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Fátima Pinto: “O meu pai e o meu irmão não acharam muita piada eu jogar à bola com rapazes, mas a minha mãe sempre deu aquela força”

A médio centro do Sporting, que nasceu na Madeira, considera que o clube pode vencer esta terça-feira as norueguesas do Avaldsnes (15h, Sporting TV) e passar a fase de grupos da qualificação para a Liga dos Campeões feminina, pela primeira vez. Estudante do curso de Turismo, Fátima Pinto, de 22 anos, adora aventura, viajar sozinha de mochila às costas e pregar partidas às colegas. E, quanto ao campeonato português, não tem dúvidas: é para voltar a ganhar esta época, tal como nas duas anteriores

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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Que balanço faz destes dois anos no Sporting?
Muito bons. O que nos faltou o ano passado foi a Liga dos Campeões. Ficamos mesmo tristes porque sentimos que podíamos ter feito um bocadinho mais. Mas a falta de experiência em coisas pequeninas acabou por ser fatal. Se calhar cá, no campeonato, passam despercebidas, mas na Liga dos Campeões um erro mata-nos. Contra essas equipas sofrer um golo e depois ir para cima delas é mais complicado. Mas estou confiante que este ano podemos fazer uma coisa bonita.

O que chama uma coisa bonita?
Passar a fase de grupos. Esse é o primeiro objetivo. Acho que estamos melhor preparadas, somos mais maduras, já temos mais noção para o que vamos, o ano passado acho que 80% da equipa nunca tinha jogado uma Liga dos Campeões.

O primeiro jogo é contra a equipa do norueguesa do Avaldsnes. Está ao alcance do Sporting?
É uma equipa forte no confronto físico e muito rápida, o que nos vai causar problemas. Mas estamos preparadas para o que aí vem. Apesar de ser a equipa mais forte do grupo, está ao nosso alcance.

O campeonato nacional está mais competitivo?
Continuo a achar que ainda nos falta muito. Estamos num bom caminho, mas ainda nos falta muito para sermos um dos campeonatos top.

Como madeirense que é e sabendo que o Marítimo subiu à I Divisão, gostava de jogar no Marítimo?
Sinceramente, não. Eu comecei a jogar futebol no Juventude Atlântico Clube, por isso o meu principal rival foi sempre o Marítimo. As finais eram com eles. E mesmo quando fui para o futebol feminino, no GD Apel, a rivalidade era sempre com o Marítimo. Eu adorava ganhar ao Marítimo (risos).

TIAGO MIRANDA

Nasceu no Funchal, tem dois irmãos mais velhos. Como surge o futebol na sua vida?
Eu comecei a dar os primeiros toques com o meu irmão mais velho, o Horácio, para quem tenho 11 anos de diferença. A minha irmã Juliana, mais velha oito anos, não ligava. Eles não se dedicaram muito ao futebol, não têm muito jeito (risos). Mas eu, já com três anos, quando fui para o infantário, jogava com os miúdos no campo. Quando cheguei ao primeiro ciclo, com sete anos, jogava com os miúdos nos intervalos todos. Os meus colegas da turma diziam que tinha de ir jogar para o clube e com nove anos federei-me no Juventude Atlântico Clube.

Tem ideia de onde lhe vem esse gosto pelo futebol?
Sinceramente não sei. Não tenho ninguém na família que jogue. Gostava mais de andar a jogar à bola do que brincar com as bonecas. Claramente, até ao 5º ano pelo menos, não me lembro de brincar com raparigas em situação nenhuma na escola. Era os intervalos todos a lutar pelas balizas, para ver quem é que ficava e quem é que não ficava.

Essa equipa do Juventude Atlântico Clube era masculina?
Sim, era uma equipa de rapazes. Eles é que me convidaram para lá ir. Cheguei, fui titular e o treinador pôs-me logo como capitã de equipa. Eu na verdade também parecia um rapazito, tinha o cabelo curto. Nunca tive problemas. Depois aos 13 anos é que tive que ir para a equipa feminina, para a equipa do Grupo Desportivo da Apel.

Os seus pais nunca lhe colocaram entraves?
O meu pai e o meu irmão não acharam muita piada eu jogar à bola com rapazes, mas a minha mãe sempre deu aquela força: “Ela gosta, ela vai jogar e vocês não a vão tirar de lá”. A minha mãe sempre foi o meu apoio no futebol. Agora o meu pai está super orgulhoso, é do Sporting, foi vendo com o passar dos anos que eu realmente gostava de futebol. No início acho que era mais o instinto de proteção, era uma menina no meio dos rapazes e ele não achava muita piada.

