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Fernanda Ribeiro: “Não é fácil ser de uma aldeia onde as pessoas diziam aos meus pais que eu devia era fazer tricô em vez de estar a correr"

Diz estar à vontade para dizer o que pensa porque conquistou tudo com o suor do seu trabalho e cumpriu todas a regras. Mas a par de uma vida cheia de sucessos desportivos há uma mágoa latente naquela que é considerada por muitos a melhor atleta portuguesa de todos os tempos. Aos 49 anos, Fernanda Ribeiro vive apenas do dinheiro que amealhou no atletismo, garante que não recebe um tostão do Estado e assume que não tem feitio para pedinchar ou "dar graxa". Revela como muitas vezes tentaram denegrir a sua imagem e como, mais do que uma vez, esteve à beira de desistir do atletismo. Continua a correr, por prazer, apesar dos problemas nos tendões de Aquiles que, garante, nunca a largaram

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Era conhecida como a menina de Novelas.
Sim, porque comecei no atletismo com nove anos, ainda era uma menina.

Quer apresentar-nos a sua família?
Somos sete irmãos, eu sou a sexta. Somos três raparigas e quatro rapazes. Quando comecei a correr eu era a mais nova, porque o meu irmão só nasceu passados nove anos. O meu pai era pintor de automóveis, a minha mãe era doméstica. Uma família com bastantes dificuldades.

Lembra-se da casa onde cresceu?
Perfeitamente. Foi a casa onde nasci, que eu comprei e restaurei. O meu irmão mais velho deve ter agora uns 60, 61 anos mas apesar da diferença de idades lembro-me perfeitamente que brincávamos muito todos juntos na rua porque vivíamos numa aldeia. Jogávamos muito à bola, às malhas. Os meus pais não tinham terrras, mas havia muitas quintas com lavradores e lembro-me de passar muito tempo da minha infância nessas quintas com pessoas da minha idade e mais velhas. Éramos uma família grande, com dificuldades, mas éramos felizes.

Gostava da escola?
Nunca gostei muito, mas quando abandonei a escola foi porque apostei no atletismo.

Abandona a escola quando vai para o FC Porto, não é?
Sim, abandono a escola no 6º ano, com 12 anos, quando vou para o FC Porto. Abandono porque, para vir aos treinos, tinha de abandonar. No meu tempo tínhamos aulas ao sábado e eu para vir às competições, que eram ao sábado à tarde, tinha de faltar às aulas e havia professores que entendiam, mas outros não, ainda para mais eu era uma criança.

E o atletismo começa, em concreto, como?
Começa porque era uma menina que corria muito na rua, nas brincadeiras. Muitas vezes digo que já estava muito evoluída no atletismo porque o que agora fazem nas pistas, eu fazia em criança. Põem cones e uma data de coisas na pista, mas basicamente era isso que eu fazia na rua, quando jogava ao estica com quatro paus, ao lencinho e estava a fazer velocidade. Foi assim que comecei. Ia correr na rua com os rapazes muito mais velhos do que eu e ganhava. O meu pai nunca foi treinador mas como gostava de desporto estava ligado a uma associação da terra que tinha um grupinho de atletismo. Como ele via que eu corria muito, um dia perguntou-me se queria experimentar fazer atletismo. Eu como não tinha nada e o meu pai ia dar-me umas sapatilhas, uns calções e umas meias, disse que sim. Nem eu sabia o que era atletismo ou uma prova de atletismo. Tinha nove anos e fui a uma corrida na Lousada que se fazia sempre na Páscoa. Fui experimentar correr e fui 2ª classificada.

Era uma corrida mista?
Sim, mas de crianças. Perdi para uma miúda que veio da Pontinha, de Lisboa.

O que é que o seu pai fazia na associação?
O meu pai, sem perceber nada de atletismo, era o meu treinador na Associação Recreativa Novelense.

Ainda existe?
Existe, com ténis de mesa. Era um grande clube de ténis de mesa. Mas nunca corri pela Associação, corri como individual. Entretanto comecei a fazer montes de provas, até houve uma altura em que diziam que eu ia acabar a carreira porque fazia demasiadas corridas.

Começou então a treinar.
Muito pouco. Houve uma altura que eu não queria correr com ninguém da minha idade porque achava que tinha era de correr com as pessoas mais velhas. Nessa altura como era possível correr em provas de mais velhas, comecei a fazer essas provas. Então as pessoas achavam que eu treinava muito, que ia acabar a minha carreira porque treinava muito, o que não era verdade. Eu brincava.

Isso com que idade?
10, 11 anos. Com 11 anos fiz a meia maratona da Nazaré.

Hoje reconhece que foi muito cedo ou não?
Reconheço que era muito cedo, mas não treinei para fazer a meia maratona, fui fazer por brincadeira, com o grupo com que treinava. Estive muito pouco tempo como individual, depois fui logo para o Valongo que tinha um grupo de atletas que fazia várias corridas. Fiz durante muitos anos provas com as pessoas mais velhas e acho que me cansava menos do que correr com as mais novas.

Por causa da velocidade?
Não sei, porque dava-me mais prazer correr com as pessoas mais velhas, fazia atletismo com muito prazer, se calhar era por ganhar-lhes [risos]. Tive vários problemas por causa disso, nas corridas de estrada não era fácil uma criança muito magrinha ganhar às grandes. Cheguei a ser desclassificada porque diziam que não era possível.

A sério?
Sim, diziam que tinha de ter cortado caminho porque não era possível ganhar aos mais velhos [risos]. Entretanto, a associação de um momento para o outro cortou essa possibilidade. E uma vez fui fazer uma corrida a Valongo e a corrida esteve parada uma hora porque não me avisaram e eu em vez de ir à corrida pequenina fui à das mais velhas e não me queriam deixar participar. Também sei que muitas vezes o próprio presidente da associação, como adorava ver-me correr, fechava os olhos porque eu era diferente.

Fernanda Ribeiro venceu o Campeonato do Mundo de longas distâncias, realizado em 1992, no Funchal, Madeira

Fernanda Ribeiro venceu o Campeonato do Mundo de longas distâncias, realizado em 1992, no Funchal, Madeira

Gray Mortimore

Quando é que começa realmente a interessar-se por atletismo, a querer saber quem são os outros atletas?
Estive no Valongo um ano e depois fui para a Kolossal, que era um clube de Penafiel. Foi aí que tive o meu primeiro treinador mais a sério, era um treinador de futebol.

Quem era?
Luís Miguel, foi o primeiro treinador a levar o Penafiel à 1ª divisão e muitas vezes eu treinava com os próprios jogadores. Lembro-me que os jogadores de futebol no princípio da época corriam muito no que nós chamávamos carreira de tiro e eu de vez em quando ia para lá também treinar com eles. Foi quando comecei a conhecer mais os atletas.

Mas não tinha ídolos?
Não, não tinha ídolos, nem conhecia muito de atletismo. Quando vou para a Kolossal começo a fazer mais as corridas da associação do Porto, até aí fazia muito o atletismo popular, por aquelas terrinhas, todos os dias quase todas as freguesias tinham uma corrida. Quando vou para a Kolossal torno-me federada e aí já começo a ver mais o atletismo.

Nessa altura tinha quantos anos?
Devia ter uns 11 anos. Participo na meia maratona da Nazaré e perco com a Rosa Mota, que nessa altura eu conhecia muito pouco. Fico em 2º, a quatro décimos dela. Perco porque eu não tinha tanta confiança como a Rosa Mota nessa altura, foi no ano em que ela mudou do FCP (Futebol Clube do Porto) para o CAP (Clube de Atletismo do Porto). O que me tinham dito foi: “Tu olhas só para as camisolas do FCP”. Dei à Aurora Cunha três minutos de avanço. A Rosa corria com o cabelo muito pequenininho, à rapazinho e aparece com uma camisola branca e vermelha e passa-me em cima da meta.

Se ela tivesse a camisola do FCP, a Fernanda estava mais atenta?
Sim, não me ganhava. E é ai que começo a ter uma ligação maior com as chamadas vedetas.

A Rosa Mota disse-lhe alguma coisa no final?
Que eu me lembre não. Eu também acabei e fui ter com os meus amigos. Na altura o que eu queria era correr. Ficava toda contente porque ganhava um pacote de bolachas de baunilha.

Torna-se rapidamente campeã nacional de iniciados, juvenis e juniores, tanto em 1500m como nos 3000m…
E fui ao campeonato europeu de juniores, com 13 anos, era a mascote do campeonato. No avião como era a mais nova e a mais pequenina, deram-me uns discos da Coca-Cola [risos]. Depois fui 4ª no Campeonato do Mundo, até que me torno campeã europeia dos 3000m, em 1987. Comecei a ir muito cedo à seleção, a fazer atletismo mas não era a sofrer porque eu brincava muito. Eu e as atletas que iam comigo. Lembro-me de chegar aos hóteis, algumas vezes também ficámos em conventos de freiras, e de mudar o quarto todo [risos]. Porque era a nossa casa, ia buscar florezinhas para pôr nos quartos, brincava muito.

Naquela época quem eram as colegas mais chegadas?
Ainda não tinha uma grande relação com nenhuma. Na minha primeira vez fui com uma atleta chamada Ana Correia e com a Rosa Oliveira. Essas eram as minhas colegas. Não íamos muitas, era pouca gente que ia ao Campeonato da Europa. Como íamos muitos dias, tínhamos um saco enorme e eu não podia com ele [risos]. Havia um atleta que era de triplo salto e eu andava sempre atrás dele “Zé Leitão, eu não posso com o saco” e ele ajudava-me [risos].

Fernanda Ribeiro no dia da entrevista, no Estádio da Maia

Fernanda Ribeiro no dia da entrevista, no Estádio da Maia

Rui Duarte Silva

Quando e como é que se dá a sua passagem da Kolossal para o FCP?
Começo a aparecer nos corta-matos e na pista, bato o record nacional de 1000 metros infantis. Em Penafiel não tínhamos pista, não tinhamos nada e eu ia correr para uns campos da feira. Um dia apareceram lá uns senhores, queriam falar comigo e com o meu pai. Eram do FCP. Entretanto falamos com o Luís Miguel, o clube era dele e ele era o meu treinador. Não queria muito que eu fosse embora, dizia que eu era muito magrinha e que as riscas não me ficavam bem [risos]. O FCP entretanto convida-me ainda como atleta da Kolossal para ir com eles fazer uma corrida a Vigo, em que eu só ia ver. Fui com eles e convidaram-me para vir ao Porto, num sábado, treinar. Fui. Não levei o meu treinador. Havia vários treinadores que sabiam que eu lá ia treinar naquele dia e o primeiro que me apanhou foi o Alfredo Barbosa. Treinou-me durante sete anos.

