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André Almeida: “Aimar e Saviola brincavam com a bola. Agora, está aí o Jonas. Podes dar-lhes um melão, que sai dali desfiadinho”

O lateral direito que completou esta semana 200 jogos pelo Benfica é o único tetracampeão português do clube. Desde os tempos em que Jaime Pacheco o lançou até à pedalada que fez até Fátima para agradecer o tetra, o médio-que-agora-é-lateral de 27 anos conta à Tribuna Expresso como olha para o futebol. O Benfica disputa este sábado no Bessa, frente ao Boavista, a 2ª jornada da Liga (19h, SportTV1)

Hugo Tavares da Silva e Nuno Botelho

André Almeida, lateral direito do Benfica

Nuno Botelho

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Adivinha o autor desta frase: “O futebol era só uma brincadeira de crianças. Eles corriam, jogavam e brincavam.” Marcelo Bielsa, Carlos Queiroz ou... a avó de André Almeida?
Foi a minha avó? É capaz. Começou por ser uma brincadeira, mais pelo meu pai e pelo meu avô. Estava muito ligado ao atletismo, era o desporto que se praticava na minha zona. O meu pai andava muito ligado ao futebol, era treinador, e achou por bem levar-me. E eu comecei a gostar. Os meus amigos também participavam, e fui ficando. Ganhei o bichinho.

Um amigo teu disse-me que na rua ninguém queria jogar contigo, porque não passavas a bola a ninguém...
Na altura, tinha técnica, era assim [risos]. Ainda tenho, mas agora é outro tipo de técnica.

A tua avó também dizia que qualquer trabalho tem espinhos... Quais são os espinhos do futebol?
Quando se quer atingir bons patamares, temos sempre de abdicar de algumas coisas que não nos deixam chegar tão longe. Temos de nos deitar cedo e acordar cedo, a alimentação tem de ser top. Para chegar a um nível top, temos de ter tudo top. Os horários... Temos de abdicar de certas coisas.

Conheces Eusébio, Coluna, António Simões e Humberto Coelho, certamente. Como é que explicarias ao André que entrou nas escolinhas do Loures em 1999 que seria o único português da história do Benfica a ser tetracampeão [Paulo Lopes não jogou em 2014/15]?
Nunca pensei muito nisso. Sabia o que queria atingir, sabia que queria ser jogador profissional e que tinha de trabalhar muito para o conseguir. Se me perguntasses se iria fazer história, certamente não pensava ser tetracampeão, se calhar não pensava jogar num clube como o Benfica, mas trabalhei para isso. Sempre trabalhei muito. Os meus pais e avós sempre me incentivaram imenso a trabalhar. Como a minha avó diz: quem trabalha, Deus ajuda. E tem-me ajudado até aqui.

A seguir ao tetra, foste de bicicleta até Fátima para agradecer...
Foi uma coisa que fui pensando no final do campeonato. Jesus e Nossa Senhora têm-me ajudado muito na minha carreira, nunca tive lesões graves, nunca estive muito tempo parado. Tenho a oportunidade de estar na oitava época aqui, já são muitos anos no maior clube português. Sou feliz, estou na minha cidade. Está tudo bem com a minha família, com as minhas sobrinhas. Sinto-me bastante grato pela vida que me têm dado. Achei por bem agradecer dessa maneira, com um esforço.

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E as pernas aguentaram bem?
Até estive bem. Fui com um amigo que faz triatlo e com outro senhor que me ajudou na viagem e que conhece o caminho. Pensei que ia ser mais duro.

O futebol não é sempre a somar: perdeste duas finais da Liga Europa, desceste de divisão com o União de Leiria e com o Belenenses... O que é que traz a derrota?
Com o União já tinha saído a meio, mas fiz parte do plantel. A derrota ajuda-nos a crescer. Se soubermos reagir, é uma das maneiras que temos para crescer. Por exemplo, nas finais da Liga Europa... só as perde quem as joga. Agora, descer de divisão... Foram momentos complicados, tanto para o clube como individualmente. Eu estava a crescer, estava numa fase de adaptação ao futebol sénior. E custa sempre. Ajuda-te a crescer, ajuda-te a veres as coisas de outra maneira. Se não trabalhares, não vais chegar onde queres chegar. Vais sempre passar por esses momentos de dificuldade. E mesmo quando ganhas passas dificuldades. Todos os dias é um desafio novo. No futebol, é assim. Tens de estar sempre bem. Tens jogadores ao teu lado que trabalham e que esperam conquistar o espaço deles. Se não estiveres bem, entra outro. No meu caso, aconteceu muitas vezes. Quando colegas meus se aleijavam, eu tinha de estar preparado para corresponder da melhor maneira. As dificuldades fazem parte, tal como as derrotas.

Nesses momentos de aperto, às vezes são os miúdos que encostam, certo?
Essa mentalidade já mudou. Quando cheguei ao futebol profissional, se calhar, era mais dessa maneira. Era mais difícil um miúdo chegar ao plantel principal e impor-se. Agora, até pelo modo como a malta mais velha encara a vida, mais levianamente, somos vistos todos por igual. Quem está bem joga. Há um ambiente porreiro aqui, não há distinção se são miúdos ou graúdos. A malta aqui dá-se toda bem. A palavra família adequa-se bastante.

