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Diogo Faro

Portugal precisava mesmo de ganhar. E Diogo Faro precisava mesmo de tomar banho (o Luxemburgo - Portugal visto entre monges no Myanmar)

Esta é uma crónica diferente de Diogo Faro, que meio sem querer acabou por ver o Luxemburgo - Portugal horas depois de aterrar no Myanmar. Para lá chegar, teve de ser um bocadinho Danilo, mais um pedaço de Bernardo Silva e também um pouco de Pizzi, mas correu tudo bem. Ronaldo marcou, Portugal está no Euro2020 e ele para já vai continuar pelo Myanmar

Diogo Faro

Catherine Steenkeste/Getty

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Portugal precisava mesmo de ganhar. Eu precisava mesmo de tomar banho. Não que tais premissas sejam mutuamente exclusivas, pelo contrário, até se complementam muito bem. A selecção tinha de se enxaguar com a óbvia e obrigatória responsabilidade de estar presente no Euro 2020, eu tinha de raspar camadas de surro da pele para não envergonhar o país, acabado de aterrar no Myanmar depois de mais 24 horas de viagem.

A jornada foi dura e longa, mas senti-me Danilo e nunca me deixei ir abaixo, mesmo com condições adversas. Pouco espaço para as pernas no meu caso. Relvado em estado de catástrofe ambiental no dele.

Saído do avião, dou por mim com aquele nervoso miudinho a arrepiar-me as virilhas – é assim desde que fui deportado do Irão - quanto mais me aproximo dos balcões de controlo dos vistos de entrada. Acabei por passar pelo controlo tão facilmente quando dificilmente o Luxemburgo passou pelo Rúben Dias ou o José Fonte.

Já fora do aeroporto, o ar quente e húmido faz-se sentir e é omnipresente à nossa volta, quase tanto como o Bernardo Silva em campo. O trânsito é caótico. Carros e autocarros a buzinar, polícias a apitar e berrar, e todo o frémito de recém-chegados ao país, turistas ou nacionais, que só querem arranjar forma de sair dali. Puxei o Pizzi que há em mim e vi uma aberta para me desmarcar para um táxi que estava vazio.

Largadas as malas no hotel, fui procurar onde jantar. As ruas são um emaranhado de cães vadios, vendedores de fruta, bancas efémeras e infinitas de comida de rua, rickshaws e cabos eléctricos que alimentam os prédios feitos de pouco cimento e muita bananeira. Entrei num restaurante que era um pátio aberto. Pedi fried spicy rice e peixe frito com um qualquer molho asiático (estava incrível, fiquei a saber minutos mais tarde). Acalmando então a fome com a previsão da chegada em breve da comida, pude então descansar os olhos no que me rodeava. Monges ou civis, espalhados em grupos maiores ou mais pequenos, estavam umas poucas dezenas de birmaneses a ver televisão. Pelo entusiasmo dos seus comentários, claro que era futebol. Quer dizer, podia ser muay thai ou o Master Chef Myanmar, agora que penso nisso. Nunca sabemos ao certo o que mais empolga os povos. Mas não só era futebol, como era o Luxemburgo – Portugal. Sou o oposto do viajante que vai ao outro lado do mundo e não hesita em pedir um bitoque, uma Sagres um pastel de nata, se houver oportunidade. É que nem sequer sou gajo para adorar conhecer portugueses quando estou em viagem, que eu gosto muito de nós mas quando é para estar longe, é para estar mesmo longe. Um pouco como o Ronaldo está de estar a cem por cento. Mas, por outro lado, não deixou de me dar um quentinho no lado de dentro do peito ao assimilar aquele cenário. Ou a assimilar as malaguetas todas que entretanto tinham chegado no molho do peixe, talvez.

Bruno Fernandes marcou e o monge ao meu lado festejou mais que eu. Calma, longe de mim não ter ficado contente, mas creio que vocês não estão a perceber a fome com que eu estava e o quanto comer era mais importante que festejar golos. Agora, porque é que um monge birmanês fica tão contente com um golo de Portugal? É uma questão que podem incluir no livro das grandes questões da humanidade, e para a qual não tenho obviamente resposta.

Inevitavelmente, Ronaldo marcou, e Portugal está na Europa. Eu para já vou continuar pelo Myanmar.