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Diogo Faro

O impensável aconteceu. Maria Vieira escreveu um post decente? Berardo admitiu que estava a ser um bandalho? Não. Bruno falhou um passe

Diogo Faro viu Bruno Fernandes falhar um passe "daqueles fáceis" no meio-campo, no Portugal-Suíça, e ficou chocado - e isto é um sinal para o Sporting

Diogo Faro

Chris Brunskill/Fantasista

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RUI PATRÍCIO

As saudades que já tinha, da minha alegre casinha. Todos conhecemos a canção, estreada no filme “O Costa do Castelo” pela voz da actriz Milú, e mais tarde popularizada pelos Xutos & Pontapés, de onde este verso saiu. Quem não sabia, não tem nada que agradecer por este pedacinho de cultura geral, é de bom grado. Mas na gíria futebolística, “casa” ou “casinha” também servem como sinónimos de “frango” ou, para ser mais educado, “falha técnica passível de ser repreendida por parte de adeptos ou pelo treinador porque pode eventualmente prejudicar a equipa toda”. Se tu tinha saudades de uma casinha do Patrício? Sempre. Aquele amortecimento no peito para os pés de um jogador suíço fez-me a noite.

SEMEDO

É rápido. É muito rapidíssimo. É rapidérrimo. É rapideiríssimamente rápido. A subir no campo, a desmarcar-se, a ir atrás dos outros e deixá-los rematar à vontade. Esta última parte, se calhar, precisamos de rever, Nélson. De resto, impecável.

RÚBEN DIAS

Rúben Dias e Pepe é aquela dupla de centrais da qual é esperado que, a qualquer jogo que façam, pelo menos um deles seja preso. Mas preso a sério, não é como o David Carreira. Verdade seja dita, eles pelo menos jogam futebol a sério. E o que David Carreira faz não é bem cantar a sério. E o Rúben, além de se ter aguentado em ser preso ou sequer expulso, ainda conseguiu ser realmente boa pessoa e andar sempre de mão dada com o Rui Patrício para ajudar no que fosse preciso.

PEPE

A verdade é que não fez falta nenhuma. E no lance que deu o golo da Suíça também não. No fundo, e tendo em conta que o seu trabalho de hoje era tomar conta do Seferovic, acabou por estar o jogo todo da mesma forma como acabou o campeonato, atrás dele.

RAPHAEL GUERREIRO

Um jogo discreto. Uma corrida aqui e ali, um cruzamento mais largou ou mais tenso, um ser saco de pancada para um ou mais suíços. O que não deixou de ser fundamental para a equipa, porque isto de a Suíça ser neutra é só para não gastar dinheiro nas guerras mundiais. Quando é para dar porrada dentro de campo os meninos parecem japoneses em Pearl Harbor.

WILLIAM

Um jogo muito, muito, consistente por parte do William. Não o digo só pela enorme e inegável capacidade na recuperação de bolas, pela qualidade do passe, pela forma como olha o campo todo sempre de cabeça levantada. Digo-o, mais até, pelo corresponder de expectativas. Logo a meio da primeira, desatou num sprint pelo campo fora que deixou toda a gente assustada. Ele próprio apercebeu-se disso, pensou “calma, o pessoal não faz ideia que eu sei correr, acham que só sei andar, não os posso desiludir”, e logo parou a marcha e fez um passe para o lado para nos descansar.

RÚBEN NEVES

Não o via há muita tempo. Está com bom ar, menos pintas, mais hipster. Parece estar a usar menos aquela barba toda recortadinha, mais semi-desleixada. Deve andar a ouvir menos MC Kevinho, mais Metronomy. Deve andar a usar menos sapatos Gucci pato bravo, mais New Balance retro vintage coiso. Mas calce o que calçar fora de campo, aqueles pezinhos de chuteiras a pisar a relva são os mesmos. E aquele passe para o Bernardo é um terço da vitória de Portugal.

BRUNO FERNANDES

O impensável aconteceu. O Trump foi honesto? A Maria Vieira escreveu um post decente no Facebook? O Berardo admitiu que estava a ser um bandalho e disse que vai pagar o que deve? O Nuno Luz falou em inglês e não foi embaraçoso de se ver? Infelizmente, não foi nada disso. Felizmente, não é tão grave como todas estas coisas que referi continuarem a acontecer. O que aconteceu foi que o Bruno Fernandes falhou um passe, daqueles fáceis ali no meio-campo. E eu sei porquê. Vai-se embora do Sporting, mas no fundo quer ficar. Foi a tristeza que falhou o passe, não foi ele. Fica, Bruno. Fica.

BERNARDO SILVA

Em demasiadas coisas da vida, muitas vezes não nos damos bem conta da importância absurda que determinadas acções têm para o resultado final. A importância do beijo no sexo. A importância do chouriço no caldo verde. A importância da receção de bola no futebol. Quer dizer, muitos de nós não nos damos conta, o Bernardo dá. Pelo menos no último tópico. É que a receção de bola que faz ao passe do Neves – já nesta crónica referido enquanto forma de beleza futebolística – merecia que passasse em tantas repetições como o golo em si.

JOÃO FÉLIX

Sim, jogou pouco. Sim, esteve apagado. Sim, passou muito ao lado do jogo. Agora, o que é que queríamos, tendo em conta forma como tem sido tratado? É a estreia do miúdo na Selecção e, só há 74 notícias sobre isso por dia? Temos 3 jornais desportivos e só apareceu na capa 28 vezes nos últimos 4 dias? Praticamente ninguém fala nele, não há um cuidado, uma motivação, um mimo. Não é assim que se apoia os jovens. Esperemos que a situação se altere já para o próximo jogo.

RONALDO

Não sei se sou eu que sou o único a ver esta Taça das Nações como a Taça da Liga, só que das Selecções, mas aqueles berros do comentador no segundo golo pareceram-me manifestamente exagerados. O que também é capaz de ser exagerado, além do talento em si do Ronaldo, é a sua capacidade física aos 34 anos. Estamos no final de uma época em que ele, mais uma vez, fez uma época à Ronaldo. E ele fresco como se tivesse 20 anos. Estamos a meio da segunda parte de um jogo que não estava a ser fácil, ele está ali no sítio certo, a rematar da maneira certa. Fresco como se tivesse 20 anos. E depois ainda estamos ali já perto do fim e ele tira dois suíços da frente e faz um remate lindo e cruzado para o terceiro. Fresco como o cansaço fosse um conceito imaginário para ele. O Ronaldo é pedra filosofal.

GONÇALO GUEDES

Excelente altruísmo a dar as canelas a um suíço para lhe bater à vontade e descarregar as frustrações de viver num país sem jeito nenhum.

JOSÉ FONTE

Lá este o José a fazer de Pepe. Dar porrada e andar meio perdido. Mas com um cabelo mais decente.

JOÃO MOUTINHO

Aqueles 30 segundos fundamentais para segurar o resultado.