Sentiu logo grandes diferenças?
Senti. Apesar de não ter uma pista de tartan, o FCP tinha um estádio com uma pista onde eu ia treinar às terças e quintas-feiras.

Pagavam-lhe alguma coisa?
Pagavam-me as viagens.

Só as viagens?
Só. Eram os meus pais que me sustentavam.

Já era adepta do FCP?
Sim, não sou doente mas a minha família é toda portista.

Então os seus pais aceitaram bem a sua ida para o Porto.
Sim, o meu pai sempre aceitou tudo. A minha mãe foi mais complicado, porque não queria que eu fizesse atletismo.

Não?
Não porque eu era muito magra e a minha mãe sabia que não tinha as melhores condições para me dar, ela tinha muito medo que eu morresse. Lembro-me de ouvir a minha mãe a dizer ao meu pai: “Ela é muito magra, tu vais matá-la”. Foi muito complicado. Enquanto muitas vezes colegas minhas não iam porque o pai não as deixava, no meu caso foi o meu pai que me levou e a minha mãe é que armava mais confusão.

Algum dos seus irmãos praticava atletismo?
Não, não tinha ninguém no desporto.

Apoiavam-na?
Sim. Acontecia o meu pai tirar o último dinheiro para me levar às corridas e os meus irmãos estarem sempre de acordo. Queriam sempre que os meus pais dessem o melhor a mim. Depois a minha mãe torna-se das pessoas mais importantes na minha carreira.

Como e quando?
A minha mãe não queria que eu fizesse atletismo mas quando vou para o Porto é ela que vem comigo. A minha mãe não sabe ler mas é muito desenrascada, por isso acompanhava-me para eu aprender a andar bem de comboio. Depois tive momentos em que quis abandonar a carreira e foi ela que esteve ao meu lado. Não é fácil ser de uma aldeia onde as pessoas muitas vezes iam ter com os meus pais a dizer que era muito mau eu ir para a seleção com rapazes, que devia fazer tricô em vez de andar a correr. Os meus pais nisso foram sempre impecáveis, sempre me deram força e a minha mãe nos tempos em que não me deu força, não foi porque eu viajava com rapazes mas só porque achava que eu era muito magra.

Entretanto, já como atleta do FCP, vai ao Campeonato do Mundo de Juniores em 88, onde ganha uma medalha de prata.
Sim, eu perco a medalha de ouro porque fiquei entalada nos últimos 200 metros. Pedi a uma atleta portuguesa para me dar passagem e ela não me deu.

Quem?
Não quero dizer, mas a pessoa sabe. E nem quero dizer que a pessoa tenha feito por mal, mas nos últimos 200 metros estamos todas juntas e aquela pessoa se calhar achou que também podia vencer, não sei... Quero pensar que foi isso. Ainda tento apanhar a negrinha (Ann Mwan, do Quénia) mas não consegui. Fiquei toda contente na mesma com o 2º lugar.

Fernanda Ribeiro é levada ao colo pelo colega do salto com vara, Nuno Fernandes, depois de conquistar a medalha de ouro nos 10.000m, dos mundiais de Gotemburgo, em 1995

Fernanda Ribeiro é levada ao colo pelo colega do salto com vara, Nuno Fernandes, depois de conquistar a medalha de ouro nos 10.000m, dos mundiais de Gotemburgo, em 1995

Gary M. Prior

Ainda vai aos JO de Seul em 1988, como júnior.
Sim. Ganho a medalha no Campeonato da Europa em 1987, em 88 sou 2ª no Mundial e nesse ano vou aos Jogos Olímpicos de Seul. Em 3000m.

Qual foi a sensação? Foram os seus primeiros Jogos.
Foram os JO que mais gostei. Claro que os mais importantes foram os que ganhei, mas os de 1988 foram os que mais gostei. Não sabia o que eram os JO, nunca me vou esquecer de tanta coisa que se passou.

Diga-nos duas ou três coisas especiais.
Nunca tinha estado numa aldeia olímpica, é uma das coisas que ainda hoje mais me toca. É uma coisa especial, estamos todos juntos, do atletismo, andebol, futebol, todas as modalidades, é a nossa aldeia, mesmo. Temos praticamente tudo lá dentro. É o sítio onde me sento com aquela pessoa do andebol que vejo na televisão e de quem gostava.

Os atletas convivem mesmo uns com os outros ou permanecem nos seus “mundos fechados”?
Convivem. Por isso é que nunca me vou esquecer. Por vezes estávamos a dormir e vinham chamar-nos porque estava na hora de nos levantarmos para ir ver a corrida não sei do quê ou a prova de não sei quem. Era o sair do atletismo e ir ver a natação ou ir ver os outros colegas a competir. Era ter cinema e ir ao cinema e aparecer a maior chinesa que vi até hoje e que se senta à minha frente e eu não consegui ver nada [risos]. Sei lá, tanta coisa que nunca vou esquecer.

É também aí que tem o primeiro contacto com as estrelas portuguesas e com o prof. Moniz Pereira?
Já conhecia o professor porque comecei a ir para estágios com 12 anos. Comecei a ter uma ligação com o Carlos Lopes, Fernando Mamede, António Leitão, muito pequenina, como iniciada e eles como seniores.

Como é que a tratavam?
Sempre me trataram bem. Criei uma ligação muito grande com o António Leitão. Ele era muito brincalhão com toda a gente, e era se calhar a pessoa que tinha maior ligação comigo. Tenho hoje uma grande ligação com o Carlos Lopes, e vem dos estágios. Tenho dificuldade em tratar qualquer pessoa mais velha por tu, mas o Carlos Lopes e o Fernando Mamede trato por tu, porque fui habituada assim desde pequenina. O professor Moniz Pereira brincava bastante comigo e sempre reconheceu o meu talento.

Ele não a quis levar para a estrutura dele?
Ele tentou levar-me depois de eu ter começado a ganhar medalhas como sénior, mas eu não fui porque achei, mesmo tendo muito respeito pelo professor Moniz Pereira, que não tratava as mulheres da mesma maneira que tratava os homens. Isso incomodou-me um bocado. Mas sempre tive uma boa relação com ele. Depois cheguei a ir a competições em que era ele o selecionador nacional, e também me pregou algumas partidas [risos].

Que partidas?
Por exemplo, um dia convoca-me como suplente para ir a uma Taça da Europa, na Holanda, sabendo que eu tenho um meeting de 10.000m para fazer, em Paris. Disse-lhe na altura: “Professor faz-me falta fazer a corrida em Paris, porque é que vou para suplente?” E ele: “Porque não é qualquer país que tem uma suplente como tu. Tu fazes 800, fazes 1.500m, fazes 3.000m, 10.000ml”. E levou-me. Por casmurrice, não era porque fosse preciso.

É nos meetings que os atletas ganham mais dinheiro.
Sim, ganham dinheiro e muitas vezes fazem marca. Naquela altura eu até precisava mais pela competição, porque precisava de mínimos e entre ir a uma taça da Europa ou ser suplente, e fazer uma corrida de 10.000m... Não há muitas corridas de 10.000m para se fazer mínimos, e quem ia fazer a corrida dos 10.000m na Taça era a Conceição Ferreira por isso ela estava garantida, só se tivesse uma lesão ou qualquer coisa de última hora. Mas pronto, ele era daquelas pessoas que quando é assim é assim.

Fernanda Ribeiro na pista do Estádio da Maia, onde ainda hoje corre, por prazer

Fernanda Ribeiro na pista do Estádio da Maia, onde ainda hoje corre, por prazer

Rui Duarte Silva

Na passagem de júnior para sénior viveu quatro anos que quase acabavam com a sua carreira. O que é que aconteceu?
Eu tive duas fases. Uma de juvenil para júnior em que os resultados não saíam e sempre que lia o jornal, só lia notícias do género: “Treinou demais”, “Morreu como atleta”.

Isso afetava-a muito psicologicamente?
Afetava porque eu sabia que não era verdade. Mesmo quando estive doente.

Doente com quê?
Tive um problema de respiração em juvenil, que nunca se descobriu muito bem o que era. Tinha muitas dificuldades em respirar, deixei de treinar, fiquei gordinha. Tenho fotos dessa altura, em que estou gordinha. Penso em abandonar e a minha mãe nesse momento é das pessoas mais importantes. Depois tenho a fase quando passo de júnior para sénior. Sou uma atleta que vem de ter bons resultados como júnior e não consegue ter logo resultados como sénior. Então volta outra vez a mesma história, “Acabou como atleta”, “Treinou demais”, “Está dopada”, está não sei o quê...E aquilo vai-me afetando porque sabia que não era verdade. Tenho que voltar um bocadinho atrás. Eu treino sete anos com o Alfredo Barbosa e em 1988 mudo para o professor João Campos.

Muda porquê?
Tive sempre uma ligação muito grande com o Barbosa, ele já morreu, mas antes de morrer estivemos a conversar. O Barbosa começou a ficar com um grupo de atletas muito grande. Treina-me a mim, ao Regalo, ao António Pinto, ao Joaquim Silva, ao Paulo Catarino, tem um grupo enorme de atletas e começa a não ter um método de treino. Chegava à minha beira e perguntava-me “O que é que fizeste na terça-feira?” e eu dizia o que eu queria dizer. Claro que eu dizia a verdade, mas podia não fazê-lo. Entretanto começa a haver dinheiro no meio. Lembro-me que vou para o Porto, estou no Porto com o passe, ou com os bilhetes de comboio, passados uns tempos tenho resultados e ele achava que os homens tinham que ganhar muito mais.

Voltando à mudança de treinadores, do Barbosa para o Rui Campos.
As coisas com o Barbosa começam a não ser muito corretas.

Explique lá isso melhor.
Vou dar um exemplo. Fizemos uma corrida em Espanha, eu ganho como júnior e uma amiga minha ganhou como juvenil, mas viemos a zero. Mas um atleta masculino que ficou em último, recebeu 150 mil pesetas. No ano a seguir disse que não ia porque não achava correto aquela diferença de tratamento. O diretor do FCP disse para eu ir, que eles tinham um contrato. Cheguei lá e não havia dinheiro outra vez. Disse logo: “Não há dinheiro, também não corro”. Apesar de ele ter uma ligação muito grande comigo acudia mais pelos homens. Entretanto, sou campeã nacional de juniores como iniciada de corta-mato, mas deixo de gostar de corta-mato.

