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Diogo Faro

Covid-19? Pandemia? Diogo Faro lamenta a maior tragédia de todas: jogadores de futebol a baixar salários

"Vocês conseguem imaginar o que é ganhar 50 mil euros por mês e, de repente, mesmo que até se perceba que é mais ou menos grave o que sucede no mundo, passa-se a ganhar, para aí, menos 20%? É duro, é duríssimo passar a ganhar apenas 40 mil euros, que mal dão para comprar um par de ténis Gucci por dia", lamenta o humorista Diogo Faro

Diogo Faro

Natalia Fedosenko

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Muito se tem falado das várias dimensões da tragédia que a covid-19 consigo traz, seja a pandemia de panquecas de aveia das influencers, sejam os lives no Instagram com sete pessoas a ver e nos quais entramos por engano e depois temos vergonha de sair porque achamos que vão dar conta. Mas nada é tão trágico como a hipótese de os jogadores de futebol terem mesmo de baixar os ordenados.

Por todo o mundo, vários clubes ponderam esta opção, ou até já a puseram em prática, para que consigam pagar os salários de todos os outros funcionários. Ideia muito dura, à qual muitos jogadores se opõem, compreensivelmente. O que já não compreendo tão bem é o facto de muitos serem a favor da medida, como se realmente percebessem que sem adeptos (incluindo funcionários e demais funções associadas ao desporto, remuneradas ou não) não há futebol. Quer dizer, pode haver. Se quiserem voltar a jogar em pelados abandonados, naqueles jogos cujo árbitro é quem estiver mais bêbado na tasca da aldeia à hora de começar.

Ora, vamos lá pôr-nos nas chuteiras dos jogadores, principalmente dos que são contra a medida. Onde é que está a empatia social para com estas pessoas? Vocês conseguem imaginar o que é ganhar 50 mil euros por mês e, de repente, mesmo que até se perceba que é mais ou menos grave o que sucede no mundo, passa-se a ganhar, para aí, menos 20%? É duro, é duríssimo passar a ganhar apenas 40 mil euros, que mal dão para comprar um par de ténis Gucci por dia e, tragicamente, pode mesmo obrigar a ter que se usar o mesmo par mais do que uma vez na vida, mesmo que seja para ficar em casa.

Pode parecer ligeiramente frívolo, à primeira vista, mas não consigo imaginar a dor que deve ser ter de mudar de estilo de vida tão drasticamente. Uma coisa é quem ganha 900€ passar a ganhar a 700€, porque já está habituado a que lhe sobrem 50€ e uns trocos depois de pagas a renda e as contas. Outra coisa é viver que nem um príncipe e, do nada, ter que passar a viver como um príncipe na mesma.

Por isso, é perfeitamente normal que, mesmo que relutantemente, os jogadores que estão a acabar por acatar estas medidas enquanto o campeonato está parado, queiram ser pagos com retroativos aquando do recomeço da competição. Nem que seja para gastarem em psiquiatras que os ajudem a reparar os danos psicológicos causados pelo impedimento de estarem mais que duas semanas sem estar num jacuzzi a comer lagosta.

Claro que temos o Zlatan e Ronaldo a doar milhões, Quaresma a fazer vídeos de receitas de bolos e a aconselhar a ficar em casa, Sadio Mané a dizer que saúde mundial é mais importante do que ganhar a Premier League, e mais uma data de clubes e jogadores preocupados com a saúde e as finanças dos outros. Mas não são estes que vão vingar na vida, como bem sabemos, porque o futebol que se quer é o dos mercenários. E dos mercenários a tempo inteiro, que a ganância não tira férias nem em catástrofes.