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O golo fantasma de Ronaldo

"Já não me lembrava como era o futebol antes do VAR e da tecnologia da linha de golo. Que emoção! Assim vale a pena. É assunto para semanas, uma polémica para a história, as gerações vindouras hão de falar do monumental roubo de Belgrado", escreve Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

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Já não me lembrava como era o futebol antes do VAR e da tecnologia da linha de golo. Que emoção! Assim vale a pena. É assunto para semanas, uma polémica para a história, as gerações vindouras hão de falar do monumental roubo de Belgrado. A bola entrou? Entrou, mas haverá coisa mais bela que o fator humano, a falibilidade oftalmológica de um fiscal de linha, a desorientação de um árbitro? Não há. Foi para isto que se inventou o futebol. E assim é que é bonito. Como em tudo na vida, a tecnologia conspurca e destrói as coisas belas. Queremos um futebol puro com erros de arbitragem e golos-fantasma!

Agora que penso nisso, o golo de Cristiano Ronaldo não foi um golo-fantasma. O golo-fantasma é aquele em que a bola não entra e o árbitro valida. Todos temos na memória o célebre golo-fantasma de Luis García pelo Liverpool contra o Chelsea de Mourinho, em 2005. Aliás, foi o treinador português quem enriqueceu o léxico futebolístico inglês com a expressão “ghost goal”. É verdade. Até aí os ingleses, os propalados inventores do futebol, não tinham uma expressão para designar um golo que foi sem ser – teria que ver com o sentimento de culpa, um recalcamento verbal pelo golo de Geoff Hurst que lhes deu o campeonato do mundo em 1966, o mais famoso dos golos-fantasma?

Ora, dizia eu que este não foi um golo-fantasma. Digamos que se tratou de um golo de corpo inteiro mas barrado no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras por falta de documentos, um golo clandestino, um golo sem papéis invalidado por um árbitro aos papéis. E mais um golo para a coleção de não-golos de Cristiano Ronaldo, a juntar ao pontapé-de-bicicleta no Estádio do Bessa contra o Azerbaijão e à jogada fantástica num particular contra Espanha, no Estádio da Luz, que resultou num golo anulado por fora de jogo de Nani que foi meter o bedelho onde não devia. Ainda me lembro da reação de CR7. Naquela noite, Nani foi vítima de uma tentativa de homicídio por telepatia. Tenho a certeza.

É que nada aborrece tanto Cristiano Ronaldo como lhe subtraírem um golo. Ele já perdeu campeonatos e taças e todos os títulos que é possível perder (e já os ganhou a todos, ou quase), levou cabazadas históricas dos rivais em jogos contra o seu arqui-inimigo dos relvados, Messi, mas aquilo que o chateia é marcar um golo e não ver o árbitro apontar para o centro do relvado. É de arrancar os cabelos ou, pelo menos, a braçadeira. E aqui chegamos ao ponto importante de toda esta confusão.

Para sermos honestos, o apuramento de Portugal para o Mundial não ficou comprometido por causa do golo-clandestino, o golo que ia ser mas não foi. A FIFA arranjou um tal sistema em que é quase impossível que as melhores seleções não se apurem. No entanto, um roubo é um roubo e era melhor ter ganhado o jogo na Sérvia do que vir de lá com um empate. Tudo bem. Mas se este não-golo serviu para alguma coisa foi para vermos a importância que o povo português dá aos símbolos.

No século XVII, as autoridades japonesas perseguiram os cristãos daquele país que se tinham convertido ao catolicismo por obra dos missionários. Para testar a sua fidelidade à religião, ordenavam-lhes que pisassem uma imagem com um símbolo cristão. A este ritual dava-se o nome de “fumi-ye”. Muitos fiéis eram incapazes de pisar a imagem e acabavam torturados e condenados à morte. “Silêncio”, romance de Shusaku Endo, e o filme de Martin Scorsese baseado no livro, mostram como era conduzido esse ritual. Para salvar a pele, a maioria dos portugueses não hesitaria em pisar qualquer símbolo, por mais sagrado que fosse. A exceção, claro está, é a braçadeira de capitão da seleção nacional.

A braçadeira, descobriu-se agora, é sagrada. Imagino as reações de horror nos lares portugueses quando Ronaldo atirou ao chão a relíquia. Pais em estado de choque a taparem os olhos às criancinhas assustadas: “Paizinho, o que é que o Ronaldo fez?” E os pais, tentando poupar as crianças à violência das imagens: “Não fez nada. Foi a braçadeira, filho, o símbolo mais respeitado da nossa nação em chuteiras e calções, que lhe escorregou do braço. Já devia estar lassa.” A indignação não teria sido maior se Ronaldo tivesse cuspido no túmulo de D. Afonso Henriques ou se tivesse pisado uma camisola poveira.

Isto é caso para se retirar a nacionalidade a Cristiano Ronaldo. Aí está uma boa ideia. Trocamos Ronaldo pelo golo que não foi. Ao golo clandestino oferecemos-lhe a nacionalidade, uma casa numa aldeia despovoada do interior e uma condecoração presidencial. A Ronaldo, damos-lhe um pontapé no rabo e expulsamo-lo da cidade, como os gregos antigos faziam aos compatriotas que se portavam mal. Não queremos cá gente que trata assim uma braçadeira.

Saberá ele que ínclitos braços envergaram braçadeiras idênticas? Ah, malvado, desta vez foste longe de mais! Bem vistas as coisas, ainda temos de agradecer à equipa de arbitragem holandesa pelo favor que nos fez, o de ajudar a desmascarar este Miguel de Vasconcelos. Além da nacionalidade portuguesa atribuída ao golo, proponho a Ordem da Liberdade para Danny Makkelie e para o seu esforçado, porém vesgo, assistente, Mario Diks (o nome diz tudo).