Porquê?
Não sei. Quando vim para o FCP comecei a treinar na pista e o Barbosa disse-me tantas vezes “Tu és boa na pista, tu és boa na pista”, que comecei a gostar de pista e a deixar de gostar de corta-mato. Um dia estou a falar como Barbosa e ele diz-me que há um campeonato nacional de juniores, em Famalicão, e que o FCP tinha uma equipa. Recordo-me de ele ter dito “Vais lá, ficas para aí em 10º...” E ei: ”Então não vou”. E ele “Então não vás, estás dispensada”. Deu-me um treino no sábado, de velocidade, domingo de manhã estou deitada e toca o telefone. Era das Antas: “Fernanda, estamos à tua espera para ir para a competição”. “Eu não vou, fui dispensada, o Barbosa dispensou-me” E eles: “Não, o Barbosa não te podia ter dispensado, tu fazes parte da equipa e fazes falta". “Mas eu não vou”. “Chama o teu pai”. E o meu pai: “Ela se quiser ir, vai, mas se não quiser ir eu não a vou obrigar”. O diretor do FCP era o Bernardino Barros e ele fala comigo: “Tu podes não correr mas vais a Famalicão para a gente conversar e depois decidimos”. Eu já só chorava. E lá vou para Famalicão a chorar. Achei que não ia competir mas levei o equipamento todo, eles disseram-me que se não quisesse competir, não competia, mas vou, a chorar para a partida e sou 2ª. E o FCP decide então que tenho de mudar de treinador.

Então não é a Fernanda que decide mudar.
Não. Se o Barbosa me ligasse e dissesse “Fernanda vamos conversar”, dava-me a volta porque a ligação que eu tinha com ele era muito grande. Mas não, ele ligou-me e disse “Fernanda, ouvi dizer que vais deixar de treinar comigo”. E eu “Sim” e ele desligou-me o telefone, nunca mais falou comigo. O Barbosa só falou disso quando estava para morrer, até lá nunca mais falou comigo. O FCP decidiu que eu devia mudar de treinador, que podia escolher o treinador que quisesse. O João Campos era treinador no FCP, fiquei com ele.

Houve logo empatia?
Eu já tinha alguma ligação com o João porque na primeira vez que fui ao Campeonato da Europa era ele o treinador. Houve uma altura em que eu corria muito de totós no cabelo e recordo-me que quem me ajudou a fazer os totós foi o professor João Campos.

Julia Vaquero (à esquerda), Gabriela Szabo (meio) e Fernanda Ribeiro (à direita) durante a prova dos 5000 metros do grande Prémio de Oslo, Noruega, em 1996. Fernanda venceu com o tempo de 14:41.07m

Julia Vaquero (à esquerda), Gabriela Szabo (meio) e Fernanda Ribeiro (à direita) durante a prova dos 5000 metros do grande Prémio de Oslo, Noruega, em 1996. Fernanda venceu com o tempo de 14:41.07m

Gray Mortimore

Há pouco falámos de Seul, mas não falámos enquanto experiência desportiva, de competição...
Em Seul fui aos 3000m porque não havia 5000m. A treinadora que estava comigo era a professora Sameiro Araújo. Não tive direito a levar treinador porque não era candidata a medalha. Agora começa a ser mais fácil porque existe a preparação olímpica que paga aos treinadores, mas na altura só os atletas considerados medalhados ou candidatos a medalhados é que levavam o seu treinador. Sempre tive uma relação muito boa com a Sameiro, por isso não me custou estar com ela.

Não passou à final. Foi uma grande desilusão?
Não, porque estar nos JO, mesmo agora que já ganhei e que podia estar de uma maneira diferente, é sempre importante. Sou contra irmos lesionados e ir só para estar presente, e ouvi isso muitas vezes, é estarmos a gastar dinheiro do contribuinte. E não é por se ir lesionado, porque eu fui campeã olímpica lesionada, mas quando se vai e se sabe que é só para estar presente, porque se vai desistir, isso sou contra. Mas Seul deixou-me marcas.

Que marcas?
Muitas vezes falo disso com a Sameiro Araújo. Os JO têm sempre muita segurança, mas eu e a Sameiro conseguimos entrar na pista para a maratona. Conseguimos passar a segurança toda. E só quando estávamos dentro da pista, na hora da partida, é que os juízes começaram a contar e havia 5 ou 6 portuguesas e não podia ser.

Mas vocês foram para a pista fazer o quê?
Porque a Sameiro era a treinadora da Conceição Ferreira e queria estar na pista. Então nós conseguimos passar a zona de controle de sapatos, passar toda a zona de segurança e ir para a dentro da pista. Corremos com elas dentro da pista e só nos apanharam porque começaram a ver muitas portuguesas na pista.

Ou seja, percebeu que afinal é possível furar a segurança de uns JO.
Não senti insegurança. Mas senti que quando uma pessoa quer, consegue passar. Mas Seul deixou-me marcas porque fui ver a corrida dos 10.000m e na parte final a Albertina Machado de um momento para o outro começa a correr da pista 1 para a pista 8, tem ali uma quebra qualquer e começo a chorar na bancada. Aquilo estava a fazer-me muita confusão, porque ela não estava bem, andava ali de um lado para o outro. Por iso, é como digo, Seul está cheio de histórias para mim.

Nessa altura com quem é que se dava mais?
Com a Albertina Dias. Sempre me dei muito bem com o grupo da Sameiro. Com a Albertina Machado, a Conceição Ferreira, com a Aurora Cunha, com a Rosa Mota também, mas mais com a Aurora. Tenho uma boa relação com a Rosa, não tenho uma boa relação com o treinador da Rosa, o Pedrosa. Se me perguntarem se são as duas difíceis? Antes quero uma Aurora Cunha a dizer muitas vezes asneiras mas que diz o que sente.

Fernanda Ribeiro, 49 anos, na pista do Estádio da Maia

Fernanda Ribeiro, 49 anos, na pista do Estádio da Maia

Rui Duarte Silva

Teve uma “guerra” com o João Pedrosa, marido e treinador da Rosa Mota, que foi pública. Pode recordar o que aconteceu?
Eu sou campeã em pista coberta em 1994. Ele era o organizador da corrida de S. João, no Porto. O primeiro prémio era um carro e o Pedrosa chegou à minha beira, à beira da Conceição Ferreira e disse: "Não existe este carro, mas eu pago-vos tanto de cachê, recebem todas por igual". Tudo bem. Entretanto vou correr a Valência, estou a falar com a Conceição Ferreira sobre a corrida do Porto e às tantas comento: "O Pedrosa deu-nos tanto...". E ela: "Não, Fernanda. Ele está a enganar-te porque ele a mim paga-me mais". Fui ter com o João Campos. "Professor, não vou correr porque o Pedrosa está a enganar-me, não está a ser correto". Contei-lhe o que a Conceição me tinha dito, ela não me tinha pedido para guardar segredo. O João Campos ligou para o Pedrosa: "A Fernanda vai correr para o prémio, ela já não está de acordo em ir pelo cachê porque tu não estás a cumprir, sendo a Fernanda até uma campeã da Europa de Pista coberta. Portanto ela vai correr para o carro." Entretanto o Pedrosa utiliza o meu nome para promover a corrida e quando chego à corrida ele não me deu o dorsal. Eu andava ali parecia uma barata tonta, primeiro o dorsal estava ali, depois era noutro sítio e não me deixou correr. É daí que vem a minha "guerra" com ele.

Há muita inveja entre os atletas? Sentiu essas invejas, dentro e fora de pista?
Sim. Mas também há boas amizades. Por exemplo, tenho uma ligação muito forte com a Manuela Machado. Convivemos muitos em campeonatos, apesar dela ser da maratona e eu dos 10.000m. Lembro-me da Manuela estar doente, em Sydney, e era eu que lhe dava a medicamentação.

Das atletas femininas foi com ela que criou maior ligação?
Tive e tenho uma grande ligação com a Albertina Dias que foi durante muitos anos a minha companheira de quarto. Depois a Albertina sai e passo a ter uma ligação enorme com a Ana Dias, que também foi minha companheira de quarto durante muitos anos. Tenho uma grande ligação com a Manuela Machado, ela também é do norte, fui campeã do Mundo em 95, a Manuela também, fui campeã em 94, a Manuela também. Ela só não ganha os Jogos no ano em que eu ganho. Chegávamos muitas vezes juntas ao Porto e os nossos amigos e familiares estavam todos juntos para nos receber. Eu tinha uma ligação muito grande com a mãe da Manuela e ela com os meus pais.

Notou muita diferença quando começou a treinar com o professor João Campos?
Sim. Eu nunca tinha tido um plano de treino. Com o Barbosa também nunca tinha feito muita ginástica, e não estou a dizer mal dele, porque tive bons resultados com ele e tenho muito respeito por ele, foi muito importante na minha carreira. O professor João Campos, talvez por ser um treinador mais de técnicas, do comprimento e altura, tinha outra maneira de dar os treinos.

É verdade que ele também a ajudou a recuperar psicologicamente?
Quando abandono o Barbosa não foi fácil. Tive colegas que deixaram de falar comigo. O António Pinto nunca deixou de falar comigo, mas houve outros que estavam mais frios comigo. Também tinha pais de atletas que me provocavam. Havia um em concreto que numa determinada zona da pista provocava-me. A dada altura comecei a parar ali. Até que deixei de fazer o treino de tarde e comecei a treinar de manhã para fugir do ambiente da tarde e começo a ter resultados, porque estava sossegada no meu cantinho. Começo a treinar com o João que era totalmente diferente do Barbosa, mas adapto-me bem e o João também foi adaptando o treino aquilo que eu gostava. Por exemplo, para treinar para a maratona toda a gente faz séries de 5000m e eu não conseguia fazer. Então o João adaptou o treino e em vez das 5000m, fazia de 1000m, só que em vez de fazer cinco, tinha que fazer 20 séries.

Fernanda Ribeiro, à direita, durante a final dos 10.000m, nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996

Fernanda Ribeiro, à direita, durante a final dos 10.000m, nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996

Alexander Hassenstein

Em 1992 vai aos JO de Barcelona e, tal como aos restantes atletas, não lhe correm bem.
Eu não sou candidata a nada, era aquela atleta que faz mínimos para estar presente nos JO. Corre mal a toda a gente.

