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Sousa Cintra: “Em três meses não fiz outra coisa. Só faltou trazer para aqui a cama. Abandonei a minha vida toda pelo serviço ao Sporting”

Presidente do Sporting entre 1989 e 1995, José de Sousa Cintra aceitou, aos 73 anos, a missão de voltar a Alvalade, como parte da Comissão de Gestão que assumiu os destinos do clube após a saída de Bruno de Carvalho. Este sábado há eleições e, apesar do turbilhão que se tornou a sua vida nos últimos meses, diz à Tribuna Expresso sai com a sensação de ter arrumado a casa (Nota: esta é a primeira de duas partes da entrevista a Sousa Cintra; domingo será publicada a segunda parte, mais focada na vida pessoal e profissional do empresário)

Ana Brigida

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A poucas horas de deixar a presidência da SAD do Sporting, sai com a sensação de dever cumprido?
Dever cumprido e satisfeito com o trabalho desenvolvido. Quando chegámos a situação era caótica. Nunca imaginei na vida encontrar o Sporting da forma que estava a ser gerido. Ver o clube do meu coração, que tem 112 anos, a cair a pique, a debandada dos jogadores... Quando o presidente da Mesa da Assembleia Geral me convidou, eu disse: ‘Eh pá, não vou, não tenho tempo.’ E é verdade, não tinha muito tempo. Mas, perante a situação, o coração e o amor ao clube bateram mais forte e decidi agarrar nisto.

O que lhe disse Jaime Marta Soares que o fez avançar?
Ele falou com várias pessoas, mas não houve ninguém com coragem. Comigo ele insistiu e eu assumi. E saio de consciência tranquila. Conseguimos recuperar a credibilidade do clube em todas as frentes, o Sporting voltou a ser o Sporting que sempre foi, que honra os seus compromissos, um clube do qual os adeptos se orgulham. Saio com tudo estabilizado, com a união dos sportinguistas, isso era o mais importante. E saímos daqui em 1º lugar no campeonato. Quem andava a dizer que o Sporting ia acabar, que o Sporting nem daqui a 10 anos ia conseguir recuperar... isso é que me chocava e me doía no coração. Mas nada disso aconteceu: o Sporting conseguiu recuperar-se em tempo recorde e tem uma equipa para lutar pelo título este ano. Melhor não podia ser.

Como é que convenceu alguns dos jogadores que haviam rescindido a voltar ao Sporting?
Com conversa verdadeira, dizendo-lhes que o Sporting não é um clube qualquer, tem o seu passado e história, um clube com uma força enormíssima. Eu tinha de explicar-lhes isso, que o clube estava recuperado e que as coisas iam entrar no bom caminho.

Falou com eles pessoalmente?
Claro, tinha de falar, isto não pode ser por telefone. Pedi a sua compreensão. O que se passou foi um acidente, algo que não devia ter acontecido.

Qual foi o caso mais complicado? Bas Dost?
O caso do Bas Dost é importante porque é um dos melhores goleadores da Europa e um goleador daqueles não aparece todos os dias. É um jogador fantástico e um rapaz encantador, simpático, uma pessoa cheia de alegria, de entusiasmo. E gosta do Sporting, gosta de Portugal. O medo dele era a questão da segurança, ele vivia atrapalhado com isso. Tive de o convencer que o Sporting lhe dava toda a tranquilidade, toda a segurança, para ele e para a família. Foi importante ultrapassar isso, esse medo de que pudesse acontecer mais alguma coisa. Demorou algum tempo.

Os jogadores impuseram como condição o não-regresso de Bruno de Carvalho?
Não havia nada que impor, mas eles perguntavam se ele podia regressar. Os estatutos estavam claros: quando há uma AG em que 71% dos sócios não quer o presidente no clube isso é um dado fortíssimo para que eles tenham alguma tranquilidade. Entretanto também fiz outras mudanças, mesmo na academia. No chão dos balneários pus uma coisa a lembrar relva, mais gira. Também mudei as paredes. Um cenário diferente para eles não se lembrarem daqueles momentos. Foi bom eles terem regressado, porque são jogadores que fazem a diferença. O Sporting tem um plantel forte. Eu sou um bocado suspeito, porque sou um otimista, mas a minha convicção, mesmo de coração, é que o Sporting este ano vai ser campeão.

