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Hélio Sousa: “O Gedson fez dois, três jogos de pré-época no Benfica e parece que nasceu agora. Eles estão cá, existem há anos”

Hélio Sousa sagrou-se campeão europeu de sub-17 há dois anos, com a mesma geração com a qual conquistou agora o Europeu de sub-19. E em 2019 há Mundial sub-20... “Eu e alguns colegas que trabalham aqui na federação fomos campeões do mundo e mais do que nós não há ninguém com esse sonho de voltar a trazer o título de campeão do mundo”, confessa à Tribuna Expresso

Hugo Tavares da Silva e Nuno Botelho

Hélio Sousa com a taça conquistada pela seleção sub-19 no Europeu

Nuno Botelho

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A manhã começa ali perto da piscina do hotel onde a seleção de sub-19 ressaca da vitória no Campeonato da Europa. Com a taça na mão, Hélio Sousa sorri e desabafa: “Finalmente, estás aqui. Andavas a fugir.” O setubalense perdeu a final do Europeu em 1988 contra a União Soviética (“sacana do Salenko”) e em 2017 como selecionador. Das ruas de Setúbal ao seu Vitória, Hélio, pacato como o imaginamos, lembra a infância, fala do amor e do respeito ao futebol e mostra admiração pelos novos campeões europeus, aliás, bicampeões europeus, pois esta geração venceu também o Europeu de sub-17 em 2016.

O que sente um jogador nesta altura?
Uma alegria enorme, mas também todo o apoio que as pessoas lhes deram; se calhar, aí começaram a perceber que realmente foi uma coisa extraordinária, importantíssima, única. Vão ficar, como nós ficámos no passado quando fomos campeões do mundo, reconhecidos para sempre. Termos sido os primeiros campeões do mundo significa sempre mais qualquer coisa. Os nossos colegas, com bastante mérito e qualidade, também conseguiram logo passados dois anos. Vão ficar para sempre na história. Vão lembrar-se sempre. Mas o que eles vão buscar depois no futuro serão as amizades que criaram, os momentos que passaram juntos. Não tem a ver só com o jogo em si, com a final, com a vitória, que se tornou memorável com aquele resultado. Mas todas as outras pequenas coisinhas vão ficar lá e vão uni-los para sempre. Vão encher-lhes o coração e, mais tarde, vão sentir-se realizados.

Agora, o papel do treinador passa por meter os pés dos jogadores no chão?
Neste momento, é para continuarem a desfrutar. Depois vão voltar ao trabalho nos clubes, vão ter alegrias, tristezas, desilusões e felicidade novamente. O futebol, a competição e o desporto são assim. O próximo treino pode já não correr tão bem e pode instalar-se uma pequena frustração, uma pequena desilusão, mas eles têm tido uma capacidade enorme de vencer esses momento menos bons. Vão ter solicitações pelo extraordinário feito que realizaram. Na nossa primeira data FIFA cá estaremos de novo para pôr os pés no chão e começar a trabalhar neste Torneio das Nações, o espaço de preparação para o Mundial. O ano passado manteve-os numa competição muito boa, e uma grande parte destes sub-19 já integraram esses jogos. Aí já estão com os pés no chão. Se não estiverem, ficam quando chegarem.

Dá mais prazer ensinar os jovens ou estar lá dentro a jogar à bola?
Foi um sonho realizado ter sido jogador de futebol, onde... [bate duas vezes na perna e a voz treme] muitas pessoas contribuíram para tal. Os meus pais foram importantes, tal como o mister José Mendes, que me escolheu nas captações para o Vitória de Setúbal. Depois acompanhei uma das grandes referências do Vitória, Jacinto João, o J.J. Foram pessoas que me ajudaram a moldar a minha personalidade, juntamente com a minha família e colegas de escola. Tudo influiu para este percurso e no realizar de um sonho de ser jogador. Mais tarde cheguei a este espaço das seleções, com o José Augusto a ir ver um jogo de juvenis. Se calhar, foi o momento certo para ele ir, o jogo correu-me bem, a mim e à equipa, contra o Estoril. Lembro-me de correr como um desalmado... E acabei por ser uma das escolhas finais para o início do apuramento para o Europeu de sub-16, com o professor Carlos Queiroz já como adjunto do José Augusto. E depois foi a continuidade de Carlos Queiroz e a chegada de Nelo Vingada. Tudo isso ajudou-me a ser mais forte e a estar mais preparado para a concretização de um sonho. Foi maravilhoso, espetacular... Joguei onde quis, estive onde quis e onde as pessoas quiseram que eu estivesse. Não podia ser melhor. Culminou com a final da Taça de Portugal aqui no Jamor, que acabou por ser uma homenagem espontânea ao fim da minha carreira como jogador.

