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Diogo Faro

A Gamebox é a nova renda. Ou porque é que Diogo Faro acha que o Sporting está a passar por um processo de gentrificação

Diogo Faro está arreliado com o aumento do preço da Gamebox e imagina um futuro em que, atendendo aos preços praticados, os jogos do Sporting passem a envolver cachecóis de cortiça, tostas de abacate de ovo antes dos jogos, bowls de granola ao intervalo, tudo regado com cerveja artesanal. E sem glúten, claro

Diogo Faro

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O segundo em que acaba uma época é o mesmo em que começa a próxima. Uau, excelente constatação do óbvio, digo eu a mim próprio mal acabo de escrever esta primeira frase. No entanto, com a nova época vêm novas coisas que não nos pareciam assim tão óbvias, e que poderão eventualmente ser engraçadas de dissecar. Mais concretamente, uma em específico: o preço da Gamebox 19/20.

A época passada, como já aqui escrevi, foi um milagre se fizermos a relação “porrada nos jogadores há um ano vs. resultados desportivos que até nos deram algumas alegrias”. Foi, claro, sem dúvida. Agora, a Gamebox ter um aumento médio entre 20 a 30€ da época passada para esta, a ser também um milagre, é o milagre da multiplicação à bruta sem consentimento. Ou, se calhar, o Sporting também está a sofrer de gentrificação e nós ainda não reparámos.

Aos poucos, as roulottes à volta do estádio vão ser cabanas de plástico reciclado idealizadas pelo Bordalo II e vão começar a servir brunches. Antes dos jogos vamos comer tostas de pão integral com abacate e ovo escalfado cuja gema escorre eroticamente nas stories do Instagram sublinhadas com as hashtags #DiaDeSporting e #loveavocato. Para empurrar a tosta e começar a dar ânimo para o jogo, enquanto discutimos o 11 e nos regozijamos pelo Gudelj já não fazer parte dele, vamos fazendo uma degustação de cervejas artesanais biológicas sem glúten mas também sem Bruno Fernandes, o que as torna mais amargas. Quase hora do jogo e começamos a caminhar para o estádio, muitos de nós com sacos de pano ao ombro e cachecóis de cortiça ao pescoço, o merchandising que agora mais sai, e vamos reparando que os antigos sportinguistas estão a ser rapidamente substituídos por novos. No estádio, as antigas cadeiras de plástico são agora poltronas de vime, e ao intervalo os bares servem açaí, tapioca e bowls de granola com fruta (nada de frutos vermelhos, para o baterista não se irritar).

Voltamos para a segunda parte, continuando a cantar as polifonias rústico-contemporâneas cujo coro da Juventude Étnica e Hipster Leonina entoa afinadamente sob a batuta do maestro Mustaforino de Almeida. Ganhámos. A vitória era importante e, por isso, voltamos todos a cantar O Mundo Sabe Que Pelo Poliamor Eu Sou Doente, e depois saímos do estádio, também conhecido como um aglomerado de 40 e tal mil cadeiras de alojamento local, para mais umas cervejas artesanais a saber a vitória e um pouco de sobranceria. Tudo tão bonito e instagrmável.

Mas assim sendo, e se de facto estivermos a passar por todo este processo de gentrificação no Sporting, então já consigo achar normal que o preço das Gamebox subam como as rendas de Alfama