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Diogo Pombo

Diogo Pombo

Jornalista

Saber perder, por Iker Muniain

O Athletic de Bilbao perdeu contra a Real Sociedad, no sábado, a primeira final basca da história da Taça de Espanha e o seu capitão foi gracioso no momento da derrota: permaneceu sozinho, no relvado, a aplaudir enquanto os adversários erguiam o troféu

Diogo Pombo

RFEF HANDOUT/Lusa

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Esfolem-se lá dentro, corram atrás de todas as bolas e quaisquer jogadas, o esforço é inegociável, cerrem a faca com os dentes e dêem tudo o que têm porque para ganhar vale esse tudo que vocês derem e mais ainda; há que deixar a alma em campo, é costume ouvir que, se é para acontecer, então que se venda cara o que faz todo o desportista ser fona e forreta - a derrota.

Ela é inevitável e se o tema é futebol, nunca existiu alguém que jamais a tenha provado em campo. O sabor é intratável para o paladar que seja. Ninguém gosta de perder e ninguém alguma vez o apreciará, a derrota do Athletic no sábado (0-1) deve ter roído muitas das entranhas do capitão Iker Muniain, ele próprio carcomido por azares recentes com lesões que o mantiveram longe da camisola que ele e tantos bascos vestem em Bilbao para ser a única vestimenta que adornam durante uma carreira.

Muniain perdeu na decisão da Taça de Espanha contra quem o rápido julgamento faz concluir que lhe será mais custoso perder. A rival Real Sociedad derrotou-os na primeira final basca da história que demorou um ano a suceder num estádio vazio de gente, mas que seria enchido pelo jogador com o menor tamanho palpável em campo.

Quando a final terminou, Iker Muniain foi o primeiro a acorrer aos corpos tombados, extasiados ou irrequietos dos adversários. Cumprimentou cada um dos tipos contra quem desdenhava perder, presumo que a felicitá-los pela vitória que os evadia há 34 anos e foge ao Athletic já lá vão 37.

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Ele passou entre as lágrimas e os abraços descontrolados, distribuiu os passou-bens e os abraços enquanto a festa alheia acontecia, momentos em que é comum ver os derrotados a retirarem-se para longe da folia adversária. Não Muniain, que subiu à tribuna para receber o empratado troféu dos derrotados, baixou ao relvado com o seu cabisbaixo e lá ficou, a ver Asier Illarramendi erguer o caneco sozinho lá em cima.

Quando o capitão da Real desceu ao relvado para o fazer com a equipa, os jogadores do Athletic abandonaram o protocolar visionamento da festa dos vitoriosos; basta, foram embora para o balneário, mas sobrou um. Iker Muniain permaneceu, os pés plantados na relva, o olhar penoso no rosto, o prato dos perdedores entalado entre o braço e o tronco para que as mãos ficassem livres e dedicadas ao que o mantivera por ali após todos se irem.

A taça já estava a ser erguida pelos jogadores da Real naquela apoteose típica dos vencedores, aglomerados na altitude do palanque; música tocava no estádio, choviam confetti azuis e brancos e ao fundo, firme e inerte, isolado da celebração, estava Muniain, sozinho a aplaudir a festa de quem o derrotara, dando palmas a quem os adeptos do Athletic menos apreciarão conceder o resultado de um jogo.

Mas o futebol é isso mesmo, um jogo no qual é louvável a competição e a rivalidade que puxe melhor melhor de pólos opostos e se veja quem sai vencedor. Não é uma guerra onde vale tudo para ganhar, incluindo ofender, insultar e desrespeitar o outro só por defender outras cores e, com os anos, se foi vendo colar a imagem de anjinho ou verdinho a quem seja como Iker Muniain.

Ninguém gosta de perder, nem alguma vez se pedirá que se goste. Mas saber perder, como o espanhol o demonstrou, revela empatia pelo outro, porque ele saberá que um dia pode tocar-lhe ganhar estas finais e nesse dia, depois das manhas e da matreirice que hoje há em quase todos os jogos, também saberá o que custa estar do outro lado.

Muniain também terá consciência que as televisões o fitavam, mais ainda quando nas bancadas não têm gente há um ano e agora os exemplos são mais focáveis, rebobináveis e amplificáveis pelas câmaras, seja o seu ou os de quem barafusta ou ofende quando busca uma vitória. Ser gracioso na derrota não significa que ela custe ou doa menos.

Ele deu o exemplo de que quanto mais se souber perder, mais se desfrutará quando se acabar por ganhar.