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Braga: “Cashball, e-mails, vouchers, é tudo mau. Mas o pior no futebol foi Alcochete. Falei com o Battaglia que me disse que foi um terror”

Aos 35 anos, Braga é o veterano da equipa do Desportivo das Aves, após a saída do guarda-redes 'quarentão' Quim. Não gosta de pensar na idade, nem de dar palpites aos mais jovens, que diz serem muito diferentes dos seus tempos de novato, quando até sentia vergonha de escolher o seu lugar no balneário. Depois do sonho da conquista da Taça de Portugal, conta que a equipa quer agora repetir a proeza, em Aveiro, este sábado, frente ao FC Porto. A caminhada rumo ao troféu inédito na Taça deu um filme já à venda e que o clube da pequena Vila das Aves quer colocar no Netflix. Haverá uma sequela, se a equipa de José Mota surpreender o campeão nacional?

Isabel Paulo

Rui Duarte Silva

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Nesta pré-época, o Aves somou reveses nos particulares com o Arouca, Sanjoanense, empatou com o Vitória de Guimarães e venceu nos penaltis o Santa Clara para a Taça da Liga. A equipa ainda não está oleada ou é um sinal tem menos soluções do que a que venceu a Taça de Portugal?
O importante foi passar à fase de grupos da Taça da Liga. Esta época temos a vantagem de a equipa ser quase a mesma do que a que ganhou no Jamor e já conhecemos bem o mister [José Mota]. Os resultados da pré-época não foram os melhores, mas não é isso o mais importante. O que nos disse o mister foi que o importante era trabalhar bem, sem pensar muito nos resultados. Claro que ganhar é melhor do que perder, mas na fase de preparação as derrotas não pesam muito na equipa. Acho que estamos preparados e a vitória na Taça da Liga deu-nos confiança para partir para a Supertaça.

Antecipa um jogo mais difícil do que o da Taça frente ao Sporting?
Teoricamente será mais difícil, porque vamos defrontar o campeão nacional, que também manteve praticamente a mesma equipa. Tal como acontece connosco, o treinador e as rotinas são as mesmas, e manteve a dinâmica de vitória. Mas, numa final, as hipóteses são sempre 50/50, mesmo perante um mais adversário mais forte...

E ao contrário do Sporting, o FC Porto não se apresenta fragilizado...
Algumas pessoas ligadas ao futebol, e até muitos do que estão de fora, associam a nossa conquista da Taça aos acontecimentos de Alcochete. Não é bem verdade. Quem estava lá, sentia no campo que havia jogadores fragilizados, mas entraram em campo para ganhar, deram luta e nós ganhámos com justiça. Foi um feito inesquecível.

Que deu um filme - 'CD Aves rumo ao Jamor' -, já à venda, que documenta a caminhada até à conquista da Taça de Portugal e que a direção quer colocar na Netflix. Se vencerem a Supertaça, está prevista uma sequela?
Não faço ideia, mas pode acontecer.

Assistiu aos jogos dos sub 19?
Não vi o Europeu. Assisti à segunda parte da final e ao prolongamento...

Qual é a sua explicação para os jogos dos mais jovens ser mais espontâneo e espetacular, enquanto o dos seniores é mais resultadista?
Se calhar porque os jogos são mais difíceis e a responsabilidade ser outra. A formação não tem tanta responsabilidade, ficam mais libertos, querem aparecer. É a minha ideia. Uma coisa é jogar na I Liga, em que a dificuldade é maior, sabemos que ganhar um jogo é muito difícil e mais vale ter cautelas do que ir tudo para a frente, como fazem os miúdos.

Depois de Quim ter deixado o futebol, aos 42 anos, agora, com 35 anos, é a sua vez de ser o veterano da equipa...
Por meses, sou o mais velho. Esta equipa é bastante experiente. É um misto, temos vários jogadores acima dos 30 anos e outros com 18.