Além do futebol praticou mais algum desporto?
Fiz triatlo ainda no Juventude. Havia muitas provas de corta mato na escola e no desporto escolar. Ganhava no basquetebol, no atletismo, tinha aulas de natação e um professor veio falar comigo e propôs-me experimentar o triatlo. Fiz uma prova de duatlo e duas de triatlo e ganhei.

Tinha quantos anos nessa altura?
11 ou 12 anos, só que depois desisti porque acabar um jogo de futebol de 11, ao sol, com calor, e passada uma ou duas horas ir fazer um triatlo era muito exigente, não conseguia. Uma vez estive prestes a desmaiar dentro de água, não correu muito bem, portanto decidi parar com o triatlo e continuar só com o futebol.

Lá em casa torciam todos pelo Sporting?
O meu irmão é benfiquista, mas a minha irmã, a minha mãe, o meu pai e eu somos sportinguistas.

Tinha ídolos?
Vou ser sincera, não gosto muito de ver futebol, gosto é de jogar. Mas quando era miúda já conhecia algumas jogadoras, como a Marta e a Alex Morgan.

E no masculino tinha algum ídolo?
Na altura era o Liedson, no Sporting, e o Nani. Agora claramente o Cristiano Ronaldo é o ídolo, mas quando era miúda não ligava muito.

TIAGO MIRANDA

Depois de duas épocas no GD Apel vai para o Atlético Ouriense. Como é que se dá esta passagem e porquê?
Em 2012 fui ao Europeu de sub-19. Tinha 16 anos quando o selecionador José Paisana foi à Madeira ver dois jogos nossos. A Associação da Madeira não tinha dinheiro para vir ao torneio Interassociações, então o professor foi lá. Chamou-me para um estágio de sub-18, éramos 35 jogadoras em observação e logo na semana a seguir era o Europeu de Sub-19. Acabou aquele estágio de observação e entrei logo no estágio com as sub-19 para ir ao Europeu.

Qual foi a sensação?
Foi um choque, embora não tivesse bem a noção do que era o Europeu. Eu era uma menina da ilha que veio uma vez à seleção e de repente dizem que vou a um Europeu... Eles até ficaram um bocado admirados com a minha reação porque fiquei calada a olhar para eles. A professora Marisa virou-se para o professor Paisana e disse-lhe: “Ela não tem a noção do que é que nós lhe estamos a dizer” (risos). Mas, claro, fiquei muito feliz. Para mim foi um salto.

Como foi a experiência na seleção e no Europeu?
Vou confessar, não tinha noção. Agora tenho muito mais noção da importância dos jogos e fico muito mais nervosa ao entrar. Naquela altura lembro-me que o professor Paisana chegou ao pé de mim, fui titular no primeiro jogo do Europeu, e disse-me: “Faz de conta que estás a jogar na Madeira”. E eu fui com aquele pensamento para o jogo e por acaso a UEFA até me escolheu como a melhor jogadora em campo nesse jogo, na minha primeira internacionalização. Claro que estava um bocadinho nervosa, mas joguei descontraída e correu-me bem o jogo. Não tinha noção da importância daqueles jogos. Hoje em dia fico mais nervosa.

Nessa altura já era médio centro?
Sim, mas nesse jogo o professor pôs-me a jogar a lateral esquerdo. O primeiro estágio das sub-19 fiz todo a lateral esquerdo, só que depois a Rita Fontemanha, que agora é do Sporting e na altura era uma das capitãs, saiu, era o último ano dela, e fui para médio centro.

Onde é que se sente mais confortável a jogar, a médio centro ou como extremo?
Médio centro.

Mas no Sporting não está a jogar como extremo?
Agora estou como médio centro outra vez. Aquilo foi só uma estratégia para a final da Taça. Gosto mais de jogar a médio centro, não sou extremo, não tenho velocidade nem técnica para isso.

Por que razão gosta mais da posição de médio centro?
Porque é preciso ter muita capacidade de observação, perceber o jogo e gosto muito de perceber o jogo e de jogar simples. Gosto de jogar a dois toques, não sou aquela jogadora tecnicista, de fintar, gosto de receber e dar.