Consegue arranjar uma explicação para o que se passou?
Não sei. Havia muitas guerrinhas. Só que no meio de tantos candidatos e eu não era candidata a nada, tinha que haver alguém que tinha de sofrer e fui eu. Lembro-me de ler uma entrevista do professor Fernando Mota onde ele me arrasava. Quase que dizia que eu lá tinha ido para passear, mas eu fui lá dar o meu melhor, só que não corria mais do que aquilo. E foi a mim e à Teresa Machado, do lançamento do peso, que ele atacou. Nesse ano fiquei com a Albertina Dias no quarto e lembro-me que me senti tão mal, chorava e já não queria sair. Estava morta por chegar a Portugal. Antes de regressarmos, chego a dizer que abandonava a carreira porque não me estava a sentir bem. Estavam sempre a dizer-me que eu tinha acabado a carreira, e depois ainda ouvir aquilo do presidente da Federação. O João disse-me: "Tu é que sabes, mas não o deves fazer porque ainda tens muito para dar". O João esteve a lavar-me a cabeça e a minha mãe também. Entretanto os atletas que participaram nos JO foram recebidos num hotel onde estava o presidente da federação e ele veio falar comigo e eu disse-lhe: "Eu ainda lhe vou mostrar que sou atleta. E ele respondeu: "Isso é o que eu quero ver".

Em 1993 passa em definitivo para a distância dos 10.000m.
Sim. Vou ao campeonato do mundo em Estugarda, na Alemanha, e sou logo 9ª classificada. Para mim, que nunca tinha ido a uma final, já foi uma vitória. Mas antes disso, eu vou tentar mínimos a Espanha, ao Ibérico, e a federação proíbe o meu treinador de ir comigo.

Porquê?
Porque eu não tinha um resultado. O João, ainda antes das competições dizia: "Estás a valer tanto". Normalmente ele acertava em termos de marca. O João dizia que eu ia fazer mínimos e propôs à FPA ir comigo. A FPA não o deixou ir. O João pagou a viagem do bolso dele e foi comigo. Fui 2ª, faço mínimos. Chego a Lisboa e está toda a gente à espera porque o resultado foi bom. Tinham-se esquecido é que foi ele a pagar a viagem. E a seguir sou 9ª. Foi um bom resultado.

Passar para os 10.000m era uma vontade sua ou foi fazendo apenas o que o seu treinador, o João Campos, dizia para fazer?
Eu tinha o sonho de fazer uma maratona para saber o que era fazer uma maratona. Nunca disse que queria ser maratonista. Comecei a ir para a pista e comecei a gostar dos 10.000m. Sempre gostei desde miúda de fazer essa distância, as provas que eu fazia eram quase sempre de 10km, fui-me habituando a isso. Mas quando passo para os 10.000m, faço 3000m na mesma. Em 1994 já estou nos 10.000m e bato o recorde nacional de 3000m com 8:40m. Só que era uma opção. Os 10.000m são uma corrida mais lenta, diferente, se calhar era ali que eu podia ter melhores resultados. Quando vou ao Europeu de Helsínquia em 1994, nós tínhamos um apartamento e lembro-me de estarem a conversar dentro de um quarto e de ouvir: "Eu não sei o que é que aquela gaja vai fazer aos 10.000m, porque ela podia ganhar uma medalha, podia ser 3ª ou 2ª nos 3000m, não sei o que vai fazer aos 10.000m." Naquela altura eu tinha o tempo de 31:30 e a Conceição Ferreira tinha 31:16. Mas eu tinha treinado para aquilo e era aquilo que queria fazer. E fui fazer essa corrida. Fui medalha de ouro com o tempo de 31:08.

E ganhou nesse ano ainda a medalha de ouro nos 3000m em Pista Coberta, no Europeu de Paris com 8:50.
Eu adorava fazer pista coberta. Adorava. Aquele barulho "pum, pum, pum" da pista. Adorava ir só pelo barulho da pista. A pista ao ar livre era diferente, era outra grandiosidade. A pista coberta e o corta-mato se calhar eram uma preparação para depois na época de pista ao ar livre sentir-me com velocidade.

Fernanda Ribeiro no momento em que se sagra campeã olímpica dos 10.000m, em Atlanta, 1996

Fernanda Ribeiro no momento em que se sagra campeã olímpica dos 10.000m, em Atlanta, 1996

Wally McNamee

Sagra-se campeã olímpica nos JO de Atlanta. Honestamente, sabia que ia ao pódio?
Durante toda a minha carreira tive problemas nos tendões de Aquiles. Ainda agora que acabei a carreira continuo com problemas. Mas as pessoas duvidavam das lesões que eu tinha. Diziam que era uma desculpa. Só que eu tive momentos de treino, sobretudo em ano de JO, de acabar as séries com as lágrimas a caírem porque tinha dores horríveis. Tive treinos em que a mulher do treinador já estava com o saco de gelo na mão para me pôr entre séries e eu poder acabar o treino. Houve alturas em que o João dizia: “Não fazes mais, acabou o treino”, e eu respondia-lhe "Não, se eu tenho de fazer 20 vezes 400m para ser campeão olímpica, eu vou fazer". Mas tivemos momentos em que era eu a virar-me para um lado a chorar e o João virar-se para o outro a chorar, porque as dores eram terríveis. O pior é que tinha montes de atletas que também duvidavam. Fazia confusão a muita gente, porque muitas vezes não conseguia correr mas depois chegava às corridas e ganhava. E 1996 foi muito complicado, porque já vinha a sofrer muito desde 1994. Inclusive tive de deixar de treinar de sapatos de bicos, só os calçava na competição porque não conseguia fazer treino sem ser de sapatilhas normais. Outra coisa, eu não sei o que é altitude, nunca tinha feito estágio em altitude e nem sequer tinha feito ainda um estágio no estrangeiro. A primeira vez que fiz um estágio no estrangeiro foi precisamente no ano dos JO de Atlanta.

Onde foi o estágio?
Em Manaus. Que não tinha nada, só muita humidade e muito calor. E enquanto havia pessoal a ir treinar às seis da manhã, eu ia treinar às nove horas para apanhar o calor. Levei uma equipa comigo, foi o ano em que não nos faltou nada em termos de preparação olímpica. Levei o fisioterapeuta, o médico, foi a primeira vez que fiz estágio fora e a primeira vez que tive tudo, que não me falharam com nada. Foram 15 dias e quando estou para acabar o meu estágio vou fazer um treino e tenho dores horríveis num tendão, não consigo acabar o treino. Estou a chorar, isto em abril, porque tinha o sonho de ser campeã olímpica, e quando estou para vir embora chega um grupo de atletas da FPA. O fisiterapeuta ia ficar mas o médico mudava. Estou a chorar e o médico que chegou diz: "Acabaste a carreira, nunca mais corres". Uma pessoa está a chorar, desesperada, com dores horríveis e ouve isto. Venho embora de Manaus, o fisoterapeuta João Sobral, impecável, disse-me "Fernanda se for preciso eu vou para o Porto e vou ajudar-te". O médico que foi comigo, Dr. Paulo Beckert, que é agora o médico da seleção nacional, também foi impecável: "Fernanda, se for preciso também vou contigo". Só que o choque foi tão grande que pensei: "Nunca mais vou correr, acabei a minha carreira".

O quê ou quem a fez mudar de ideias?
Das pessoas mais importantes nesse momento foi o Rodolfo Moura, que era massagista do FCP. Quando cheguei e disse acabei a minha carreira, ele vira-se: "Tu quê? Tu acabaste a tua carreira? Tu vais ser campeã olímpica". E foi-me dando a volta. Não tinha sábado, nem domingos ou feriados, passava o tempo a fazer tratamentos. Eu não tinha vida. Treinava de manhã e de tarde e entre os treinos ia fazer tratamentos, passava a vida em departamentos médicos. Claro que a partir daí comecei a sonhar outra vez que podia ganhar, apesar de saber que era muito difícil, mas nunca perdi a esperança. Agora, claro que sempre que vinha uma dor mais forte... As pessoas não sabem, mas eu tive muitos dias de me levantar e não conseguir pousar os pés no chão. Tinha que dar os primeiros passos agarrada à parede. Depois conforme os pés iam aquecendo eu começava a correr. Não foi fácil.

O apoio da família aí foi fundamental.
Sempre. Muitas vezes eu não queria ir correr sozinha e os meus irmãos, que nunca foram atletas, iam correr comigo, sobrinhos também, só para eu não correr sozinha. Os meus próprios cunhados. A minha mãe muitas vezes também dizia: "Oh, coitadinha, vão com ela para ela não ir sozinha". Quando eu dizia: "Não me apetece nada ir correr, está a chover". A minha mãe: "Anda lá filha, tens que ir, sabes que tens de ir correr". Normalmente as mães dizem: "Ah não vás que está a chover". A minha mãe não [risos]. Enquanto fui atleta a minha mãe nos momentos em que eu dizia que não me apetecia, ela era aquela que dizia: "Vai, vai que tens de ir". E era capaz de ir pedir ao meu irmão, ao meu cunhado, aos meus sobrinhos a toda a gente para irem comigo.

Os seus pais ainda estão vivos?
Estão. Têm ambos 83 anos.

Depois da conquista do ouro, em Atlanta, Fernanda Ribeiro dá a volta de honra à pista com a bandeira que o nadador Nuno Laurentino lhe deu

Depois da conquista do ouro, em Atlanta, Fernanda Ribeiro dá a volta de honra à pista com a bandeira que o nadador Nuno Laurentino lhe deu

Alexander Hassenstein

Voltando a Atlanta, o que sentiu quando lá chegou?
Vou com receio do que me pode acontecer. Vou para os jogos 15 dias antes. Não fomos logo para a aldeia olímpica, fomos primeiro para outra zona treinar. Passava o tempo todo em treino/tratamento. Só que os meus treinos eram muitos bons. Eu estava a correr muito e sabia. Sabia que podia acontecer alguma coisa no pé mas sabia que estava a correr muito. Lembro-me de treinar com o Antonio Pinto e com os irmãos Castro e eles a quererem "matar-me" no treino e não conseguiam. Nem em meio fundo, nem em velocidade. Por isso eu sabia que em forma eu estava. Até que o médico da FPA chegou e disse que eu tinha que de ir mais cedo para a aldeia olímpica porque precisava de mais tratamento. Depois há coisas que acontecem...