A situação que encontrou no Sporting era pior do que a de 1989?
Em 1989, quando cheguei para o meu primeiro mandato, a situação era muito pior que esta. Não se pagava aos jogadores e ao pessoal há sete meses. Pagámos a toda a gente e fiz isso por amor ao clube.

Teve de meter dinheiro seu?
Meti muito dinheiro do meu bolso. Tive de meter, então, ninguém emprestava dinheiro ao Sporting!

E havia algum buraco financeiro agora?
Todos os clubes têm problemas de tesouraria. Vivem dos jogadores que vendem, das receitas das televisões e dos empréstimos obrigacionistas. Quando se perde a credibilidade é que é um problema. Para se fazer um empréstimo obrigacionista é importante ver quem está no clube, qual é a situação.

O processo do empréstimo obrigacionista já está adiantado para a próxima direção?
A próxima direção vai encontrar um clube completamente arrumado. O empréstimo está pronto e a próxima direção fá-lo-á com os valores que entender. Não nos preocupámos só com o momento, também com o futuro.

De todos os candidatos, quem lhe parece ter mais condições?
Todos os candidatos são grandes sportinguistas. Não fui apoiante de nenhum em particular, nem me meti na campanha. Quem vencer terá de tratar da questão do empréstimo e também dos jogadores que rescindiram, o Rui Patrício, o Gelson Martins... eu acho que mesmo que se vá lá por acordos o Sporting pode receber à volta de €100 milhões, mas vai depender das negociações. Ainda comecei essas negociações, mas achei por bem que fosse a próxima direção a decidir isso.

Ana Brigida

Não pensou candidatar-se?
Já tenho 73 anos, tenho os meus negócios. Estes três meses eu não fiz outra coisa. Não se passou um sábado ou um domingo que não estivesse aqui em Alvalade. Cheguei a estar aqui sozinho. Só me faltou trazer para aqui a cama! Saí daqui à uma, duas da manhã... às quatro! Abandonei a minha vida toda pelo serviço ao Sporting. Não fui à praia, a minha mulher tem toda a razão para se chatear, mas foi isso mesmo que eu fiz.

Em 1989 também tinha negócios.
Mas foi há tantos anos, era mais jovem. Com esta idade continuar no Sporting... É preciso deixar vir gente nova e sempre que precisarem de mim, estarei ao dispor. Tivemos de arrumar a casa, encontrei aí coisas muito desagradáveis, como na academia, por exemplo. Tive de fazer mudanças drásticas. Muitos jogadores com valor estavam a sair para outros clubes.

Porque não estavam a ser bem preparados?
Sim. E porque se perderam os valores que fizeram da nossa academia a melhor do mundo, estava-se a perder o amor ao clube. Mudei a estrutura, chamei o Mário Jorge, que tinha sido jogador do Sporting no meu tempo, que era um líder e que está bem entrosado nesta área.

Esse amor ao clube que se perdeu foi decisivo nos jogadores que não quiseram voltar? Como Rafael Leão?
Nem vale a pena falar disso, foi uma tristeza muito grande. Preocupei-me tanto com essa situação, mas quer o empresário, quer o pai... foi muito desagradável. Ali não houve amor nenhum ao clube, foi dinheiro.

Em relação aos que ficaram, também teve de abrir os cordões à bolsa?
Não se pode abrir os cordões à bolsa porque não há dinheiro para isso! Houve alguns ajustes, mas não foi muita coisa. Tal como tivemos de fazer agora com o Jovane, que ganhava muito pouco, 2 mil euros. Até me sentia mal a ver um jogador que estava a dar nas vistas a ganhar uma ninharia.

E Bruno de Carvalho continua a ser uma sombra?
A mim não me chateia nada, é assunto encerrado, faz parte do passado. O que importa agora é o futuro.

