Sobre o fim de Ronaldo e Messi: para quem já foi um deus, ser apenas humano é uma despromoção imperdoável
É muito tentadora a ideia de ser o primeiro a decretar o fim de uma era. A pax cristiana e a pax messiana já duram há tanto tempo que, apesar de todo o brilhantismo individual, apesar de todos os títulos coletivos conquistados, há uma necessidade de mudança, o cansaço da repetição, todos os dias os mesmos filmes nos mesmos canais. E quando alguma coisa não lhes corre bem hordas de profetas tardios correm para as ruas – “o mundo acabou de acabar!” – esquecendo-se de que se o mundo tivesse acabado eles não estariam cá para o anunciar
15.03.2021 às 10h49
Aqui estão Cristiano e Messi, com toda a honra e glória e pompa e circunstância
Alexander Hassenstein - FIFA
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As saídas sem glória do Mundial da Rússia, a Bola de Ouro para Modric, o 8-2 do Bayern ao Barcelona, a poderosa Juventus a cair aos pés de Ajax, Lyon e Porto, o surgimento de Mbappé, Haaland e até o surto goleador de Lewandowski: os funerais futebolísticos da era Messi-Ronaldo já foram anunciados tantas vezes que até duvidamos da realidade física das suas presenças em campo. Não serão fantasmas de um século esquecido?
Ontem, domingo, dia 14 de março, às 17 horas, na ilha da Sardenha, o rei Ronaldo estava morto e praticamente enterrado sem respeito ou veneração, culpado de todos os males que afligem o clube de Turim, bode expiatório dos fracassos europeus, da campanha desastrosa no campeonato e muito provavelmente da quarta vaga da Covid-19. Às 17h30, o rei tinha ressuscitado com um hat-trick perfeito.
É muito tentadora a ideia de ser o primeiro a decretar o fim de uma era. A pax cristiana e a pax messiana já duram há tanto tempo que, apesar de todo o brilhantismo individual, apesar de todos os títulos coletivos conquistados, há uma necessidade de mudança, o cansaço da repetição, todos os dias os mesmos filmes nos mesmos canais. E quando alguma coisa não lhes corre bem hordas de profetas tardios correm para as ruas – “o mundo acabou de acabar!” – esquecendo-se de que se o mundo tivesse acabado eles não estariam cá para o anunciar.
Uma coisa é certa: estamos no crepúsculo de uma era. Os pretendentes batem à porta do poder cada vez com mais insistência e qualquer dia derrubam as portas do castelo com aríetes. Isto se as muralhas não se desmoronarem antes disso. É pouco provável que Cristiano e Messi sejam as forças motrizes capazes de impulsionar os respetivos clubes e seleções para novos períodos de domínio. Mas não seria muito inteligente considerá-los acabados.
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