Que coisas?
Vou para aldeia, faço tratamento até à meia noite e a minha companheira de quarto, Sandra Barreiro, lesiona-se. Cai do comboio da aldeia e não faz os JO. Então a minha vida era fisioterapia com ela e comigo, e estar com ela, porque houve alturas em que ela não ia comer e eu ia buscar-lhe a comida. Fui passando o tempo muito resguardada, fiquei muito com ela. Quando fui à final dos 10.000m, o pessoal já andava todo a passear, porque as pessoas que não vão às finais aproveitam para passear depois. Eu fiquei sempre ali com ela.

Não estava nervosa?
Eu levei sempre o atletismo muito a sério, mas a brincar. Ou seja, eu ia para o aquecimento e se tivesse de falar, falava, se tivesse que parar para dar um autógrafo, parava. Chegava e deitava-me no chão até à hora da competição. E fiz tudo igual naquele dia. Vou para a competição, faço o apuramento. Sou apurada. Continuo com a mesma rotina, treino e tratamento. É claro que toda a gente sabia que a chinesa era muito forte. Mas quando vinha à pista o Gebrselassie dizia que eu ia ganhar. Fui para a final descontraída. Quem estava nervoso era o meu treinador, até vomitava. Eu não. Fiz palavras cruzadas e dizia ao meu treinador que não valia a pena estar nervoso que o que estava feito, estava feito e estava muito descontraída.

E na final?
Sempre corri com dor, estava habituada. Mas tinha sempre muito medo do que me podia acontecer porque havia momentos em que o tendão parecia que ficava com uma bola e não desenvolvia. Antes das competições, quase na hora de ir correr, eu ligava para a minha mãe. Durante a competição pensava muitas vezes na minha mãe porque sabia que ela estava a sofrer muito. Conheço-a perfeitamente e ela a mim. Eu ligava à minha mãe e ela às vezes só pela voz dizia-me: "Não estás bem". Em todas as provas eu ligava-lhe sempre. E nessa prova eu imaginava a minha mãe de joelhos, a pedir aos santos todos e sabia que ela não via a competição.

10.000m dá para pensar em muita coisa?
Dá. Também tinha de estar com atenção na competição, a algum ataque. Uma das coisas que aconteciam e que as pessoas se admiravam, é que eu conseguia comunicar-me com o João Campos, sempre, mesmo nessas grandes competições como os JO em que as bancadas e a pista estão cheias de gente.

Como?
Por sinais. Eu entrava na pista e o João assobiava. Podia estar toda a gente a assobiar, aquele assobio eu sabia que era do João Campos e via onde ele estava. Fazia-lhe assim [faz gesto de tudo bem com polegar para cima], e a partir daquele momento sempre que passava ali era para aquela pessoa que eu olhava. Aliás durante as filmagens da competição nota-se que muitas vezes olho para o lado. É com ele que estou a comunicar.

Ele ia-lhe dando indicações?
Sim, por gestos conseguíamos comunicar.

E seguia à risca tudo o que ele dizia?
Eu só não cumpri à risca o que o João Campos me disse no Europeu de 1994.

Porquê?
A Conceição Ferreira tinha 31.16 e eu tinha para aí uns 31.30. Nem era muito candidata, apesar de eu saber que estava muito bem. E o João tinha-me dito: "Tu corres atrás e deixas-te ir". Entretanto, eu nunca consegui (nem com as estrangeiras, quanto mais com as portuguesas), ir atrás e não ajudar. Fui para a frente ajudá-la. Só que eu senti-me tão bem que às tantas fui-me embora. Ganhei o campeonato da Europa para aí com uns 200m de avanço. De resto tudo o que ele me ia dizendo eu cumpria.

Qual foi a primeira coisa que pensou quando se tornou campeã olímpica?
A minha primeira preocupação era falar com a minha mãe, mas não consegui fazê-lo logo (emociona-se). Eu sabia que mal acabasse a corrida alguém a ia avisar do resultado. E sabia que a minha mãe começava a sofrer muito antes da corrida.

Rui Duarte Silva

Recentemente veio a público uma carta escrita há 20 anos em que a atleta chinesa Wang Junxia confessava que era obrigada a tomar substâncias proibidas. Tinha essa noção?
Normalmente tínhamos noção de quem andava no doping. Porque normalmente há uma época em que correm muito, outras épocas que não correm nada. E as chinesas corriam muito naquela altura, na China ou noutras provas, mas em grandes competições, em campeonatos do mundo, nunca apareceram muito. Para mim enquanto não fossem caçadas eram atletas limpas. Ela foi caçada e agora posso dizer que corri com uma atleta dopada e que lhe ganhei. Antes, podia desconfiar, mas... .

Qual é o momento em que sente que vai ganhar a medalha de ouro?
Em competição vamos por fases. Muitas vezes vamos muito bem e de um momento para o outro vem um cansaço que uma pessoa diz "De onde vem este cansaço?!". Mas depois anda ali mais um bocado e aquilo passa. quase sempre passa. Sempre que havia um ataque e eu conseguia reagir é porque eu não estava mal. Mas o problema é que as candidatas também estavam a reagir. Quando eu soube mesmo que podia ganhar foi quando passei por ela. Agora, durante a competição sim, pensei muitas vezes "vou conseguir". Acho que perco mais um bocado a esperança quando el sai e eu não consigo reagir logo. Ali é que acho que perco um bocado a esperança. Mas tão depressa penso nisso como pensei eu não tenho mais nada a perder. Eu sabia que já não perdia o 2º lugar, sabia que estava bastante rápida e acreditei. E depois também porque comecei a ver no ecrã que ela não estava tão bem como aquilo que parecia. Mas ganhar ganhar mesmo só depois de ter passado por ela.

O que é que uma pessoa sente nesse momento?
Nem dá para explicar. A alegria é tão grande. É como ouvir o hino português, para mim é o mais bonito. Eu estive em Espanha e ganhei uma prova e o foi o hino espanhol que tocou e não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Quando é que consegue falar finalmente com a sua mãe?
Ainda demorou. Nem consegui estar logo com o João Campos porque ele não saltou para a pista. Era proibido.

Qual foi a primeira coisa que o João lhe disse quando se encontraram?
"Conseguimos, miúda". Tínhamos sofrido tanto... .

E o presidente da FPA, Fernando Mota, disse-lhe alguma coisa?
Já não me recordo. Mas apesar do que aconteceu em Barcelona eu tenho uma ligação bastante forte com o professor Fernando Mota. Tenho uma grande admiração por ele e sei que ele tem por mim. Aquilo que se passou, passou.

Quem é que lhe passou a bandeira para dar a volta de honra à pista?
O Nuno Laurentino, da natação. Todos os atletas, memso os que não eram do atletismo, quiseram ir ver a minha prova. Depois da volta há as televisões, o controlo antidoping, só cheguei à aldeia olímpica às duas da manhã. Mas eu já não consigo chegar à aldeia pelos meus pés. Tenho os problemas nos tendões de Aquiles e foi a Cecília Carmo, da RTP, que me levou dentro da aldeia. Apesar de supostamente o carro da RTP não poder entrar na aldeia, como eu tinha ganho, mostrei a medalha ao segurança, explicamos que eu já não conseguia andar e deixou-me entrar. Só falei com a minha mãe quando recebo a medalha. A minha mãe tinha dito que ia conforme estivesse vestida e arrancou para Fátima, com o meu irmão mais novo. O meu irmão mais novo foi sempre o que seguiu mais de perto a minha carreira, fazia promessas por mim (emociona-se) e agora não anda.

O que aconteceu?
Teve um acidente de moto no início deste ano e ficou paraplégico. Tenho ido todos os dias ao hospital para estar com ele. Todos os dias.

Veio embora mais cedo dos JO de Atlanta. Porquê?
Ganhasse ou perdesse, queria vir para Portugal logo. Por isso, antes da prova pedi autorização para trocar a viagem de regresso para mais cedo. Acho que ninguém estava à espera que eu ganhasse porque eu tenho autorização para vir embora logo a seguir à prova. No dia em que vou para a final o António Abrantes, dos 800m, disse-me para eu estar descansada que trocava a viagem. Por isso eu sou campeã e venho embora no dia seguinte. Para me darem autorização é porque não estavam a contar que eu ganhasse. Porque no outro dia aparecem os políticos e claro já não queriam que eu viesse embora, queriam que eu viesse com a comitiva. Mas eu queria vir para a beira das minhas pessoas e vim embora. Não dormi durante essa noite porque entretanto quando cheguei à aldeia estavam lá os meus colegas todos à espera para festejarmos.

Depois disso existe ou não aquele sentimento do dever cumprido, de que está tudo feito?
Sim. Naquele momento eu tinha conseguido tudo. Tinha sido campeã da Europa, do Mundo e olímpica. Desde miúda que dizia que queria ser campeã olímpica. Sabia que não era fácil. Naquele momento eu só queria vir para casa, estar com as pessoas mais próximas, família, colegas de treino, era o que eu queria, nem pensava mais em atletismo. Só que passado um dia ou dois uma pessoa começa a assentar e a pensar "Eu ainda posso fazer mais".

E pode, porque em 1997 é prata e bronze.
Também não foi um ano fácil para mim. As pessoas muitas vezes nem imaginam... Em 1997 eu vou ao campeonato do mundo, e não durmo antes da final porque estava à porta de um quarto com um colega a fazer ginástica quando ouço duas colegas, que não vou dizer o nome, a falar sobre mim. "Fernanda Ribeiro, Fernanda Ribeiro? Eu sou melhor que ela, ela está é dopada". Nem consegui dormir.

Sentiu-se muito injustiçada, imagino.
Ainda para mais porque se tinha feito tantas análises era porque tinha estado doente, com anemia. Tive uma anemia em que fui convidada para ser tratada de uma maneira e eu preferi ser tratada de forma normal. Por isso estive bastante tempo doente. Ainda estive parte de 1998 com anemia. Mas a revolta dela era porque ela achava que treinavam muito e não conseguia resultados. Eu agora acredito que ela sabia que eu estava a ouvir, acho que fez de propósito. Aquilo afetou-me tanto... Entretanto eu fiz queixa e a FPA arquivou o meu processo e o Pinto da Costa queria ir para os tribunais, mas eu disse que não, chega.

