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Sérgio Oliveira reagiu como uma criança que deixou cair o gelado enquanto o colega ao lado se delicia com um Corneto

Ora, Sérgio, depois de um empate frustrante com sabor a derrota a última coisa que um jogador deve fazer é dizer o que lhe vai na alma. Isso é dar ainda mais sabor ao gelado do adversário. O Sporting tinha dez pontos de avanço, manteve os dez pontos de avanço e tentas amesquinhar o feito dos outros? Música para os ouvidos dos adeptos sportinguistas que, nesse momento, se sentiram autorizados a dançar ao som da vantagem

Bruno Vieira Amaral

Octavio Passos - UEFA

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Que jogão! Sporting e Porto mostraram por que razão ocupam os primeiros lugares do campeonato (o Porto agora desceu para terceiro, tudo bem). A sério, o jogo foi tão morto que a Liga devia ter nomeado como árbitro um médico-legista. Segundo Rúben Amorim, isto é só impressão. Com público nas bancadas tudo pareceria mais animado. Talvez. Já eu acho que a falta de público em Alvalade é concorrência desleal. A favor do Sporting. Acabe-se já com a conversa da “melhor massa associativa do mundo”, os adeptos mais fiéis, as claques mais ruidosas. Num ano sem adeptos nos estádios, o Sporting vai à frente nas calmas. E merecidamente.

Deviam ter explicado isso a Sérgio Oliveira que, no final do jogo, reagiu como uma criança que deixou cair o gelado no chão enquanto o colega ao lado se delicia com um Corneto de morango: “Para o Sporting empatar aqui é como ganhar a Champions.” Ora, Sérgio, depois de um empate frustrante com sabor a derrota a última coisa que um jogador deve fazer é dizer o que lhe vai na alma. Isso é dar ainda mais sabor ao gelado do adversário. O Sporting tinha dez pontos de avanço, manteve os dez pontos de avanço e tentas amesquinhar o feito dos outros? Música para os ouvidos dos adeptos sportinguistas que, nesse momento, se sentiram autorizados a dançar ao som da vantagem.

Questionado sobre as declarações do médio portista, Rúben Amorim respondeu como um adulto. Imagino a vergonha do rapaz ao ver-se assim retratado. Se Amorim tivesse respondido à bronco, as palavras de Oliveira teriam ficado justificadas. Assim, apareceram na sua absoluta infantilidade, no seu despeito transparente.

Eu não queria falar do jogo, aqueles noventa minutos de essência de campeonato português, mas de um artigo sobre Lionel Messi que li há dias. Messi, trinta e três anos. Aproveitemos que não vai durar para sempre. Sobre Messi já se disse quase tudo, mas com os resultados desastrosos dos últimos anos, em particular na Champions, alguém descobriu que o astro argentino não corre.

Anda, dá uns passinhos vagarosos, passeia pelo relvado, meio absorto no mundo dele e só ganha vida quando a bola lhe vem ter aos pés. Ou será ao contrário? Não será que a bola só ganha vida, só ganha sentido, quando vai ter aos pés de Messi? Ou os dois dão vida um ao outro? Só eles saberão, mas aposto que é mais fácil obter uma resposta da bola.

O meu sonho era poder andar num relvado. Ser o tipo de jogador que anda. A maioria dos jogadores tem de correr, correr a sério, como se fossem maratonistas quenianos, mas há uns que têm o direito a andar. Qual o melhor jogador de uma equipa? É o que anda quando todos os outros correm. Estes até correm quando não têm de correr, quando nem sabem porque é que estão a correr, como empregados surpreendidos pela chegada do patrão. Correm porque não saberiam o que fazer se estivessem parados.

Vi o documentário sobre Pelé na Netflix. Aos 17 anos, era uma fera. Aos 29, no Mundial de 70, um deus. Na Suécia, em 58, corria. Em 70, andava. Também corria quando tinha de ser, mas regra geral andava. Vejam aquele passe para o golo de Carlos Alberto Torres contra a Itália. É das raras jogadas de bola corrida que, por vontade e domínio de um jogador, se transforma numa jogada de bola parada. A maneira como Pelé passa a bola é a de um jogador que anda. E anda porque os deuses não correm. Correr para quê quando se é imortal? Torres parece vir a correr desde Mato Grosso, parece que correu a vida toda para chegar àquela bola. E Pelé, ao parar o jogo, é como se parasse o tempo para o companheiro chegar a horas ao encontro com a bola.

Então chego à conclusão de que a preguiça é um dom e, ao mesmo tempo, uma arte. Uma dádiva que se recebe e se aprimora com a experiência. Uma espécie de sabedoria. Há jogadores a quem os adeptos vão atirar ovos podres e tomates se não correrem em campo porque a imobilidade mostra quão inúteis são. E há outros, muito poucos, é claro, a quem a imobilidade torna visível a grandeza. Quanto menos se mexem, maiores são. Aproveitemos, pois, para ver Lionel Messi andar em campo.