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Diogo Faro

A (des)importância do futebol (o texto mais ou menos sério de Diogo Faro)

O Sporting ser campeão? "Um sonho completamente distópico", diz Diogo Faro. A pandemia do coronavírus? "É real e está a mudar o mundo" e, claro, o futebol

Diogo Faro

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Não é uma invenção como um penálti simulado, não é discutível como uma mão na bola, nem sequer é um sonho completamente distópico como o Sporting ser campeão. A pandemia do coronavírus é real e está a mudar o mundo, e consequentemente obrigar-nos-á a pôr tudo radicalmente em perspetiva. Quanto é que francamente importa se estava ou não fora de jogo, mesmo que seja o último lance da final do Mundial, quando comparado com ter-se que escolher quem recebe ou não ventilador, como está a acontecer em Itália por não haver para todos os infectados?

Acredito que alguns de vocês leiam isto e pensem: “Bem, continuo a achar mais importante ganhar o Mundial”. Mas quem pensa assim também é gente a quem nem o COVID-19 apanha, de tão bera que é.

É que, de repente, tudo se tornou relativo, quase tudo se tornou supérfluo. Nunca nos passou pela cabeça que chegaria o dia em que as pessoas andariam mais aflitas com a falta de papel higiénico do que com a falta à entrada da área. Diria até que a aflição é tal, que se a invasão a Alcochete fosse agora, aquele pessoal só entrava lá para roubar o papel higiénico todo do balneário dos jogadores e arrancava para o isolamento cada um em sua casa.

E ainda bem que, para lá do trágico que isto é, podemos tirar coisas boas. E um das melhores tais coisas é, sem dúvida, terem acabado todos os programas sobre futebol. É uma boa altura para finalmente o país perceber que estes programas são tão inúteis como qualquer um que tenha a participação da Lena das Cartas, e que esteja sempre a impingir chamadas de valor acrescentado aos velhotes que mal ouvem o que os apresentadores dizem, mesmo que gritem, aproveitando o intervalo para lhes vender aparelhos auditivos.

E mais que isso. É uma excelente altura para olharmos para o futebol e nos voltarmos a lembrar do que é que realmente importa nele. E o que é que realmente importa, afinal? São os abraços aos fãs do mesmo clube, é uma rivalidade saudável e não bárbara, são as jolas com os amigos na tasca. É isto! Não é os resultados, ou lugar em que se fica no campeonato. Ou seja, é ser do Sporting nos últimos anos porque o que importa mesmo é participar.

Claro que estou a pegar em exemplos parvos (embora bastante reais) para ilustrar o meu ponto. Mas a verdade é que é mesmo uma excelente altura para repensarmos o futebol. Para que é que serve? Quem é que serve e como o serve? Como é que se pode promover mais o desportivismo como peça fundamental para a sanidade social das comunidades, em desprimor do capitalismo exacerbado que controla o futebol sem passar o mínimo crédito aos adeptos que o sustentam através do consumo e até do amor que despendem?

À partida, nada vai mudar, digo-vos já. Mas não custa nada pensarmos sobre isto, até porque tempo agora não nos falta.