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Sousa Cintra: “Vou lançar um produto natural para emagrecer. Vai ser uma revolução e um sucesso. Talvez o meu último negócio”

Na segunda parte da entrevista, José Sousa Cintra fala do seu passado, explica como começou a ganhar dinheiro, por que razão comprou um avião e um iate e revela como acabou por matar um leão, para ficar com os " big five" no currículo de caçador: "Toda a gente diz que o leão é o rei da selva, mas não, o rei é mesmo o elefante". No seu jeito peculiar e bem-humorado, recorda as tentativas de rapto de que foi alvo no Brasil e lembra ainda alguns dos negócios que fez enquanto presidente do Sporting, na década de 80. Mas há mais: vem aí um novo negócio que diz que vai ser "uma revolução"

Ana Brigida

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Nasceu no Algarve, numa aldeia, de onde depressa quis sair.
Nasci na aldeia de Raposeira, no concelho de Vila do Bispo. Os meus pais eram gente do campo, da agricultura. Sou o filho do meio, tenho mais dois irmãos e a escola não era para mim. Só fiz a 4ª classe. Comecei a trabalhar muito novo, em miúdo. Sempre fui um trabalhador incansável, daqueles miúdos que nascem logo para trabalhar.

Qual foi a primeira coisa que fez para ganhar dinheiro?
Sei lá, fiz tantas coisas. Eu ganhava dinheiro de qualquer maneira.

Vendeu caracóis...
Caracóis, e não só, era o que havia, eu tinha era de trabalhar. Depois estive na Câmara também como paquete. Fiz tanta coisa. Aos 15 anos vim para Lisboa, para o hotel Tivoli. Fui ascensorista. Foi uma honra grande ter lá trabalhado. Eu era um miúdo e os meus colegas do hotel eram indivíduos já casados, com filhos.

Ficou a viver onde?
Tinha uns primos na Cova da Piedade, onde fiquei uns dias. Depois aluguei um quarto, depois outro e por aí fora, é a vida. Comecei a vida assim e orgulho-me muito do meu passado.

Quando é que começa a ganhar dinheiro mais a sério?
Conheci gente muito importante no Tivoli e que no futuro me ajudaram bastante. Conheci gente de todas as categorias sociais. Eu começo logo a ganhar muito dinheiro logo no hotel. Aí ganhava muita massa.

Mas não era como ascensorista.
Ascensorista foi o trampolim. Embora fosse ascensorista, quando acabava o meu trabalho eu ficava lá no hotel, não ia logo para casa, porque eu gostava de trabalhar. Na altura havia o hotel Aviz, que hoje é o Sheraton, e o Gulbenkian estava lá. A correspondência do Tivoli era eu que a ia lá levar, sempre ganhava umas gratificações. No Tivoli havia aquela tabacaria onde punham aguarelas para vender e de miúdo comecei a conhecer os artistas que lá iam. Até que comecei a fazer pessoalmente o negócio com eles. Nem podem imaginar o que eu ganhava. Não lhes passa pela cabeça. Os artistas entregavam-me as aguarelas. Se comprava a 10, vendia a 30, 50 ou 100 de acordo com as oportunidades [risos]. Era mesmo assim.

Vendia a quem?
A estrangeiros e portugueses. Pegava num colega meu e em meia dúzia de aguarelas e íamos para um esplanada. Começava a mostrar-lhe as aguarelas e naturalmente as pessoas começavam a olhar e eu ia ter com elas: "Quer ver?" E acaba por vendê-las [risos].

Ana Maria Baião Correia

É um vendedor nato então.
Um vendedor nato, sim [risos]. Nem pode imaginar o dinheiro que fiz. Depois eu tinha o sonho de ir para a América. Estava doido para ir para os EUA.

Porquê? De onde nasce essa vontade da América?
Não sei. Nunca lá tinha ido. Não sei explicar porquê. Conheci os Bensaúde, que eram dos Açores e tinham navios de mercadorias e pedi-lhes para me levarem para a América. Só que o meu pai tinha de vir aqui à embaixada para me autorizar a ir para o EUA porque eu era menor. Mas o meu pai não foi na conversa, não quis sair da aldeia para vir cá responsabilizar-se e eu poder tirar o passaporte. Outra solução era tirar a cédula para ir nos navios. E quando fui falar ao Porto de Lisboa, diz-me o capitão: "Vou dar-te um conselho, tu tens 15 anos, vais fazer 16, vai para a Marinha. Vai a Vila Franca e dá-te como voluntário. Aos 20 anos ficas livre e já nem vais à tropa". Perante a situação, convenceu-me. Fui a Vila Franca, à inspeção, e tive de telefonar para o hotel a dizer que já não ia trabalhar. Os gajos do hotel Tivoli ficaram admirados [risos]. "O quê? Para a Marinha?". Ninguém sabia o que se passava. No dia anterior eu tinha ido trabalhar normalmente [risos]. Lá expliquei muito rápido aos donos do hotel o que se passava, eles como gostavam muito de mim, disseram que podia comer no hotel e voltar para lá. Tinham grande consideração por mim, sabem porquê? Porque gostava de trabalhar. Se eu passasse num corredor à noite e visse um papel ou uma beata no chão, eu apanhava. Fazia aquilo sem precisar que me mandassem e não precisava que ninguém visse, fazia aquilo com gosto, porque eu servia o melhor que podia. Interessava-me. Estava ali a ganhar o meu dinheiro, fazia o melhor, dentro daquilo que eu pudesse fazer, fazia. E a verdade é que eles tinham grande estima por mim. Foram muito simpáticos.

