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Diogo Faro

A propósito do Sérvia - Portugal, Diogo Faro traz-nos um episódio de bigodes, very-lights e a cabeça de um polícia. True story

Esta é, digamos, a previsão possível de Diogo Faro que aproveita uma visita a Belgrado para nos contar um episódio complicado

Diogo Faro

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Lembro-me de quando há uns anos fui á Sérvia.

[Se leram esta frase e começaram logo a refilar – “É pá, mas oqué quéssa m**** me interessa agora? Fala mazé de bola!” – então o melhor é irem ler outra coisa e tomarem um Xanax pelo caminho para se acalmarem. Se não reagiram assim, então está tudo bem e podemos prosseguir.]

Dizia eu que me lembrava de lá ter ido. Morava em Sófia na altura, e apanhei um comboio lindíssimo, com aquele design soviético cheio de vida, cor e modernidade, tal e qual um cano de ferro que não é suposto ver a luz do dia. Tenho a certeza que o estão a imaginar.

O comboio levava umas 12, ou 14, ou 17, nunca se sabe bem, horas de Sófia a Belgrado. E uma das coisas mais divertidas que aconteceram logo no início da viagem, foi quando entram uns senhores de bigodes desarranjados e umas senhoras de lenços e saias campestres pelo meu compartimento adentro e, se na altura tivesse começado a tocar um clarinete um acordeão, eu poderia jurar que estava num filme do Kusturica.

Desatam a tirar volumes de tabaco das saias, casacos e calças, e escondem tudo debaixo dos bancos, incluindo debaixo do meu, e noutros compartimentos secretos. Alguns sentaram-se comigo. E eu achar tudo muito engraçado.

Mas isso foi só já com um par de horas de viagens nas pernas. Digo nas pernas porque apesar de ter comprado bilhete para ir sentado não havia lugares durante essas tais horas.

Chegando à fronteira com a Sérvia, o comboio pára e entram os polícias para vistoriar os passaportes de toda a gente. Fiquei à conversa com um deles e perguntei o que significava uma palavra que eu via repetidamente gatafunhada nas paredes do comboio.

Explicou-me.

Era o nome de um adepto do Partizan de Belgrado que estava preso, mas cuja libertação era exigida pelos adeptos do clube. Ah, coitado, se calhar está preso injustamente. Foi o que pensei primeiro, mas mais valia perguntar ao polícia, já que ali estávamos. Respondeu-me. Numa batalha campal entre adeptos do Partizan e do Estrela Vermelha, a polícia teve de intervir para tentar acabar com aquilo. O tal adepto resolveu enfiar um very-light na boca de um polícia e a cabeça explodiu.

Ah, boa, então é capaz que seja justo estar preso afinal de contas. Mas não deixa de ser justo que os seus colegas de afiliação não partilhem desta visão.

Agora, também vos digo uma coisa. Adorei Belgrado e os sérvios que conheci. Mas como é que daqui extraímos uma antevisão para o jogo?

Não extraímos, de facto, mas não creio que isso seja sequer pertinente porque Portugal só tem uma opção, ganhar. Se não o fizer, vai ser só uma história triste e nada engraçada, ao contrário daquela que eu vivi. Se ganhar, logo vos conto o que aconteceu aos volumes de tabaco.