São já algumas finais para o Hélio, pegando até naquela final da Taça em ano de estreia como treinador [Vitória, 0 - FC Porto, 1]. De que precisa um treinador?
Exato, exato. Contra [Co] Adriaanse, o holandês... Tenho tido o que é necessário em alguns momentos para sair vitorioso. Nesta estrutura, juntamente com os meus colegas, joguei quatro finais, venci duas. Bom, para já, é preciso ter pessoas junto a nós que nos ajudam, que não nos dizem sempre ‘sim’, que nos obrigam a questionar-nos. O professor Ilídio [Vale] era uma pessoa fundamental nesse aspeto. E que sejam fiéis, amigos, cúmplices. Choramos, discutimos, brincamos, compartilhamos tudo. Temos tido felicidade e competência para conseguir as vitórias.

Teve muitos treinadores na sua carreira. O que traz deles?
Se calhar, os bons exemplos que deram, mas também muito do que não gostei que fizessem quando estava num grupo de trabalho. Eu quero rever-me nos jogadores, nas muitas coisas que fui. Eles não podem ter ninguém a apontar-lhes algo ao profissionalismo — ninguém nunca disse ou dirá isso de mim. Depois podem gostar mais ou menos, analisar como quiserem, têm esse direito. E nós temos de ser suficientemente capazes de retirar o necessário.

Nuno Botelho

Onde é que se aprende mais, na derrota ou na vitória?
Costuma dizer-se que é na derrota, porque nos faz questionar mais vezes o que terá corrido menos bem, mas na vitória nem tudo corre bem. Precisamos de nos distanciar e de refletir no que podemos melhorar e potenciar. Como é que podemos contribuir para cada um deles, individualmente, melhorar, de modo a tornarmo-nos mais fortes.

Antes do Europeu, o Hélio disse que, “felizmente”, estes miúdos gostam de ver futebol... Já teve jogadores que não gostam de ver futebol?
Não demonstravam tanta ansiedade ou prazer em ver um jogo. A sociedade mudou. No meu tempo tínhamos dois canais. Raramente passava um jogo, e quando passava aquilo era... [suspira com força] a última bolacha do pacote. Depois passou a haver mais jogos. Os primeiros eram a preto e branco. Depois a cores. A minha geração passou por todo este desenvolvimento, “huuuuf” [imita o vento]. Eu tinha de mandar cartas para a minha namorada na Arábia Saudita, ela não tinha telefone fixo em casa, tinha de ir à pastelaria para receber uma chamada minha. Eu telefonava primeiro para a senhora da pastelaria para ela ir lá, que eu ia ligar passado um minuto... E agora, a qualquer momento, estamos em contacto uns com os outros. Esta geração tem mais prazer e paixão; poderá estar lá mais o bichinho que os inquieta para os tornar mais fortes.

Elogiou os clubes pelo trabalho desenvolvido. Mas não deveria haver mais jovens a jogar na I Liga?
A porta vai-se abrindo. Em determinado momento é capaz de ter-se fechado. O ano passado, por exemplo, para os guarda-redes portugueses, foi um ano excecional. Houve muitos portugueses a jogar na I Liga. Este ano, pelas notícias, já contrataram novamente muitos guarda-redes estrangeiros. Eu acredito que há qualidade suficiente para continuarem a apostar. Nos guarda-redes e nos das outras posições. É preciso dizer: “Olhem para nós, estamos aqui.” O Gedson fez dois, três jogos de pré-época no Benfica e parece que nasceu agora. O Gedson existe há muitos anos no Benfica e aqui connosco. Já existe para o futebol europeu e mundial há dois anos. Eles estão cá, existem. E não são só estes que agora são sub-19. Com muito menos meios de comunicação, a minha geração e a seguinte, que foram campeãs do mundo, eram mais conhecidas a nível nacional do que estes jovens. Naquela altura, as fotografias vinham através de uma máquina, que o [António] Cotrim nos mostrou e que achávamos ser impossível chegar a Portugal, que era tipo fax para fotografia. As fotografias chegavam cá, era fabuloso, não sabemos como [risos]... Agora, a máquina já nem existe.