Esteve quatro anos na Marinha.
Sim, fui para as Comunicações. Fazia um serviço um dia, descansava dois. Dava para ganhar dinheiro, porque fazia estes meus negócios todos de que falei há bocado, das Artes, nas folgas. Depois fui para Sagres passar um tempo. Aquilo para mim era uma brincadeira. Como eu estava com atenção nas aulas, passava sempre a tudo. Nunca entrei dentro de um navio, a não ser para visitar amigos. Nunca andei no mar [risos]. Nunca fiz uma guarda. A Marinha tem essa particularidade, ali são todos iguais, não interessa se tem o curso superior ou não. Ora, nessas condições, eu batia-me com eles todos. Do meu tempo todos os meus colegas formaram-se, tornaram-se oficiais, comandantes, mas eu nunca quis seguir a carreira militar. Estava atento o suficiente nas aulas para manter-me sem "chumbos" e não perder as benesses que tinha, por isso nunca fiz uma guarda nem nada. O meu pai queria que eu ficasse com o braço amarelo, queria que eu fosse oficial ou uma coisa qualquer e eu não queria. No dia em que fiz quatro anos, saí nesse dia. Antes disso, estava ainda aqui no ministério em Lisboa e já eu vinha com meu boca de sapo, um miúdo, e entrava ali… [risos]

Já tinha carta de condução?
Conduzi anos sem carta de condução [risos]. Tive 10 vezes os papéis para ir a exame. No dia do exame se tinha qualquer coisa para fazer, já não ia. Depois tinha de ir outra vez. Ao fim de três anos lá fui fazer o exame e passei.

Aqueles dois dias de folga serviam para fazer os seus negócios.
É verdade. Depois entrei no negócio imobiliário, no negócio da indústria e por aí fora.

Como é que entrou no negócio do imobiliário?
Entrei rápido, ainda estava na Marinha quando comecei.

Começou como?
Conheci pessoas do negócio imobiliário, vi o que estavam a fazer e não é preciso ver muito para poder fazer igual ou parecido. Claro que cada um entra na dimensão que pode. Naquela altura era uma coisinha pequenina e depois disparei.

Vendia apartamentos, terrenos?
Nessa altura era mais terrenos, mais tarde foram apartamentos e urbanizações, etc. Mas os meus primeiros negócios a ganhar dinheiro, foi com a arte. Aí ganhei muito dinheiro. Depois entrei no imobiliário, depois nas águas, sumos, cerveja e por aí fora. E atualmente tenho os meus negócios no petróleo, que estão lá nos EUA, no Texas.

Em Portugal preparava-se para a exploração de petróleo em Aljezur, mas ficou tudo parado.
Espero um dia voltar. Em Portugal há coisas que não se compreendem. Estou convencido de que tenho a maior reserva de petróleo da Europa. Fizeram muitas pesquisas aqui em Portugal e nunca conseguiram nada. Vieram cá estrangeiros, várias empresas de vários países, nunca ninguém tinha feito uma aposta no Algarve e eu fiz essa aposta. Conheci e conheço algumas pessoas do mundo do petróleo, do melhor que há, e foram uma ajuda boa. O que se passou é que na altura apareceu uma fulana a dizer que o gado ia morrer, que as pessoas iam ficar doentes, isto e aquilo, que o turismo ia acabar e o presidente da Câmara de Aljezur, que depois foi demitido por incompetência, deu voz aquilo e fez-se um alarido enorme. Levantaram-me uma série de problemas, mas não foi só comigo foi com os outros, com empresas grandes como a Eni, a Galp, que estão no Algarve a fazer exploração de petróleo em terra. Foi uma novela que levou a que se parasse com aquilo. Foi uma barbaridade que fizeram a Portugal.

Porquê?
Ninguém contou isso como devia ser contado. A exploração do petróleo não tem nada a ver com o turismo. Se verificarem, o Brasil, o México, os EUA, o Dubai, Cuba todos têm turismo. Esses países de maior turismo vivem do petróleo. Mas as pessoas foram atrás da cantiga de que ia prejudicar o turismo. Só prejudicaram foi a economia e o emprego do nosso país. A maior receita que Portugal tem é da exportação da gasolina que é refinada em Sines e a fatura a pagar é exatamente do petróleo que importa. Ora se tivesse a matéria prima em Portugal já viram o que isso representava? Claro que me chateei com esta brincadeira toda e defendi-me. Agora está a correr em tribunal. Espero que um dia haja gente esclarecida que dê continuidade a isto. Eu mesmo quero continuar porque é muito importante para o país e não conseguem provar o contrário.