O facto de ser o mais velho acarreta outra responsabilidade no balneário? Gosta de dar conselhos aos mais jovens?
São muitos anos disso, mas sinceramente não gosto de pensar na idade. Pensar nisso, pode refletir-se em campo. Claro que no balneário há outra responsabilidade – respeitam-me, como respeito os outros –, mas, hoje, os mais novos não são de pedir conselhos. Antigamente, os mais jovens tinham mais respeito pelos mais velhos, agora esta geração é diferente. Não que sejam desrespeitosos, mas não gostam de ouvir, pensam que já sabem tudo. Quando era novo, até para arranjar lugar no balneário tinha vergonha. Agora chegam ao autocarro e, se tiverem de se sentar no lugar dos mais velhos, sentam-se. São mais desinibidos.

Em campo, o que pode dar à equipa um jogador mais velho em relação aos mais jovens?
Ganham-se coisas e perdem-se outras. Ganha-se experiência, que é fundamental no futebol, embora se perca velocidade e agilidade. Aprende-se onde se pisa melhor o terreno, sabe-se que é melhor ir por ali, em vez de por outro lado, e a dosear melhor o esforço. Um miúdo com 20 anos entra no jogo e dá logo tudo e depois não aguenta os 90 minutos. Ou seja, há vantagens e desvantagens. E com a idade aprende-se a desligar mais depressa do jogo, enquanto para os mais novos os desaires pesam mais.

Já pensou até quando vai jogar?
Acabei de fazer 35 anos e, enquanto me sentir assim, não penso em abandonar o futebol. Levo uma vida regrada, treino e descanso bem. E felizmente nunca tive lesões, o que é importantíssimo para se ter uma carreira longa.

Gualter Fatia

Faz treino específico? Preocupa-se em perder peso, como aconteceu na última época para não perder velocidade?
Não faço nada específico, mas quando se tem 34, 35 anos é fundamental jogar. Quando se começa a entrar aos bocadinhos, sente-se dificuldade. A caixa já não é a mesma. Fundamental é sentir que se é útil e jogar regularmente. Depois, preocupo-me em ter uma alimentação equilibrada e em descansar. Quando se passa os 30, o peso sobe e baixar de novo não é fácil. Se não se cortar à boca, não há hipótese.

Começou por jogar a extremo e passou a médio...
Comecei a jogar a extremo no Rio Ave, era mais rápido, tinha mais capacidade de explosão, depois fui para posições mais interiores, onde não é preciso tanta velocidade. E também por ser versátil, não estou tão preso a uma só posição. O mister conhece-me há bastante tempo, sabe do que sou capaz.

O facto de o Aves ter conquistado em campo o direito de ir à Liga Europa e ter falhado a prova na secretaria poderá ter reflexos no rendimento e ambição da equipa ?
Não creio, embora tenha sido uma desilusão para os jogadores e para a direção. Foi triste, até porque logo após a conquista da Taça de Portugal, na brincadeira uns com os outros, dizíamos que íamos jogar com o Chelsea ou outros gigantes. Para muitos jogadores, como é o meu caso, era uma estreia numa prova europeia. Não teve de acontecer, foi uma questão da direção, mas não sei bem o que sucedeu. Passou e nem me quis inteirar porquê.

Começou a jogar no FC Porto. Como surgiu a oportunidade?
Nasci no Porto e só fui viver para Matosinhos quando fui jogar para o Leixões. Nas camadas jovens, dos oito até aos juvenis, vivi mesmo ao lado das instalações do FC Porto na Constituição e fui lá treinar com o meu irmão gémeo. Quando fomos dispensados, o meu irmão desistiu e eu fui para o Salgueiros até subir a sénior, no ano que o clube desceu à II Liga e no ano seguinte acabou. Tinha 21 anos, fui para o Tirsense, depois para o Leça e a seguir para o Leixões, antes dos quatro anos no Rio Ave...

Até ir para o Benfica de Luanda. Foi a sua única experiência no estrangeiro?
Foi.

Tem empresário?
Tenho, embora a oportunidade tenha surgido através de um fisioterapeuta que conhecia do Rio Ave e foi para Angola.

Quem era o treinador?
Zé da Costa, um angolano. Estive lá uma época, vencemos a Taça de Angola e fui eu quem marcou o golo da vitoria. O clube já não existe, fechou devido a dívidas. Os estrangeiros deixaram de ir para Angola quando se tornou impossível transferir divisas para fora do país.