Foi a esse Europeu com 16 anos e depois?
Depois o Ouriense conheceu-me. Havia outras jogadoras do clube, a Diana, a Marchão, a Naná a jogar também na seleção. Eles viram os jogos e chamaram-me. Tinham subido à I Divisão. Quando vim à seleção senti que o campeonato na Madeira não me preparava para estar em grandes competições. Jogava futebol de 7 e fui para o Europeu jogar futebol de 11, portanto senti que precisava mesmo de vir jogar para o continente e quando o Ouriense me chamou, a equipa campeã, fiquei muito feliz e contei logo aos meus pais que disseram: “Vai, se te arrependeres podes sempre voltar, mas não percas a oportunidade”.

E a escola?
O meu pai o que me exigiu, e ao clube, era manter a escola. Só que eu na Madeira estava a fazer o curso Tecnológico de Desporto, que no Continente já tinha fechado. Por isso tive que mudar para o profissional de Apoio à Gestão Desportiva. Tive que fazer 12 módulos em atraso, consegui e acabei o 12º. Além dos estudos pagos o meu pai exigiu casa, alimentação e viagens para ir a Madeira. Eram as condições que eu tinha na altura. Acho que era a única jogadora com essas condições.

Foi viver para onde?
Para Ourém, para um apartamento com outras colegas. A Tita, que está agora no Benfica, a Filipa Rodrigues, que também está no Benfica, e Bárbara Pragana. Éramos quatro ali.

Como é que era a organização dessa casa?
Era tranquila, porque a Tita era mais velha e punha-nos em sentido.

Nessa altura começam as saídas à noite e o entusiasmo por outras coisas?
Sim, mas na Madeira já saía muito com os meus amigos. Nunca fui de sair antes de um jogo, isso era coisa que não fazia, mas durante a semana sim. Sempre gostei de sair com os meus amigos e ainda agora o faço.

A época no Ouriense corre-lhe bem.
Sim, fomos campeãs. E joguei a Liga dos Campeões. O primeiro jogo foi com o Zurique e perdemos 5-0. No segundo jogo, já não me lembro do nome da equipa com quem jogámos, mas fiz uma assistência e um golo.

Quando teve contacto com atletas de outros países percebeu que havia uma grande diferença no nível de futebol praticado?
Sim, uma enorme diferença. Já em Portugal eu sentia falta de mais. No futebol masculino treinava quatro vezes por semana, quando fui para o futebol feminino treinava duas, uma realidade completamente diferente. Chateei-me e pedi ao meu antigo treinador para treinar com eles porque queria manter aquele ritmo. Depois tive de deixar porque começou a haver uma grande diferença para os rapazes. Eles deram o salto e eu já não tinha a força nem a velocidade deles.

Depois do Atlético Ouriense vai para Espanha.
Quando cheguei cá, ganhámos tudo e pensei: “Quero mais, quero uma coisa mais difícil ainda”. A Cláudia Neto tinha sido contactada pelo Santa Teresa, só que ela já tinha clube na Suécia. Então ligou-me e disse que havia um clube que tinha falado com ela, queriam uma médio centro e ela queria saber se lhes podia dar o meu número. Disse-lhe que sim e eles entraram em contacto comigo. Viram uns vídeos, chamaram-me para lá ir fazer uns treinos, gostaram e quiseram que eu ficasse.

Aí já foi com contrato?
Sim e já recebia.

Os pais reagiram bem ao facto de ir para fora do país?
Sim, eles sabem que sempre fui muito desenrascada e independente.

Foi viver para onde e com quem?
Para Badajoz com mais colegas de equipa. Éramos quatro também. Todas espanholas. Eu era a única portuguesa na equipa. Havia uma brasileira também.

Largou a escola nessa altura?
Já tinha acabado o 12º ano mas uma das condições que pus ao clube foi de continuar a estudar. Só que como já cheguei tarde para entrar na universidade e tinha que fazer umas equivalências fui tirar um curso de grau médio de Atividades no Meio Natural. Era um curso de guia a pé, a cavalo, de bicicleta, de primeiros socorros. No 2º ano em Espanha, tirei o nível um e o dois de treinadora.