Estreaste-te na primeira divisão há quase dez anos, no Belenenses. O que disse, então, o Jaime Pacheco?
[sorriso] O Jaime Pacheco era engraçado. Lembro-me de falar comigo e com o Pelé durante a semana, de dizer que estávamos bem, que éramos atrevidos... Estávamos a perder com o Marítimo e ele disse: “Desfruta destes dez minutos, porque vais ter muitos mais ao longo da tua carreira.” E assim foi.

André Almeida (à direita) no Belenenses

André Almeida (à direita) no Belenenses

FRANCISCO LEONG/GETTY

Eras médio, nessa altura. Ainda és?
Gosto de participar no jogo. Mas, honestamente, agora já me vejo como lateral, há muito tempo que não jogo como médio. Se tiver de desempenhar essa função... Tenho essa forma híbrida de jogar e consigo adaptar-me ao jogo.

Chegaste à Seleção em outubro de 2013. A camisola 5 ficou guardada?
Sim. Tenho pelo menos uma camisola de todos os jogos que fiz. Na Seleção temos direito a duas.

Como foi chegar a esse nível?
Quando saiu a convocatória [para o Mundial 2014], foi... foi demais lá em casa. A minha mãe e o meu pai, tudo a chorar. Eles são chorões. Foi um momento especial.

No segundo jogo, no Brasil, saíste lesionado, e até estavam a ganhar...
Aos EUA... Custou-me muito, não queria nada sair. Tenho ideia de que me aleijei num lance em que faço um carrinho, aos 10, 12 minutos. Queria jogar e ajudar a equipa a continuar na prova. Ao intervalo, quando os médicos me disseram “é melhor saíres, podes agravar a lesão”, custou-me imenso e fiquei no balneário muito triste. Era um momento especial estar num Mundial, a representar o meu país. Sou muito assim, na vida e no clube, não gosto de desistir, mesmo quando há uma contrariedade. Gosto de ver se vai mais além. Mas há que saber dosear também.

Esse Mundial não correu muito bem. Foi duro cair na fase de grupos?
Sim... pela qualidade da Seleção em si. Na nossa Seleção, cada vez mais têm vindo a aparecer muitos valores. Sair tão cedo da prova foi duro. Mas, lá está, as dificuldades fazem parte, e não há só coisas boas no futebol.

Voltemos ao Benfica. Preferes chouriço ou chocolate? OK, estamos a falar daquele golo ao Portimonense...
[risos] Nem chouriço nem chocolate. Honestamente, tentei chutar à baliza. Agora, se me perguntares se tentei meter a bola naquele sítio, não, a minha intenção até era chutar para a zona do primeiro poste. A bola saiu daquela maneira e saiu perfeita, porque entrou. Se calhar, se eu tivesse chutado de outra zona do campo e o guarda-redes tivesse feito uma grande defesa, já não se falava mais nisso. Fico feliz pelo golo, por ter ajudado a equipa, não mais do que isso. É um bom momento.

André Almeida tem 27 anos e assinou pelo Benfica em 2011/12

André Almeida tem 27 anos e assinou pelo Benfica em 2011/12

Nuno Botelho

Sentes que neste futebol os laterais são cada vez mais valorizados?
Sim, pelo estilo de jogo, com muita saída a três, privilegia-se a integração dos laterais no jogo ofensivo. A defender, normalmente levas com os melhores jogadores da equipa adversária. É uma posição delicada. Penso que são cada vez mais valorizados por isso.

Com que extremo passaste mal?
Lembro-me de um jogo aqui na Luz, com o Mónaco, em que eu estava com febre. O [Yannick] Carrasco, pelo menos na primeira parte, estava a rebentar comigo. Ganhámos o jogo, não sofremos golos, foi o mais importante. Lá está, podes ter um dia menos bom, mas se a equipa te ajuda isso passa à margem. A nossa defesa saiu em grande, eu saí em grande, ganhámos.

É melhor defender perante extremos canhotos ou destros?
Prefiro... destros. Eles tendem a fugir para dentro. Ou seja, vão bater no meu apoio, no médio que faz a cobertura por dentro. Por isso, como isto é um desporto de equipa, prefiro apanhar com os destros, porque tenho sempre ajuda por dentro [sorri]

Se um miúdo perguntar que ações um lateral deve dominar, o que dirias?
Sempre fui muito ligado ao processo tático. Acho que um lateral, acima de tudo, tem de defender bem. Depois, pensar em atacar bem. Primeiro és defesa, depois é que és lateral, senão serias extremo ou algo do género. Conhecer bem o processo defensivo é meio caminho para estares bem posicionado para atacar. Depois, podes ter ou não essa capacidade.

Que colegas é que fazem coisas nos treinos de ficar de boca aberta?
Ahhh, tenho aí muitos. Antigamente, Aimar e Saviola brincavam com a bola. Agora, está aí o Jonas, que também pára o relógio e faz coisas de que ninguém está à espera [risos]. O Pizzi também tira uns coelhos da cartola.

É fácil jogar com esses que veem e pensam mais rápido do que os outros?
É. Eles veem o que a gente não vê, por isso é mais fácil. Podes dar-lhes um melão, que sai dali desfiadinho [risos].

Todos os anos fala-se sobre os laterais do Benfica. Com quase nove mil minutos na Liga, já estás imune?
A parte boa de estar num clube de topo é que há sempre competitividade, e isso ajuda-te a crescer. Quanto maior for a competitividade, mais eu vou crescer e o clube também. É uma boa conversa. Que continue a haver e que eu continue aqui a ajudar o clube.

Entrevista originalmente publicada na edição de 11 de agosto de 2018 do Expresso