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Só à estalada

Uma vitória na final da Taça de Portugal teria sido um desfecho ilógico para um Benfica que falhou em todos os momentos cruciais desde o início da época, à exceção do ligeiríssimo consolo de impedir que o Sporting acabasse o campeonato invicto, escreve Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

PAULO CUNHA/LUSA

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Na sua inesquecível ode ao empoderamento feminino, Ruth Marlene, a Madonna do Lavradio, cantava: “Quando os rapazes vêm com ela fisgada / Daqui não levam nada / Ai daqui não levam nada”, para acrescentar “E quando algum quer fazer logo marmelada / Então, só à estalada / Ai então, só à estalada.” Num fim de semana em que a equipa de futebol feminino do Benfica mostrou aos rapazes como é que se faz, os rapazes fizeram questão de lembrar que, por vezes, isto só vai lá à estalada. Quer dizer, não vai, mas sempre se faz alguma coisa.

No fundo, no fundo, era quase obrigatório que a época dos 100 milhões terminasse assim, com uma derrota e um sentimento de impotência que dá vontade de despachar tudo à estalada. Uma vitória na final da Taça de Portugal teria sido um desfecho ilógico para um Benfica que falhou em todos os momentos cruciais desde o início da época, à exceção do ligeiríssimo consolo de impedir que o Sporting acabasse o campeonato invicto.

Desde a fatídica eliminatória com o PAOK (meu Deus, o PAOK! Um dia ainda nos vamos aperceber da real dimensão desta super-tragédia grega), a equipa andou sempre à deriva, trôpega, bêbeda e, como todos os ébrios, a acertar ocasionalmente o passo com vitórias absolutamente obrigatórias mas que, nesta temporada, tinham o sabor de um regresso à normalidade, àqueles tempos não muito distantes em que o adepto benfiquista se sentava tranquilamente para assistir a um jogo com a certeza de que cedo ou tarde os golos surgiriam, fatais, inescapáveis.

Foi um ano penoso. Seria sempre penoso tendo em conta estes resultados, mas foi particularmente penoso pelo investimento inicial, pela chegada de nomes fortes, pela contratação de um treinador conhecido de todos (para o bem e para o mal) e pelo estado da concorrência. Não é de admirar que, em outubro, um daqueles sujeitos cinzentões que vivem nos interstícios da estrutura tivesse vindo dizer que o Benfica ia ganhar o campeonato com uma perna às costas. Claro que este é o tipo de coisas que não se diz em público, mas era a convicção íntima de muitos: era um ano para cavar o fosso, para alargar a distância.

Resultado? Tudo o que podia correr mal, correu. O golpe inicial do falhanço do apuramento para a Champions, os “enterranços” de um jogador como Otamendi, os meses de abulia de Jorge Jesus, a instabilidade emocional de Darwin, os pesos pesados do plantel transformados em pesos mortos, o eclipse dos produtos “made in Seixal” e, por último, a lamentável prestação de Luís Filipe Vieira na comissão de inquérito às perdas do Novo Banco, um simbólico fim de linha para um presidente perdido num labirinto de interesses, favores, dívidas, reestruturações em que o Benfica, que devia ser a prioridade do homem que ocupa a presidência do clube, surgiu como apenas mais um fio de uma teia interminável, um acessório, um dano colateral, uma peça secundária.

Os adeptos dos clubes, com a irracionalidade da paixão, perdoam qualquer coisa a um presidente – e qualquer coisa é perdoar mesmo quase tudo – menos o desapego, a sensação de que a defesa do clube não é a sua maior preocupação. Para mal de Vieira, o seu desapego ficou cruelmente exposto ao dizer que foram os homens do dinheiro, os antigos donos disto tudo, a empurrá-lo para a presidência do clube. Isto é a capitulação, o reconhecimento final do fracasso, a perda de toda a autoridade. Depois disto como é que a época poderia terminar de outra maneira? Tinha de acabar assim, com Jesus a sorrir para as crianças que cantavam o hino antes do início do jogo e com o descalabro emocional dos seus jogadores no fim. Tudo à estalada, sem liderança, sem controlo, sem dignidade. Um momento negro mas que assenta perfeitamente numa época negra.