O que aconteceu no campeonato do mundo?
Meteram-me dentro de um quarto com ela, porque eu queria tirar tudo a limpo, mas essa pessoa inicialmente negou ter dito aquilo. A federação nunca duvidou do que eu estava a dizer. Às tantas ela pediu para falar novamente e disse: "É verdade, eu disse aquilo porque eu treino muito e não consigo resultados". Eu respondi: "Treina menos, pode ser que consigas". Isto tudo antes da minha final. Entretanto, fui proibida de comentar isto. A federação devia ter mandado a atleta embora para não estar lá no dia da minha competição, mas não só não fez isso como deixou que ela e a outra fossem à zona da partida desejar boa sorte à atleta espanhola. A Manuela Machado quando foi ver a minha prova achava que eu não estava correr direita, pudera, eu não estava concentrada, não tinha dormido. Por isso as medalhas de 1997 foram muito importantes para mim.

Fernanda Ribeiro no pódio de Atlanta, com a sua medalha de ouro, na companhia de Wang Junxia, prata e Gete Wami, bronze

Fernanda Ribeiro no pódio de Atlanta, com a sua medalha de ouro, na companhia de Wang Junxia, prata e Gete Wami, bronze

ROMEO GACAD

Em 1998 ganha mais medalhas, incluindo a prata no europeu de Budapeste, nos 10.000m.
Só faço uma corrida porque ainda não estava em condições e duas era muito. E 1999 foi muito mau.

Porquê?
Na minha carreira tenho várias corridas boas, tenho uma corrida que nunca vou esquecer em que fui campeã olímpica e tenho uma corrida má que também não vou esquecer, Sevilha 1999. Eu treinei muito bem, chego a Sevilha e mal parti, acho que tinha para aí três voltas, e já não conseguia correr. Desisti. Não tenho uma explicação. Sei que não conseguia correr.

Foi psicológico?
Não sei. Sei que tinha começado a corrida e passado um bocado eu já não conseguia correr. Aquilo afetou-me muito, primeiro porque eu tinha treinado muito bem, sabia que era candidata. Sou companheira de quarto da Ana Dias nesse mundial. Corro mal, estou a chorar, veio a Manuela Machado que também tinha tido um problema e ela começou a dizer, se correu mal à Fernanda vai correr-me mal a mim. Pedi para vir embora. Alugamos um carro, a Ana Dias deixou-me em Vila Real de Santo António (VRSA) e regressa a Sevilha outra vez. Fico em VRSA à espera de outro carro para vir para casa, mas as pessoas acharam que eu não tinha sofrido nada, que até já estava de férias e andava a festejar em VRSA. Aquilo afetou-me tanto que estive sete dias sem sair de casa. Não saí e deitei os meus sapatos de bicos ao lixo.

E depois?
Eu tinha um grupo de treino em Paredes e eles foram-me buscar. Deram-me a volta. "Não corres mais mas vens treinar connosco só pelo prazer de treinar". Foram apanhar os sapatos de bicos ao lixo. Voltei a correr, mas nunca bem. Entrei no ano 2000 com medo. Não queria competir. Foi um ano muito complicado, fiz poucos meetings e houve uma altura em que o João, pouco antes dos JO, disse "Vamos fazer um teste de 5000m na pista". Eu praticamente ia a competir porque eram homens que iam comigo. Fiz um grande treino, era a segunda melhor marca nacional se fosse a contar. E o João: "Estás a ver que tu estás bem?". Fiquei naquela... E vou para os JO, vamos um pouco antes para uma zona de treino, onde fiquei constipada, achava que tudo me corria mal até que o meu treinador, num treino foi ter com o massagista e disse "Vai lá tu falar com ela porque apetece-me dar-lhe um estalo" [risos]. Quando estava quase na altura da competição o João veio conversar comigo e disse: "Olha Fernanda, não vais correr, vamos fazer uma conferência de imprensa onde vamos assumir que tu não vais fazer a competição. Vou-te dizer que vais deitar fora uma medalha. O medo que tu tens delas (as adversárias) é o medo que elas têm de ti. " E foi-se embora. Passado um bocado vou para a aldeia e a aldeia muda-me um bocado.

Como assim?
A aldeia era das coisas que me mudava não sei porquê. Fico perto da Manuela Machado e da Ana Dias, faço a meia final e ganho a meia final. A Manuel entretanto fica doente, fica com 40 de febre. Na véspera da final olho para a lista de participantes e falo com elas. Perguntei-lhes se elas achavam que valia a pena. E elas "É difícil". E eu "Acham que vale a pena levar fato de treino de cerimónia?". "Não. Se for preciso, se ganhares uma medalha nós vimos ao quarto buscar o fato de treino de cerimónia". E não levei o fato de treino. É para ver a esperança que nós tínhamos [risos]. Fui para a competição e elas foram comigo. Aí também não cumpri o que o João me mandou.

Porquê?
Por medo. Lembro-me que já estava a correr e cada vez que chegava à zona onde elas estavam sentadas na bancada, olhava e via-as a escorregar pela cadeira abaixo e a tapar a cara, como quem não quer ver [risos]. Entretanto, aos 7km eu podia ter ido embora, o João disse para arrancar, eu conseguia ir, mas tive medo. A minha época tinha corrido tão mal... Íamos umas quatro ou cinco e sabia que na ponta final eu ganhava pelo menos à Paula Radcliffe e a Tegla Loroupe. Pensei: "Não estou mal aqui", era mais seguro para mim e deixei-me estar, não cumpri o que o João disse. A medalha de ouro até duvido, mas a medalha de prata tenho a certeza que ganhava e não ganhei porque entretanto quando arranco já é tarde. Eu perco isso tudo por medo. Tinha passado um 2000 tão mau que para mim uma medalha de bronze era ouro. Eu já nem estava a contar com nada. Entretanto olho para a bancada, para o lugar onde deviam estar a Manuela e a Ana e já não estavam porque tiveram de ir buscar o fato de treino à aldeia. Não sei como é que foram, mas foram. Ganhei, bati o recorde nacional, corri mais rápido ainda do que corri em Atlanta. E pronto.

Nos Jogos Olímpicos de Sidney Fernanda Ribeiro foi medalha de bronze nos 10.000m. Gete Wami, à esquerda, foi medalha de prata e a sua compatriota etíope Derartu Tulu, ouro.

Nos Jogos Olímpicos de Sidney Fernanda Ribeiro foi medalha de bronze nos 10.000m. Gete Wami, à esquerda, foi medalha de prata e a sua compatriota etíope Derartu Tulu, ouro.

Depois não ganha mais nada. Mas vai aos JO de Atenas.
Em 2001 eu não vou ao campeonato do mundo por lesão. Em 2002 estou a treinar muito bem, estou num estágio em Esposende e começo a ter problemas de intestinos e nunca mais recuperei até hoje.

Que problema é esse?
Na altura acharam que tinha sido um pudim. Eu ia treinar, transpirava, depois ficava completamente gelada e tinha a barriga muito inchada. Mas ainda hoje se comer uma maçã antes de um treino não consigo correr. Sempre que ia ao médico da federação eles tinham muitos problemas para me dar a medicação porque qualquer coisinha irritava-me logo o estômago e os intestinos. Foi de um momento para o outro num estágio.

Mas tem alguma coisa em concreto no estômago ou nos intestinos?
Não sei, qualquer coisa me irrita o estômago ou os intestinos. Não é gastrite. Mas não sei o que é.

Nos JO de 2004 também desiste.
Aí tinha-me lesionado nas costas, um estiramento, mas já lá. Eu depois de ter tido o problema de intestinos nunca mais tive uma carreira... Às vezes tenho dores horríveis. Começo a correr outra vez depois daquilo porque gosto e deixei-me andar. Em 2008 como eram os meus sextos JO, ainda treinei mais ou menos. Fiz os mínimos internacionais, não fiz os mínimos nacionais.

E é por isso que não vai?
Não. O argumento ainda não sei. Quando digo a alguém que Portugal não me levou aos meus sextos JO ninguém quer acreditar, porque era a primeira vez que uma fundista ia a seis jogos. Eu tinha mínimos e não tinham que me pagar nada porque como campeã olímpica sou convidada para ir durante uma semana. Portanto, a federação nem sequer tinha de gastar dinheiro comigo. Portugal não tinha ninguém nos 10.000m, eu estava lá sentada na bancada, a ver, quando podia estar a competir, mas o meu país não me levou. Ao princípio a explicação é que não tinha o mínimo nacional, entretanto o professor Fernando Mota disse que um dia íamos conversar e até hoje não tivemos essa conversa. Sei que passado um ano ou dois havia atletas que não tinham feito o mínimo nacional e sim o internacional e estavam a competir.

Por aquilo que conta parece que as coisas consigo nunca foram fáceis. Por que será?
Sei lá, se calhar também porque eu não sou de me calar. Se calhar sou daquelas que cumpro tudo, as regras todas, faço tudo o que me é exigido e então também não me calo. Mas eu posso falar em relação à federação, ao governo, em relação a tudo porque eu não tenho o rabo trilhado em nada. Tudo o que consegui foi com o meu trabalho. Ninguém me deu nada que eu não tenha merecido, por isso falo à vontade. Se calhar há atletas que não podem falar. Eu posso.

Sente alguma falta de reconhecimento?
Não é falta de reconhecimento. Eu penso assim: Aquilo que ganhei ninguém me vai tirar. Sou daquelas atletas que não empurro ninguém para aparecer. Sou capaz de ir mais depressa ou ao mesmo tempo onde tenha a televisão ou onde não tenha ninguém, para fazer qualquer coisa solidária. Não tenho que aparecer só porque está a imprensa. Muita gente acha que eu tenho uma reforma ou alguma coisa porque fui campeã olímpica, eu ganho zero do governo.

Não recebe nada?
Nada. Estou à vontade para dizer. Recebo zero do governo.

Vive de quê?
Do que fui juntando. Ainda noutro dia disse isso ao secretário de estado, que ia deixar de ir às escolas (claro que não deixo), porque eu pago para ir aos sítios. Eu não vou levar dinheiro a uma escola para lá ir. Há atletas que estão a receber e que não ganharam o que eu ganhei.

Porquê?
Porque não há critérios. Julgo que agora saiu uma lei que diz que os atletas que ganharem medalhas têm direito a uma reforma, eu que sou a atleta mais medalhada, ganho zero.

Mas tem direito a uma reforma.
Nós fazemos descontos como atletas de alta competição. Eu vou ter uma reforma pequenina. As pessoas ficam muitas vezes admiradas porque acham que eu como campeã olímpica tenho uma reforma do Estado, como os políticos ou outros, mas não. Não tenho de andar a mendigar. Se existe um escalão para medalhados olímpicos, se existe um escalão para medalhados mundiais, etc, tem que ser por mérito, não tem que ser porque eu vou pedir. Eu não tenho que pedir. Mas depois sou convidada para ir às caminhadas, às escolas, a essas coisas para promover a modalidade e tenho ainda de pagar do meu bolso.

