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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Os árbitros entram sob brasas? Sim, mas não desculpa tudo. Falta equilíbrio. Falta coerência

Nuns há uma tendência clara para intervir o menos possível, deixando que o jogo flua até limites arriscados. Noutros dá-se um "festival de apito", superando-se facilmente as 40 faltas por partida. Nuns qualquer entrada mais dura é resolvida com diplomacia, paciência e prevenção. Noutros lances similares são logo contemplados com cartão. Nuns a análise a possíveis infrações nas áreas é demasiado lata. Noutros assinalam-se penáltis a cada toque ou contacto entre adversários. Cá fora, ninguém percebe, ninguém acredita e por isso todos criticam

Duarte Gomes

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É inevitável regressar ao tema das arbitragens porque esse é um dos temas que marcam a atualidade.

Nada de novo aqui, porque cá fora o padrão é o mesmo de sempre: as decisões aproximam-se, as distâncias aumentam e há muito a ganhar (ou perder) desportiva e financeiramente.

Estratégia? Centrar nos árbitros o cerne de todos os problemas. Como? No erro, a narrativa incide em processos de vitimização, ora sob forma mais dramatizada e persecutória, ora sob tom mais incendiário e revoltoso. Depende de quê? Do momento, do que se pretende atingir ou branquear e, claro, do porta-voz.

O método, em idade geriátrica, continua a ser eficaz. Eleva o tema ao Top-3 dos assuntos mais discutidos da nação, inflama a mente perturbada de seguidores subservientes e, acima de tudo, desvia o foco do essencial. E o que é essencial? É o reconhecimento de que foram cometidos erros próprios. O reconhecimento que o planeamento ou a preparação não foram suficientes nem produziram os resultados desejados. Ou apenas o reconhecimento que os adversários foram mais capazes, eficazes e consistentes.

Não é para quem quer, é só para quem pode.

Esse modus operandis, apesar de circunstancial, é bem acolhido pela generalidade da imprensa e pela maioria dos adeptos. Os primeiros porque estão ávidos de notícias que vendam e que os afastem do colapso económico; os segundos porque precisam agora e mais do que nunca, de distração e diversão. Uma bomba atómica aqui e ali é terapêutica. Como condena-los por isso?

Esta constatação não invalida que se faça uma análise séria aos desempenhos de algumas equipas de arbitragem e esses, convenhamos, têm estado muito além das expetativas.

Dizer o contrário seria mentir ou esconder o que é óbvio para toda a gente. Esse seria um exercício de desonestidade corporativa que a causa bem dispensa.

As coisas não estão bem e é importante que se perceba isso, de forma a inverter a tendência.

É verdade que os árbitros entram em campo sob brasas e é também verdade que a sua missão, nesta fase, é terrível, mas isso não desculpa tudo. As suas atuações têm-se caraterizado por uma irregularidade gritante e isso é notório mesmo quando em campo estão os mais experientes e cotados. A ilação é clara quando esmiuçando a maioria dos jogos:

Nuns há uma tendência clara para intervir o menos possível, deixando que o jogo flua até limites arriscados. Noutros dá-se um "festival de apito", superando-se facilmente as 40 faltas por partida. Nuns qualquer entrada mais dura é resolvida com diplomacia, paciência e prevenção. Noutros lances similares são logo contemplados com cartão. Nuns a análise a possíveis infrações nas áreas é demasiado lata. Noutros assinalam-se penáltis a cada toque ou contacto entre adversários.

Cá fora, ninguém percebe, ninguém acredita e por isso todos criticam.

Falta equilíbrio. Falta coerência. Falta saber mais do jogo, porque há jogos que pedem bom senso e outros que pedem mão pesada à partida. Há os que permitem gestão mais musculada e outros que exigem intervenção assídua. E há os que precisam de "gelo" para travar os ímpetos e os que precisam de "calor" para arrebitar a pasmaceira. Depende da predisposição dos jogadores, do ambiente, da atitude nos bancos, da natureza das infrações, do posicionamento tático das equipas, do seu histórico, do que está em jogo, etc, etc.

Todas essas variáveis têm que ser interiorizada e antecipadas, para que a arbitragem se enquadre no espírito do desafio que tem pela frente.

Carimbar todos os desafios como iguais é erro crasso. Dizer "eu apito sempre da mesma forma" é ainda pior, porque não há jogos iguais e os árbitros não são o fim: são um meio para o atingir.

É verdade que estes são tempos difíceis e falar desta posição, cá fora, parece cómodo e injusto, mas a verdade é que a arbitragem sempre esteve na boca do mundo e sempre encontrou formas de silenciar ruídos maiores. A fórmula usada é simples: competência e coragem dentro de campo, espírito de classe fora dele.

Como o segundo não existe há anos, é investir no primeiro.