Nuno Botelho

O Hélio fez parte da “geração de ouro”. Os rótulos pesam muito?
Pesam, mas quem é forte, capaz e anda à procura de conquistar algo aprende a viver com isso. Tem de aprender. Estes jogadores, uma boa parte deles, foram campeões da Europa há dois anos. Vivemos com esse rótulo nestes dois anos. Para estarmos presentes neste Europeu, havia quatro equipas e passava uma. Três jogos, de três em três dias, stresse máximo. Fomos rotulados como favoritos e mostrámos que temos capacidade e qualidade para aguentar. Demonstrámos um crescimento enorme. E fomos para o Europeu. Tínhamos a perspetiva de fazer história, já que nenhuma outra geração da Europa conseguiu ser campeã de sub-17 e de sub-19. Consideramo-nos favoritos em qualquer jogo que disputamos, seja contra quem for. Partindo deste pressuposto, esse rótulo e pressão são bons, porque merecemos.

Voltando atrás: como era a vida no bairro da Reboreda nos anos 70 e 80?
Era muita brincadeira, muita alegria. Muito tempo livre para convivermos uns com os outros. Nós, que agora somos pais, temos retirado um bocado isso aos nossos filhos. Na nossa altura também havia perigos e andávamos mais sozinhos. Se calhar, os perigos eram menos divulgados e conhecidos. Ninguém sabia onde estávamos, não havia possibilidade de contacto. Moldou-me imenso essa convivência com os amigos de infância. A apanhada, os jogos do bate-pé mais tarde, as escondidas, o jogo do elástico, jogar à bola no alcatrão, na pedra da calçada, nos aterros...

Que jogador fingia ser?
Na minha rua era dos mais fortes e sempre dos que escolhia [risos], com o outro mais forte... Nunca jogávamos um contra o outro. Nunca tive [um ídolo]. Era mais quando ia para a baliza, a jogar aos cantos e a fazer golos. Aí dizia nomes: [Lev] Yashin, [Ray] Clemence, [Emerson] Leão, do Brasil... Eram jogadores que na altura víamos nas grandes competições mundiais. Agora, um jogador de campo nunca me puxou. No Setúbal, o J.J. [Jacinto João] era uma referência e jogava ainda connosco. O que ele fazia era incrível: dizia que nos ia dar um túnel e dava-nos um túnel; aos guarda-redes dizia que ia meter a bola ali e metia a bola ali. Na rua tivemos amigos que voltaram da Venezuela, de pais que eram emigrantes. Trouxeram o basebol. Jogávamos com um cano de escape de uma mota e com uma bola de ténis. Houve uma altura em que só jogávamos basebol. Quando o escape caía para a pedra da calçada era um barulho, pá!, pá!, pá!, e os vizinhos lá se aguentavam. Eles tinham de levar connosco, era uma gritaria o dia inteiro. Íamos ao cinema e à praia juntos, ainda menores. Isso ajudou-nos a sermos o que somos agora e a contribuir com algo de positivo para a sociedade.

Para o ano faz 30 anos do Mundial de sub-20 de 1989...
[sorri] É verdade, a federação tem-se lembrado sempre de nós, tem-nos feito algumas receções. Enche-nos o coração. A quem correu muito bem, bem, menos bem... E não correu bem a alguns. Mas estamos ligados para sempre. Passamos essa mensagem aos jogadores.

Eles fazem perguntas sobre isso?
Não fazem porque eu passo-lhes a mensagem antes disso [gargalhada]. Eles têm de levar com ela. Alguns não acreditam, se calhar acham que é uma história, mas depois damos alguns exemplos, para lhes demonstrar que, apesar de tudo o que possamos conquistar, até realmente o sonho acontecer ainda vai um caminho árduo e difícil.

E podemos sonhar com uma gracinha nesse Mundial de sub-20 em 2019?
É o próximo objetivo. Eu e alguns colegas que trabalham aqui na federação fomos campeões do mundo e mais do que nós não há ninguém com esse sonho de voltar a trazer o título de campeão do mundo.

Entrevista originalmente publicada na edição de 4 de agosto de 2018 do Expresso