Foi o que o fez voltar?
Sim, embora tivesse mais um ano de contrato. Depois de um primeiro ano em que correu tudo bem, o clube começou a ter dificuldades, quiseram baixar o ordenado, que estava a ganhar muito, e não havia mais condições. Cheguei a acordo e voltei. Fui para Penafiel, quatro meses, depois Chaves, e subimos de divisão. E o ano passado optei pelo Aves, onde me sinto muito bem.

Já pensou o que vai fazer quando acabar a carreira?
Vou pensando. Não sei se serei treinador mas já fiz o curso de nível II. Não é fácil começar, nem sei se serei capaz. Não é fácil liderar homens, agradar a todos quando só podem entrar 11 e ao mesmo tempo motivar os restantes para não deixarem de trabalhar. Fazem as suas escolhas porque, por algum motivo gostam mais de uns do que dos outros, e essa gestão é complicada. Também já fiquei de fora e não é fácil permanecer motivado. Se surgir uma oportunidade, gostava enveredar por aí, começar como adjunto ou ser diretor desportivo. A certeza que tenho é que gostava de ficar ligado ao futebol. Quando e onde o futuro o dirá.

Para si, o que lhe parece mais complicado na profissão de técnico de futebol?
Ser treinador é uma profissão de risco por depender muito dos resultados e facilmente ir para o desemprego, o que cria instabilidade. Olham para um treinador e ganha.. ou rua.

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Nunca jogou num grande, os eternos candidatos ao título. É desmotivante saber à partida que não se joga para ser campeão?
Quem joga num desses clubes trabalha para ser campeão. Os que vêm para o Aves ou Boavista já estão preparados para os outros objetivos. Fazemos o nosso campeonato sem desmotivar. Tentamos ganhar aos grandes e fazer uma surpresa, mas a pensar na manutenção. Claro que é pena ser uma Liga muito desnivelada e cada vez mais, com os orçamentos dos grandes a distanciarem-se da realidade dos médios e pequenos clubes. Contratem quem querem e pagam a um jogador, se calhar, o que ganha todo o nosso plantel. Ficar nos oito primeiros é uma boa época, ganhar a Taça de Portugal foi um sonho que vamos tentar repetir na Supertaça.

O Boavista foi campeão no início do século, António Salvador acredita que o Braga chegará lá...
Com a diferença de orçamentos é difícil, mas o Braga já provou ser capaz de se colar aos grandes, até porque já consegue recrutar jogadores que dão nas vistas em clubes de média dimensão, enquanto o Boavista perdeu essa capacidade.

Passou por muitos clubes. Qual foi o treinador que mais o marcou?
O mister José Mota, que foi quem me lançou na I Liga, no Leixões, aos 25 anos. E Vítor Oliveira, que era diretor desportivo e foi buscar-me ao Leça. Um dos que mais gostei e com quem me identifiquei bastante foi o Nuno Espírito Santo, no Rio Ave. Quando chegou, introduziu métodos diferentes. O preparador físico trouxe máquinas novas e revolucionou a preparação.

O que acha que falhou quando treinou o FC Porto?
Foi uma fase difícil do FC Porto, embora o Sérgio Conceição tenha sido campeão com os mesmos jogadores. O Nuno andou perto do título e as pessoas esquecem que só um pode ser campeão, o que não significa que os treinadores dos outros dois candidatos façam um mau trabalho. Não é pela diferença de um, dois ou três pontos que se define se um técnico é bom ou mau.

O que tem o futebol português de melhor e de pior?
A parte má são as confusões e as suspeitas, o Cashball, o caso dos e-mails, dos vouchers, que faz com que os jogadores não se sintam bem aqui e optem por irem para fora. São coisas que ensombram o futebol nacional. O pior foi o que aconteceu no Sporting recentemente, e que nunca imaginei pudesse atingir tal dimensão. Falei com o Battaglia e contou-me que foi um filme de terror. O melhor é o nível do jogo dentro do campo, a qualidade de treinadores e jogadores, cobiçados pelos campeonatos mais poderosos.

O que faz nos tempos livres?
Hoje vou dormir, que estou cansado. Vou ao cinema com o meu filho e damos uns passeios em família. Sou muito caseiro.