Retrato de Fernanda Ribeiro, tirado no ano 2000

Retrato de Fernanda Ribeiro, tirado no ano 2000

A Academia Fernanda Ribeiro não é um meio de subsistência?
Não. Fiz porque gosto de crianças e porque eu quis ficar ligada na mesma ao atletismo. É uma parceria com a Câmara, onde os mais velhos não pagam nada, porque sou eu que gosto de correr e vou com eles. E os meninos pagam uma quota para pagar aos treinadores.

Então vive só das economias que foi fazendo?
Sim.

Quando é que começa a ganhar dinheiro?
Começo a ganhar dinheiro com 17, 18 anos.

As medalhas não lhe davam dinheiro?
Sim, do governo. Na altura acho que me deu 750 contos, de resto não me dava mais nada. Depois o FCP começa a pagar-me um pequeno subsídio, tinha eu uns 17 anos, já não me lembro bem das datas. Tinha a vantagem que nessa altura as corridas de estrada davam dinheiro. Ia vivendo assim, das corridas de estrada. Comprei um terreno com as minhas corridas de estrada.

O que mais queria comprar com o seu primeiro dinheiro?
Desde miúda que sempre sonhei em dar uma casa aos meus pais, por isso mal comecei a ganhar dinheiro comprei um terreno lá na aldeia. Passados uns tempos comecei a construir uma casa, que ainda hoje tenho. À medida que ia tendo dinheiro, ia fazendo contratos com os empreiteiros. Lembro-me de me certas alturas a minha mãe estar preocupada: “Tu agora não vais ter dinheiro para dar ao empreiteiro”. E eu ia fazer mais uma corrida de estrada. Era assim que ia fazendo.

Essa casa demorou quanto tempo a construir?
Ainda demorou bastante [risos].

Quando se mudou para essa casa os seus pais e irmãos foram consigo?
A minha mãe e o meu pai ficaram na casa deles. O meu irmão mais novo muda-se comigo em 1995. Vou eu, o meu irmão mais novo e uma sobrinha. Mas era muito perto, uns 400 metros, da casa dos meus pais.

Além da sua casa e do terreno onde investiu o dinheiro que foi amealhando?
Eu tenho quatro casas. Foi onde investi mais o meu dinheiro. Mas por enquanto nenhuma está arrendada. Sou muito agarrada às minhas coisas e incomoda-me que as pessoas estejam mexer nas minhas coisas [risos].

São todas no norte?
Tenho uma em Esposende onde estava quando treinava, tenho uma aqui na Maia e tenho duas em Penafiel, a que construí, que foi a primeira, e a casa onde nasci que comprei.

E vive em qual?
Neste momento vivo na Maia.

Nunca se meteu em negócios?
Não.

Ganhou mais dinheiro nos meetings, certo?
Sim.

Chegou a ganhar um carro, um Mercedes.
Ganhei quando fui campeã do mundo em Gotemburgo. Ainda o tenho. Não consegui vendê-lo por ser o primeiro. Tenho esse carro desde 1995 e tem poucos quilômetros.

Não anda com ele?
Não, é muito grande. É o carro que eu dizia que era para a minha mãe andar porque é grande, abre bem as portas para trás e o meu irmão andava sempre com a minha mãe nesse carro.

O que é que os seus irmãos fazem?
Não tenho nenhum que seja ou tenha sido desportista. Tive um sobrinho que foi jogador de futebol. Todos trabalham, têm as suas profissões. Somos muito chegados. O meu irmão que vive mais longe da minha mãe, vive a 5 km. Somos muito chegados mesmo.

Ao longo da nossa conversa falou sempre mais da sua mãe do que do seu pai, apesar de ter sido ele a levá-la para o atletismo.
O meu pai foi a pessoa que me levou para o atletismo e foi a pessoa que mais me acompanhou porque muitas vezes ia treinar e o meu pai atrás de mim de moto. Mais para a frente falo mais da minha mãe por causa do sofrimento. Enquanto o meu pai sofria mais para dentro e não mostrava tanto, a minha mãe mostrava sofrimento. O meu pai sempre teve uma ligação muito grande comigo. Lembro-me de ir para o Japão e quando cheguei a casa fui para a cama deles.

A igreja esteve sempre presente na sua vida desde pequena ou é uma coisa mais tardia?
Eu não sou doente pela igreja, porque eu nem vou à missa. Acredito nos meus santos, peço aos meus santos. Adorava e adoro Fátima, apesar de ir menos vezes agora. Enquanto atleta, era capaz de levantar-me de manhã e dizer vou a Fátima, e ia. Mas tenho muitas manias.

Por exemplo?
Vou a Fátima, mas a Nª Srª com que gosto de falar não é aquela que está cá em baixo na capela, o que gosto é de estar lá em cima, da Nª Srª de pedra na parte de cima. Tinha fé também na Santa Rita. Tenho as minhas crenças.

Foi a pé a Fátima depois da medalha?
Fui. Mas nem fui eu que fiz essa promessa. Quem faz essa promessa é o meu massagista e o meu treinador. Eu cumpro a promessa. E já fui outra vez, a pé. Acredito. Também tinha muita devoção pela Santa Rita e vinha a pé a Santa Rita. Ainda noutro dia me deu na cabeça e sai daqui do estádio da Maia e fui a pé à Santa Rita. É perto. Mas tem que ser eu a querer a ir e não por uma obrigação. Por exemplo, o tocar do sino de Fátima é totalmente diferente dos outros e gosto de estar lá a ouvir tocar o sino. Tenho coisas muito minhas. Quando vou a Fátima tenho de pôr uma vela do meu tamanho. Já aconteceu chegar lá estar tudo fechado e não consegui dormir porque tinha de lá ir pôr a vela. Mas são as coisas em que eu acredito porque eu quero. Nada por obrigação.

Tem mais algum tipo de superstição?
Não. A única coisa que fazia antes das provas era benzer-me. E tive uns sapatos vermelhos da Adidas, de que toda a gente fala. A primeira vez que os calcei fui correr à Bélgica e bati o recorde do mundo sem contar. Em 1995 ganho o mundial com esses sapatos. Fazia corta-matos com esses sapatos e comecei a ter uma ligação muito grande aos sapatos. Mas também porque eram os sapatos com que eu me dava bem por causa dos meus tendões de Aquiles. Ganhei quase tudo com esses sapatos. Atlanta também. Ainda os tenho.

Rui Duarte Silva

Depois dos JO de Atlanta o objetivo maior tornou-se a maratona?
A maratona não era um objetivo. Eu queria saber o que era uma maratona. Muita gente vai para a maratona, e muitas vezes até estragam as suas carreira, pelo dinheiro. É na maratona que se ganha mais dinheiro. Só vou para a maratona com mais de 30 anos. Eu tento uma em Londres e não consigo com problemas nos tendões. Acabo a carreira de seleção na minha última maratona, em Barcelona 2010, e faço-a por brincadeira. O Rui Pedro começa a treinar para a maratona e disse-lhe, eu tento ajudar-te no que eu puder e treino contigo. Comecei a treinar com ele e o João Campos diz-me "Já que estás a treinar, fazemos a maratona". Lesionei-me na maratona. Mais uma vez disseram que não tinha acontecido nada que fui eu que não aguentei, etc. E acabei a minha carreira.

Não falámos sobre a mudança de clubes. Há uma altura em que se zanga com o FCP.
Nunca me zanguei com o FCP. Eu não me entendi com o diretor do FCP, Fernando Oliveira. Ele vem para o FCP e se calhar até foi importante para a modalidade, mas também prejudicou em muitas coisas. Sempre defendi os atletas que lá estavam. Até que esse senhor um dia vem-me fazer uma proposta em que praticamente eu é que pagava para ficar no FCP. E fui embora para o Valença. Mas não tenho problema nenhum com o FCP.

Antes disso tem uma passagem pelo Maratona em 1993/94. Porquê?
Porque o FCP nessa altura não estava a apostar muito e também se calhar achavam que eu não ia dar o salto. Nessa altura tenho convites para sair do FCP e ir para outros clubes. Entretanto forma-se o Maratona da Maia e fico aqui dois anos. A primeira vez que sou campeã da Europa de 10.000m é pelo Maratona.

Porque é que foi para Espanha na segunda vez que sai do FCP?
Vou porque a minha empresária era espanhola, o Valência precisava de uma fundista e fui.

Ficou a viver em Espanha?
Tinha residência lá mas estava quase sempre cá, ia lá mais para competir. E como também já era quase fim de carreira, achei que não devia estar a apostar num clube português.

Teve ainda uma passagem pela política como vereadora da Câmara Municipal de Penafiel. Como surge isso?
Surge porque a direção que estava na Câmara, do PS, já lá estava há muitos anos. Eu tinha uma mágoa com a Câmara de Penafiel porque cheguei dos JO e tinham a porta da Câmara fechada, porque acharam que era mais importante as férias do que abrir uma porta a uma campeã olímpica. E dei a cara por uma mudança. Mas nunca pensando que ia entrar. Pedi para me colocarem no fim da lista. Eles puseram-me em 5º e entrei. Mas se calhar se fosse 6ª também entrava porque as pessoas tinham naquela altura uma ligação tão grande a mim, que entrava. Não tenho nenhum partido, nem vocação para política. A lista que ganhou era PSD/CDS e só passado muito tempo é que soube que entrei pelo CDS. E só soube por isto, para verem o quanto ligo à política, porque houve um jantar do PSD para o qual não fui convidada e depois houve um do CDS em que fui convidada e pensei, há qualquer coisa aqui que não bate certo [risos]. Foi assim que soube.

Saber que tinha entrado pelo CDS incomodou-a?
Não porque eu nunca estive como política. Estive em Penafiel e levei o meu ex-treinador como assessor porque não queria ser política. Muitas vezes olham a se a pessoa é do PS, se é do CDS, eu estive lá e nunca soube quem era do CDS, quem era do PSD ou outro. As pessoas chegavam à minha beira e "Nandinha isto, Nandinha aquilo" e nunca perguntei nada. Estive lá pelo desporto. Mas não é fácil para quem não é política e está lá por uma causa. É muito complicado. Estive lá os quatro anos e acabou.

