favoritismo que a esta altura, repito, são mais do que evidentes.

Até tenho um amigo que, incapaz de conter o entusiasmo, partilhou uma fotografia de uma camisola verde-e-branca com a legenda “Campeões 2020/21”. É verdade que apareceram logo os Prudentes da Conceição a dizerem-lhe para apagar aquilo e não dar azar, provando os limites da racionalidade cartesiana e a ineficácia de um pensamento voltaireano, livre de superstições, quando está em causa a conquista de um campeonato que escapa há quase duas décadas. Nem sob tortura alguns sportinguistas admitiriam que já sentem o saborzinho do título.

Como diria o outro: soltem os fogos! A sério, não tem mal nenhum. Com o máximo de desportivismo e o mínimo de condescendência, em verdade vos digo que ninguém vos acusaria de sobranceria. Bem vistas as coisas, um pouco de sobranceria nem ficaria mal a quem lidera o campeonato com mais de uma dezena de pontos de avanço e demonstra semanalmente uma regularidade esmagadora. Sim, uma regularidade compressora. Uma fiabilidade trituradora. A equipa não esmaga em cada jogo. A sua superioridade só se vê em conjuntos de jogos, em feixes de jogos.

A ver se me faço entender. Há aquelas equipas que esmagam os adversários com goleadas atrás de goleadas. Que assustam. Em Espanha, quando uma equipa está num desses momentos arrasadores, os jornalistas escrevem “Real Madrid da miedo”, aterroriza, põe os adversários a tremer de pavor. Ora, o Sporting não aterroriza ninguém. Fica ali sentado calmamente à espera da vítima que nem sabe bem para onde está a ir e, quando se vai embora, nem sabe bem o que lhe aconteceu.

As equipas que esmagam e se ufanam disso espicaçam o sentido de dignidade dos adversários. Ninguém quer ser o bombo da festa. O que o Sporting de Amorim faz, e faz com uma arte que ou muito me engano ou é da competência do treinador, é não fornecer ao adversário dispositivos motivacionais de borla, como se lhe dissesse: “vens cá jogar comigo, mas vais ter de encontrar motivação sozinho”.

Ainda estou para ler uma análise tática a este Sporting que vá para além do óbvio dos três centrais e do realce do brilhantismo individual de algumas peças, que explique exatamente o que está ali a acontecer. Rúben Amorim é o único que sabe. E, como já se viu, vai guardar o silêncio até ao fim, até que o campeonato que já está no papo possa ser constitucionalmente saboreado.