Nessas duas épocas no Santa Teresa notou muitas diferenças a nível de treino, de condições?
Notei. Têm melhores condições do que tínhamos cá no Ouriense. Apesar do Ouriense em comparação às outras equipas da I divisão portuguesa na altura já nos ter dado grandes condições. Mas lá é outro nível. A preparação física era incrível. Éramos uma equipa que tínhamos a noção de que não íamos ter muita bola contra grandes equipas, então treinávamos muito físico.

Já fazia ginásio cá ou só começou lá?
No Ouriense chegámos a fazer algumas vezes mas lá era mais a sério. Só que a nível de futebol não gostei de lá estar esses dois anos porque éramos uma equipa que não tinha bola, então eu como médio centro ficava a ver o jogo e só estava lá para destruir, destruir, destruir e isso para mim acho que me prejudicou muito.

De que forma?
Por exemplo, quando chegava à seleção, tínhamos muita bola e quando a bola chegava-me aos pés parecia que queimava. Já não tinha aquele toque, aquela sensibilidade com a bola. Foi complicado.

TIAGO MIRANDA

Mas veio para o Sporting depois desses dois anos.
Sim, ligaram-me. Foi espetacular. Uma grande oportunidade de voltar para Portugal e ir para a Faculdade. Ainda por cima no meu clube do coração, não havia como dizer que não.

Houve um grande salto também em termos de contrato do Santa Teresa para o Sporting?
Não, mais ou menos igual. Agora já renovei, é diferente, mas na altura não acrescentou muito.

Quando veio foi viver para onde e com quem?
Em Lisboa, com mais quatro colegas de equipa. A Marchão e a Diana, com quem tinha jogado no Ouriense, a Catarina Lopes e Matilde Figueiras.

Ouvi dizer que é das que mais gosta de pregar partidas...
(risos) Tem dias que sim. Gosto. Tenho uma que foi muito engraçada. Eu sabia que a Marchão estava quase a chegar a casa e escondi-me debaixo da cama dela e pus a minha GoPro em cima do armário a filmar. Ela quando chegou ao quarto para vir buscar qualquer coisa, ainda por cima não acendeu a luz, e eu agarrei-lhe na perna. Ela deu um salto e gritou tanto (risos). Ficou sem respirar uns segundos e depois gritou outra vez (risos). Uma outra vez pus a roupa interior de um membro do staff (não vou dizer de onde) no frigorífico e coloquei-lhe o colchão na areia. Estávamos num estágio em Rio Maior, que tem um campo de futebol de praia (risos).

E na seleção?
Eram as típicas brincadeiras de esconder as botas, "destruir" os quartos. Aqui no Sporting também. O nosso enfermeiro que o diga. O ano passado, na Liga dos Campeões, o quarto dele ficou irreconhecível. A cama já nem estava lá. Ainda por cima tinha enfermaria e quarto juntos... Acabou a dormir na marquesa essa noite (risos).

Que curso está a frequentar?
Estou no curso de Turismo. Gosto muito. Tem a ver com a Madeira. Em Espanha aquele grau que tirei de guia despertou-me mais este bichinho. Gosto muita da natureza, de aventura, acho que o Turismo é um setor onde posso pegar. Gostava de viver na Madeira quando for mais velha, por volta dos 50 anos, e ser guia intérprete, levar a pessoas às levadas, fazer atividades radicais, etc. Não sou tanto de museus mas mais de natureza e aventura.

Já fez desportos radicais?
Fiz skydive este ano com a Matilde Fidalgo, no aniversário dela. O futebol não nos permite fazer muitas atividades dessas durante a época. Mas nas férias gosto de fazer essas maluquices e de viajar sozinha, de mochilas às costas.

Por onde tem viajado?
Este ano quando tivemos cinco dias de folga, o meu namorado não podia tirar férias, e comprei logo uma viagem para Itália. Fiz Pisa, Florença e Roma. Fui à boleia, ficava em hostels. Tive uma experiência recente na Albânia, que adorei. Pensamos que é uma coisa e depois chegamos lá e as pessoas são fantásticas. As pessoas vivem muito na pobreza, mas é tudo tão simples e tão bom. A costa da Albânia é fantástica. Depois da Albânia fui para Punta Cana, com algumas colegas de equipa e não gostei tanto. É só resorts e mais nada, enquanto na Albânia temos muitos locais que são património mundial da Unesco e eu visitei-os quase todos.