Quanto ao treinador: Peseiro não foi a sua primeira opção.
Quando cheguei ainda falei com o Jorge Jesus para ele completar o trabalho dele. Mas ele é uma pessoa de palavra, já tinha assinado pelos árabes. Depois disso ainda falei com o Paul Le Guen, que foi campeão em França e que estava totalmente disponível.

A hipótese Le Guen não se concretizou porquê?
Comecei a olhar para os portugueses e achei que o Peseiro era a pessoa certa. Foi uma escolha pessoal. Eu sei que não agradou a muita gente mas a mim pouco me importa. O Peseiro é uma pessoa simpática no trato e os jogadores, que tinham sofrido aquele ataque feroz, tinham de ter um treinador agradável para falar com eles, com tolerância e compreensão. E que falasse português, era importante. Tinha também de ter provas dadas. O Peseiro já tinha estado no Sporting e levou-nos à final da Taça UEFA, não é brincadeira nenhuma. Perdemos o campeonato no último jogo. Uns disseram ‘ah, tem o pé-frio’. Se é frio ou quente... o que interessa é que agora quer ganhar. E tem um vencimento muito acessível, que era importante, porque estávamos a pagar uma fortuna a um treinador.

Ele aceitou logo?
Aceitou. Tivemos de explicar que não podíamos pagar grandes ordenados porque estávamos a apertar o cinto. Acho que foi uma aposta certa: estamos em 1º lugar e ainda nem sequer jogaram os grandes craques que comprei. O Diaby... vocês vão ver. Dizem que é dos jogadores mais rápidos que andam aí. É um espetáculo! E o Gudelj é outro jogador de seleção. Não precisamos de comprar em grande quantidade, podia ter chegado mais um ou outro, mas também não quisemos comprar por comprar, como no passado. Isso não acontece comigo: quem chegar é para jogar. E fiz uma coisa inacreditável, mesmo no fecho do mercado. Vejam lá que mandei embora, emprestados ou em definitivo, 42 jogadores.

42?
Sim, 42. É muita coisa. Mas admite-se lá que se tenha comprado tantos jogadores? Gastar dinheiro para quê?

E quanto aos empresários, viu uma diferença grande entre 1989 e agora?
Estão com mais requinte e exigências. Há vários tipo de empresários: há aqueles com quem se pode dialogar, pessoas honestas e sérias. E há outros que só veem dinheiro pela frente. O caso do Rafael Leão: há algum clube no Mundo que lhe desse um futuro melhor do que o Sporting? Não há. Ele podia ter saído daqui para o Barcelona, Real Madrid, Man. City, mas o empresário quis destruir a vida do miúdo, que foi naquelas conversas e acabou no Lille. Esse empresário do Rafael Leão, o Nélson Almeida, tem de ter cartão vermelho aqui no Sporting.

Quando chegou, o Sporting tinha um treinador contratado, Sinisa Mihajlovic, e uma das primeiras decisões foi rescindir o seu contrato. Não era o treinador que via para o Sporting ou a questão financeira pesou?
As duas coisas. Então saíram nove jogadores e temos um treinador estrangeiro, que não fala português, a lidar com estes problemas? Depois tinha um ordenado maluco, louco. Como é possível pagar aquele ordenado a um treinador que nunca tinha ganho nada na vida?

Mihajlovic avançou para a justiça?
Vi na comunicação social que tinha posto uma ação contra o clube. Até hoje não tenho conhecimento de nada.

Como comenta a acusação do Benfica no caso E-Toupeira?
Tenho que lamentar esses casos. A imagem do futebol português no estrangeiro é muito grande. Os nossos jogadores e treinadores têm muito prestígio e os clubes também deviam ter esse mesmo comportamento. Todos os dirigentes devem estar unidos num objetivo: defender os seus clubes, como lhes compete, mas defender a verdade desportiva. No meu tempo, lembro-me perfeitamente, o Sporting tinha a melhor equipa de Portugal e não ganhava. E não ganhava porquê? Porque não havia verdade desportiva, aquilo era uma vergonha o que se passava. Eu irritei-me muitas vezes, perdi a cabeça, disse coisas horríveis e nem castigo apanhava porque era tudo verdade!