Porquê?
Quando fui para lá era aquela coisa "mulheres no poder", mas depois quando lá estão, as coisas também mudam um bocado. E é o que eu digo, eu não me calo, aquilo que acho que não deve ser eu não faço, eu não vou por ameaças. Quando cheguei à Câmara de Penafiel havia clubes que tinham autocarro sempre e para mim não tinha lógica. E muitas vezes ameaçavam que iam para a imprensa, e eu dizia "Aquilo que eu mais estou habituada é à imprensa, tanto diz bem de mim como diz mal, por isso é mais uma". Acho que fizemos um bom trabalho. Penafiel não tinha um gabinete de desporto e eu criei-o. Penafiel tinha um pavilhão, que é o pavilhão Fernanda Ribeiro, e neste momento, apesar de terem sido construídos depois de sair, foi no meu mandato que andámos a ver as chamadas fábricas do desporto que são pavilhões que dão para treinar. Acho que fiz um bom trabalho, mas para o desporto.

Nunca teve vontade de se tornar treinadora?
Não. Não consigo.

Porquê?
Porque aquilo que eu sofri, eu não consigo passar aos outros. Eu era incapaz de estar a treinar e ver alguém a queixar-se dos tendões de Aquiles e mandar treinar. .

Tem algum sonho ainda por cumprir?
Não. tudo o que quis até agora tenho conseguido. Mas tenho alguns sonhos que se calhar sei que não consigo. Não na minha vida.

Por exemplo?
Tenho o sonho de ver o meu irmão andar, os médicos não dão quase esperanças nenhumas, mas é um sonho que tenho, que ele vai andar (emociona-se).

Consegue ter vida pessoal no meio de uma carreira tão intensa?
Eu tive uma vida pessoal, sempre tive. Nunca fui uma pessoa de noite, mas por opção, porque se calhar como fui muito cedo para o atletismo nunca fui daquelas pessoas de gostar de discotecas, etc. Depois tive o sonho de ser mãe quando tinha 20 e tal anos, depois esse sonho passou porque foi na altura que comecei com a minha carreira, vieram as medalhas, eu tive uma carreira muito longa a ganhar e isso passou. Também porque tive sempre crianças comigo. Os meus sobrinhos estiveram sempre comigo e continuam a estar. Tive uma relação de 12 anos com o Luís Sá. Depois terminou e agora, olha, vou andando [risos].

Tem algum hobby?
Não. Quando era atleta o hobby era dormir [risos]. Adorava dormir, todos os bocadinhos que podia lá estava eu a dormir ou a ler revistas. Agora não.

Ainda revê as imagens da conquista da medalha olímpica?
Estive uns 20 anos sem ver. E depois disso, de vez em quando, vou ver. Muitas vezes para me recordar das atletas, para ver os sítios que errei e os que não errei, a maneira como eu corria. Mas eu não vejo só a ponta final. Sempre que vou ver o vídeo tenho que ver a corrida toda. Do princípio ao fim.

O que sentiu ao ver a Mariana, filha da Albertina Machado, a bater o seu recorde dos 1500m?
Eu acho que nós já merecíamos ter atletas a bater recordes. Muitas vezes eu dizia isso até em relação aos miúdos. Eu sou campeã de nacional ainda de iniciados de 1500m, o que é muito mau. Porque vejo agora atletas seniores com 4:50 a dizer que é um bom resultado e eu tenho um recorde com 4:20 e tal. Eu fico contente, primeiro porque acho que a Mariana é uma miúda que é dedicada, a mãe foi uma pessoa também dedicada ao atletismo e acho que precisamos que se comece a bater os recordes. As medalhas ninguém me vai tirar, os recordes são para se bater.

Isso leva-nos à questão do estado do atletismo em Portugal.
Está mal.

Porquê?
Não sei. No nosso tempo, se calhar por mais dificuldades, as pessoas dedicavam-se mais às coisas, agora as coisas se calhar também caem muito de mão beijada. Eu para ter um contrato com uma marca desportiva, tive que ir a campeonatos. Neste momento havendo um atleta que acham que pode ser mais ou menos tem logo um contrato. E depois também vejo muitas coisas erradas. Enquanto comigo muitas vezes me diziam: "Vai morrer porque treinou muito" e eu sabia que não treinava, há alturas que eu vejo miúdos a treinar muito. E depois, muitas vezes chega-se a júnior ou juvenil e não se passa dali. Estamos bem no atletismo no geral, nos saltos, no meio fundo... Mas tivemos um campeonato da Europa onde não tivemos praticamente fundistas. Na maratona não tivemos ninguém. Nos 10.000m antigamente ficava gente de fora e as marcas eram muito difíceis de fazer, neste momento não temos ninguém. Quem é que nós temos?

A Fernanda esteve na FPA...
Quatro anos. Entrei com o Jorge Vieira, o atual presidente, e saí. Porque eu estou num sítio se for para fazer mudança, se não for, não estou. Por isso só estive no primeiro mandato. Sou daquelas que reclamo por tudo [risos], as pessoas acham muitas vezes que tenho que ver as coisas como diretora, por exemplo, mas eu não me vejo como diretora, vejo-me como atleta. Eu é assim: não faz mínimo, não vai. Ou vai um ou não vai ninguém. Se houver um controlo antidoping positivo tanto tem que pagar o campeão olímpico como o atleta da esquina. Tem que ser tudo igual. E isso muitas vezes é complicado.

Mas as grandes diferenças salariais que havia entre homens e mulheres, isso melhorou ou não?
Isso sim. Melhorou em termos de prémios. Mas antes era uma diferença muito grande de dinheiro. Quando fui convidada pelo prof. Moniz Pereira para ir para o Sporting, como medalhada, supostamente ia ganhar menos do que um atleta masculino não medalhado. E eu fazia 800m, 1500m, 3000m, 10.000m. As provas todas que eles precisassem. Ainda noutro dia um policia mandou-me parar e às tantas disse-me "Estive a falar com atletas e disseram-me que no seu tempo e no da Manuela vocês ganharam muitas medalhas porque não havia negrinhas". “Como é que não havia negrinhas? Havia, e havia chinesas e havia brancas. Porque sou do tempo de uma Radcliffe, de uma O’Sullivan, de uma Szabo. Fui campeão olímpica, a segunda foi uma chinesa e a terceira uma etíope. Fui medalha de bronze em Sidney e as duas da frente eram negrinhas. Então?” Tenho um tempo de 30:22 e agora veja com que tempo se ganha uma medalha. Num europeu pode ganhar-se uma medalha com 31:50. Antigamente com 31:50 nós não íamos a uma final. E agora toda a gente queixa-se de falta de apoio. Só se for os segundos e terceiros planos, porque os atletas de primeiro plano não vejo que tenham falta de apoio.

A exposição pública incomoda-a?
Agora já me vou habituando, mas antigamente incomodava, não me sentia bem. Sentia-me envergonhada, sempre que falavam comigo eu ficava vermelha. Agora já consigo lidar. As pessoas muitas vezes achavam que eu era antipática, fria, mas era porque não me sentia bem.

Qual foi o pior que ouviu de si?
Ouvi tanta coisa. Muitas vezes nem são as coisas que nos dizem frente a frente, porque aí eu defendo-me, o que magoa mais são as pessoas que nós até achamos que são nossas amigas e que depois vão falar. Mas não tenho assim nada que me tenha deitado mesmo, mesmo abaixo. Fui sabendo lidar. As pessoas falavam muito de doping, quando conseguia algum objetivo falavam muito do doping... Enfim.

Teve muitas desilusões na vida?
Na minha carreira sim. Mas fui conseguindo vencer.

Hoje sente-se uma mulher realizada.
Sim. Realizada mas muitas vezes... Nem é triste... Porque damos tudo e depois as pessoas desiludem-nos. Sou muito aquela pessoa de dar.

Ainda é muito reconhecida na rua?
Sou. Sou reconhecida pelas pessoas mais velhas e mais ou menos da minha idade. Começo a ver que nas escolas há um trabalho por parte dos professores no sentido delas irem ver quem eu fui. Mas não sou aquela pessoa que me mostro. Eu fui uma vez com a Aurora Cunha a Lisboa. E ela dizia: "Eu sou mesmo conhecida". Mas ela era conhecida porque era ela que se mostrava aos outros, passar e "Olá, como está, bom dia". Eu não consigo ser assim. Eu passo, se a pessoa olhar para mim eu até digo bom dia ou boa tarde, mas senão também passo no meu cantinho e não digo nada. Há uns anos fui a um jantar onde aparece o José Sócrates. Eu não o cumprimentei. Mas não foi por nada em especial. Eu já lá estava quando ele chegou e toda a gente se levantou e dizia "Ah vamos falar". E eu disse "Não vou. Ele para mim é igual às outras pessoas". Eu sei que perco, muito, por ser assim, mas não tenho jeito para limpar gravatas. E deito-me e sinto-me bem com aquilo que sou. Não consigo chegar à beira de um político e dar-lhe "graxa". Não consigo. Metade daquilo que vejo é graxa, não é puro. Muitas vezes vão cumprimentar porque têm um interesse, porque é político. Porque se ele para o ano já não for político, já não lhe falam [risos]. Por exemplo, eu tenho uma relação enorme com o Pinto da Costa porque já são 20 anos de conhecimento. Sou madrinha de uma casa do FCP na Trofa e, um dia, eu já estava lá, ele entrou e eu fiquei no meu cantinho. Toda a gente atrás do homem, eu fui incapaz de ir ter com ele. Por acaso ele depois mandou chamar por mim. Mas se ele não viesse ter comigo eu respeitava na mesma.

Qual é a atleta ou o atleta que mais admira ou admirou até hoje?
Todos. Nunca tive ídolos. Tenho respeito por todos. Mesmo as pessoas achando que eu e a Rosa Mota não nos entendemos, eu como atleta tenho muito respeito por ela. Houve uma altura em que um jornalista foi a minha casa e ficou muito espantado porque tinha um quadro meu onde estava a Rosa Mota e o Carlos Lopes e ele achou muito estranho eu ter a Rosa Mota num quadro em casa. Para mim a Rosa foi uma grande atleta e eu vou respeitá-la sempre como atleta. E se fez parte porque é que não devia estar no meu quadro? Se calhar se fosse ao contrário ela não punha, mas eu respeito-a. Eu nunca a vi numa entrevista a falar de mim, mas eu falo dela porque ela foi uma grande atleta, fez parte da minha história. Eu conheci a Rosa quando era eu muito miúda e não era esta Rosa, eu conheci uma Rosa diferente, que não estava ainda com o Pedrosa. E fico por aqui.