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Crónica
Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

As crispações que acontecem no futebol devem estar limitadas ao futebol. Cá fora tem que haver respeito mútuo, elevação e elegância

Há, no mundo, cerca de 270 milhões de pessoas diretamente envolvidas na indústria do futebol. Equivale a quase 4% da população global e a ligação umbilical de tanta gente a um jogo com características tão sui generis, escreve Duarte Gomes, tende a adulterar a forma como algumas coisas são percecionadas: quando estamos demasiado perto daquilo que gostamos, perdemos a perspetiva

Duarte Gomes

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Ando por estes dias pelo norte, a promover o meu último livro, no qual tento esclarecer tecnicamente algumas das situações mais controversas do jogo. Estamos a falar, por exemplo, da intensidade dos contactos, de entradas impetuosas, de mãos e braços na bola, de foras de jogo posicionais, perdas de tempo, critérios e afins.

Quem anda neste mundo há mais tempo do que eu (e eu sou novo nestas andanças) sabe que este tipo de iniciativas requer paciência e perseverança. É preciso caminhar com baby steps e apontar armas ao único grande objetivo, que é o de tentar passar a mensagem certa ao maior número possível de pessoas.

Porquê? Porque o futebol não é, de facto, um jogo qualquer. O futebol é majestoso. É uma atividade entusiasmante e rara, que mistura talento e fortuna, ilusão e frustração.

No futebol está tudo em jogo, a toda a hora. Mais do que em qualquer outra atividade, no futebol sucesso e fracasso andam quase sempre de mãos dadas.

Ainda assim e apesar dessa vulnerabilidade aparente, há em todo o mundo cerca de 270 milhões de pessoas diretamente envolvidas na indústria. São quase 4% da população global. Inacreditável.

Naturalmente que a ligação umbilical de tanta gente a um jogo com características tão sui generis tende a adulterar a forma como algumas coisas são percecionadas.

Não é difícil de perceber: quando estamos demasiado perto daquilo que gostamos, perdemos a perspetiva. O ângulo fecha. O coração aperta. A proximidade atraiçoa-nos a visão e tolda-nos a razão.


Às vezes, é preciso um esforço adicional significativo para nos afastarmos e vermos as coisas de outra forma. Com clareza e equilíbrio. Com distância e justiça.

O "Futebol Explicado no Relvado" tenta, com todas as suas profundas limitações, criar essa ponte. O livro em si não oferece receitas mágicas nem resolve as dúvidas de toda a gente. Não tem truques na manga nem soluções definitivas.

Tem dicas. Dicas técnicas, ferramentas e explicações, que podem ajudar a perceber algumas das decisões que os árbitros tomam em campo. Há nele uma tentativa em clarificar o lance mais chato, a situação mais polémica.

Este caminho — o da sensibilização e pedagogia através da escrita — só faz sentido se contar com o envolvimento ativo de todos os que gravitam em torno deste universo.

Por estar ciente disso, tenho tentado juntar nesta caminhada todas as pessoas ligadas ao fenómeno: jogadores, árbitros e treinadores; órgãos de comunicação social, dirigentes e funcionários de clubes; adeptos, líderes de claques e até gente da classe política.

Quando queres chegar a todos, não podes deixar ninguém de fora. Pelo contrário: tens que incluir e mobilizar. Tens que chamá-los para ti.

Quando é para tentar criar coisas boas, todos contam.

Se de facto queremos que a tolerância em torno do jogo melhore, temos que contar com quem pode ajudar-nos a alcançar esse objetivo. Não há outro caminho, não há outra forma.

No meio disto tudo, o mais importante é que a bolha enorme que permite a rivalidade desportiva, a luta renhida pela vitória e até o discurso inflamado ou o excesso pontual... nunca rebente. Nunca rompa.

Do lado de fora, do lado de cá, há uma outra vida feita de outras motivações e lutas, com tantas outras pessoas que têm mais que fazer, mas que podem ser negativamente influenciadas pelo que ali se diz e faz. O ruído que por vezes o jogo emana é demasiado ensurdecedor para que não seja ouvido, mesmo por aqueles que não querem escutá-lo.

As crispações que acontecem no futebol devem estar limitadas ao futebol. Cá fora tem que haver respeito mútuo, elevação e elegância. Tem que haver classe e grandeza. Educação.

Acima do futebol e bem para lá dele está uma sociedade onde todos participamos ativamente. Uma sociedade para a qual temos obrigação de contribuir com a nossa melhor versão.

O legado que deixaremos para os nossos filhos (e para os filhos deles) vai definir decisivamente a forma como eles nos verão mais tarde, quando já não andarmos por cá.

Esta sim, é a distância certa a que nos devemos posicionar quando nos sentirmos demasiado próximos da nossa vulnerabilidade.