Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Waldschmidt: o alemão só vem a Portugal de férias, por solidariedade ou berrar ordens. Não vem “trabalhar”, no sentido marxista do termo

O jogador do Benfica deve sentir a melancólica agitação do ocidental cinematográfico rodeado de crianças asiáticas a tentarem vender-lhe pulseiras ou de cegos berberes que lhe puxam pela camisa e lhe lançam terríveis pragas ancestrais. Não tenham dúvidas de que é assim que o cérebro do jovem alemão traduz a algaraviada de Jorge Jesus. Ora bem, um homem nestas condições só pode ter cara de empréstimo

Bruno Vieira Amaral

Quality Sport Images

Partilhar

Cara de empréstimo. O leitor conhece. Um jogador chega ao aeroporto, dá-se o desconto do jet-lag e vê-se logo se tem cara de empréstimo, ar provisório. Alguns ainda nem sabem bem onde é que aterraram, em que país estão. Esperam uma chamada do empresário: “é mesmo aqui que te tenho de ficar?”, perguntam, em tom de empréstimo. “Tem de ser”, diz-lhes o agente FIFA n.º 14 159. E, por vezes, a cara de empréstimo não desaparece nem com treinos nem com jogos.

Facto curioso é quando um jogador vem a título definitivo, mas traz cara de empréstimo. Que um futebolista, digamos, um Todibo, chegue com ar de empréstimo, exiba uma mistura de tédio com desespero, se sinta preso num elevador como se estivesse num pesadelo kafkiano, é normal. É até salutar, diria eu. Se um jogador que vem para o Benfica emprestado pelo Barcelona não chegar com uma boa dose de perplexidade e incredulidade na bagagem então não lhe auguro uma grande carreira.

O ar de empréstimo é também compreensível, por exemplo, num Waldschmidt. Meu Deus, o jogador alemão não está tecnologicamente para se aventurar em ligas menores. E aqui não me refiro só a Waldschmidt mas a qualquer jogador alemão. Há uma incompatibilidade genética entre o futebolista germânico e as ligas abaixo do 5.º lugar do ranking da UEFA. Em geral, o alemão só vem a Portugal de férias, por solidariedade ou para berrar ordens numa fábrica. Não vem “trabalhar”, no sentido marxista do termo.

Um Waldschmidt é o equivalente aos jogadores portugueses de cujos feitos em ligas balcânicas ou do sudeste asiático vamos tendo vagas notícias na imprensa. A diferença é que o português nasce equipado com um sistema de emigração, razão pela qual temos aqui na Tribuna a rubrica “A Casa às Costas”, uma expressão impossível de traduzir para alemão (qualquer coisa como “mit dem haus auf dem rücken” deve ser como os alemães se referem aos polacos ou aos checos).

Então, um Waldschmidt chega a Lisboa com cara de empréstimo, deslocalizado, como se tivesse acordado num daqueles filmes dos anos 80 em que as cenas na China ou em países árabes eram sempre em zonas movimentadas e caóticas, como mercados ao ar livre. Waldschmidt deve sentir a melancólica agitação do ocidental cinematográfico rodeado de crianças asiáticas a tentarem vender-lhe pulseiras ou de cegos berberes que lhe puxam pela camisa e lhe lançam terríveis pragas ancestrais. Não tenham dúvidas de que é assim que o cérebro do jovem alemão traduz a algaraviada de Jorge Jesus. Ora bem, um homem nestas condições só pode ter cara de empréstimo.

A curiosidade está no jogador que vem para ficar com cara de quem vai partir. O jogador com mais cara de emprestado da história do futebol português não era um alemão, mas um brasileiro, Anderson Polga, durante anos festejado como o único campeão do mundo a alinhar num clube português. Acho que o central jogou uns dez anos no Sporting e nunca perdeu o ar de quem no final da temporada está pronto a voltar à casa-mãe e que, por um qualquer incidente burocrático, se vê forçado a vestir de verde-e-branco outra vez.

Ao fim de tantos anos, mesmo um jogador sem vocação e líder adquire, ainda que involuntariamente, certas competências, um estatuto perante os companheiros, um prestígio acidental, meramente cronológico. Todos menos Polga. Era como se tivesse acabado de chegar. Se alguém lhe fosse pedir responsabilidades era bem capaz de responder “eu só estou cá de empréstimo.”

Outro jogador assim? Esse mesmo. Sebastián Coates. Já falarei da metamorfose deste ano, mas nas últimas temporadas, se a memória não me falha, o central uruguaio marcou uns dez autogolos e cometeu três penáltis num só jogo, além de uma série de falhas cómicas que conduziam os adeptos do Sporting a um desespero preventivo sempre que o viam entrar em campo. Como li há dias a propósito de outro assunto, Coates estava numa tal maré de azar que, se abrisse uma funerária, no dia seguinte as pessoas deixavam de morrer.

Agora é o salvador da pátria. A sua perpétua cara de empréstimo transformou-se no perfil marmóreo dos heróis das gestas leoninas da igualha de um Miguel Garcia ou de um André Cruz. Na mitologia sportinguista há um momento de absoluto acerto cósmico a que é dado o nome de “mercado de inverno de 99/2000”. Os jovens sportinguistas crescem a ouvir histórias sobre essa fenomenal janela de transferências e é normal que mesmo aqueles que não o viram jogar tenham a nostalgia de André Cruz.

O verdadeiro sportinguista é o adepto que tem essas duas nostalgias gémeas: do mercado de inverno de 99/2000 e de André Cruz, esses bilhetes de lotaria soprados pelos ventos do acaso até às mãos habitualmente azaradas do Sporting Clube de Portugal. E agora, eis o homem, Seba Coates, sacudindo o pó dos vestígios de Anderson Polga e da sua postura provisória e transformado num André Cruz, líder e autor de golos milagrosos ao cair do pano. Mas sobre esses golos e o seu significado para os adeptos falarei noutra crónica