O seu namorado apoia-a no futebol?
Apoia. É muito engraçado porque o Joel não liga a futebol, mas vem ver os meus jogos . Acompanha os meus jogos na televisão. É benfiquista. Fomos à Gala das Quinas, onde estavam imensos jogadores conhecidos, mas eu sei que ele foi lá por mim, porque ele não quer saber se passa um jogador muito famoso ao lado dele, não liga.

É verdade que tem o sonho de conhecer o Cristiano Ronaldo.
Tenho. E já me cruzei tantas vezes com ele, já estive perto dele, mas nunca fomos apresentados ou falámos um com o outro. Na Cidade do Futebol, na gala das Quinas, na Madeira - até já estivemos no aeroporto ao mesmo tempo, mas nunca tive oportunidade de falar com ele. Mas é uma das coisas que não posso morrer sem fazer, tenho que lhe dar um abraço. É o melhor do mundo, é o meu ídolo, estou super orgulhosa, é madeirense...

Tem várias tatuagens. Quando fez a primeira e porquê?
A primeira foi feita no pé e era menor. A minha mãe autorizou-me a fazer. Mas não devia (risos). Já estou a pensar apagá-la.

Porquê?
É uma bola, significava o Europeu pelas sub-19. Só que não ficou muito bem feita. Gostaria de refazê-la de outra forma, mais pequena, mais discreta. Tem muito significado porque aquele Euro para mim foi muito importante.

E as outras?
Tenho uma nas costas que simboliza a ilha. Tem uma praia e a frase é: "Life's a beach enjoy the waves". Tem ondas e palmeira. Depois tenho uma que diz "Girl Power" e tenho o 13, porque desde que comecei a jogar, com os rapazes, que fiquei com o 13. O meu treinador tinha sido jogador de andebol e quando me pôs capitã disse-me: "Vou-te dar o 13 porque no andebol normalmente o melhor jogador é o 13". Desde que sou miúda fiquei sempre com o 13. Não sou supersticiosa, nem crente. Tenho uns símbolos de sol, mar e montanha e tenho uma mochila, tem a ver com aventura.

Dá para viver do futebol?
Neste momento, com as condições que me dão, consigo viver perfeitamente do futebol. O apartamento é o Sporting que paga, as minha viagens para a Madeira é o Sporting que paga, a faculdade idem.

A discrepância entre o que se paga no masculino e no feminino justifica-se?
Por enquanto sim. Por muito que isso evolua, acho que nunca vamos conseguir, pelo menos na Europa, comparar o futebol feminino ao masculino. Acho que o feminino pode melhorar muito mais, claramente, e estão a abrir portas para isso. Por exemplo, a Liga espanhola já é totalmente profissional e na altura em que lá estive não era. Mas há uma diferença enorme. Não temos a visibilidade que eles têm, as marcas investem sobretudo no futebol masculino.

Em Portugal o que é preciso acontecer para avançarmos mais rapidamente?
Primeiro profissionalizar a Liga. Para todas as raparigas terem as mesmas oportunidades e as mesmas condições de trabalho. Mas no futebol feminino o que peca mais é a formação. Há imensas raparigas que chegam a um clube com 15 anos e não tiveram formação. Chegam com 15 anos e vão aprender o que nos outros países aprendem com seis anos. Apostar na formação é muito importante e todas poderem ter condições de trabalho, treinar mais vezes por semana. Poderem viver só disto.

A nossa participação na fase final do Europeu do ano passado deixou-lhe um sabor muito amargo ou não?
Sim e não. O que fizemos foi muito bom. Fomos pela primeira vez a um Europeu feminino e foi muito bom. Mas fica um sabor amargo porque tivemos tudo para passar e não conseguimos. Eu estava no banco e a equipa contra Inglaterra foi super competente. O outro treinador menosprezou-nos claramente, numa entrevista prévia ao jogo. Percebo, por um lado, porque ele já tinha passado e por isso desvalorizou-nos, mas no fim do jogo veio reconhecer que não éramos o que ele estava à espera. Criámos dificuldades à Inglaterra, que é uma grande equipa, uma potência mundial. Acho que foi aí também que nos deu aquele clique de que conseguimos fazer mais e somos boas também.

O Sporting está mais forte este ano?
Acho que sim.

Vai ganhar o campeonato outra vez?
Claro que sim. Essa é sempre a nossa ambição. E trabalhar para isso porque sem trabalho não conseguimos nada.