Na altura do 25 de abril estava no seu auge dos negócios imobilários...
Estava com uma pujança grande. E só em Setúbal expropriaram-me 5000 fogos. Sou dos indivíduos mais expropriados em Portugal. Mas a vida é isto. Nunca ninguém me ouviu a lamentar. Não gosto de lamentações. A vida correu mal, mas vai continuar. Toda a gente queria o 25 de abril. Eu era um jovem de 29 anos. E o 25 de abril veio dar uma nova aragem e força ao país. O nosso país estava atrofiado, parado, amorfo. Como era possível que, para irmos para Angola, era preciso uma carta de chamada? Havia coisas inacreditáveis. Portanto a juventude queria a mudança, queria liberdade, toda a malta nova, que era o meu caso. Acho que o 25 de abril foi aceite por 99% dos portugueses. Só que essa mudança nem sempre correu bem, em várias frentes. E aí quando aquilo começou a correr mal os empresários foram todos embora deste país. E eu também, porque nessa altura já era um empresário forte.

Ana Brigida

Aos 29 anos já tinha um avião e tudo. Por que é que compra um avião?
Fazia-me falta. Eu ia daqui para Trás-os-Montes e demorava cinco ou sete horas de carro. Ainda estive para tirar brevê, mas nos exames médicos viram uma coisa qualquer na cabeça, mas que não era nada, e acabei por não tirar. Tive vários pilotos e não havia problemas. Eu tinha uma vida do caraças.

Foi para o Brasil e regressa quanto tempo depois?
Estive no Brasil uns tempos até que foram lá os militares pedir para voltarmos. Na altura o nosso primeiro-ministro, Mário Soares, pediu para os empresários voltarem para Portugal. E voltaram quase todos. A vida é feita destas coisas. Deixei o Brasil mas fiquei com raízes lá. Algumas pessoas que tinha conhecido no hotel Tivoli ajudaram-me no Brasil. Costumo dizer que na vida há uma coisa que devemos pedir, saúde, porque é a coisa mais importante que temos. Se pedirmos a Deus, que seja saúde. Depois da saúde, amigos. E atrás disso é que vem o dinheiro, porque ajuda qualquer coisa.

Quem são os seus amigos mais chegados?
Tenho muitos amigos, em várias áreas. Na área dos negócios, na área de outras atividades, como caçador, por exemplo.

Mas aqueles amigos ou amigo que seja o confidente e a quem recorre mais?
Eu não sou assim grande confidente. A minha vida é tão transparente, tão clara, toda a gente sabe a minha vida que não vale a pena estar a falar que todos me conhecem. O nosso Portugal é um quintalzinho.

Como é que nasce o gosto pela caça?
Vem de miúdo, da aldeia. Era criança, via os caçadores, ia com eles. É assim que começam as coisas. Eles iam matar rolas e eu ia apanhá-las. É um desporto como outro qualquer. Tenho caçado no mundo inteiro. Gosto muito de caçar em África, na Tanzânia e em Moçambique. Tenho caçado na África toda, na Europa, na América.

Qual foi o troféu que mais gozo lhe deu caçar?
Talvez o elefante. Toda a gente diz que o leão é o rei da selva, mas não, o rei é mesmo o elefante. O rinoceronte também é um bicho... Você não pode falhar um tiro num rinoceronte ou num leão, num búfalo ou elefante porque são animais que fazem carga e corre o risco de ser apanhado.

Não sente pena dos animais?
Sim, está bem. Eu até não gosto de falar disso da caça porque há certos países onde não se pode falar em caça. Por exemplo, no Brasil, há uma lei complicada porque um indivíduo se matar uma pessoa pode não ser preso, agora se matar um bicho qualquer não tem fiança sequer.

Não lhe faz confusão tirar a vida a animais?
A caça é mais o convívio que temos uns com os outros. Eu não tenho a ganância de matar. Sobretudo é preservar as espécies e as quantidades que devem existir. Só faço caça controlada. Num couto em que temos perdizes, coelhos ou lebres, o que for, se for uma coisa controlada você pode dizer “Aqui não se pode atirar” ou “Só se pode atirar a uma peça”, para manter o equilíbrio. E tem de dar dinheiro para se pôr lá comida, água para os animais, para garantir o equilíbrio. Eu gosto da caça pelo convívio, nós não somos matadores, aquilo é o desporto em si, a pessoa vai e está ali animado com os amigos, com uns petiscos e passa um dia agradável. Muitas vezes vou e venho tranquilo, sem nada, basta estar só em contacto com a natureza, que é uma coisa importante. A maior parte das pessoas, e caminha-se cada vez mais para isso, vão pelo contacto com a natureza, pelo desporto, pelo convívio com os amigos, faz-se umas almoçaradas, são momentos importantes. E a caça faz-se quando se tem que fazer. Por exemplo, os javalis, que é uma caça que eu gosto muito, o governo tem mesmo de dar ordem para abater javalis senão eles dão cabo das colheitas. Vejam o caso da Arrábida, é um perigo enorme, já se vê javalis na praia. Aí os caçadores têm que funcionar. Lá está, manter as espécies, mais controlado. Dentro de normas e respeito pela caça.

Ana Maria Baião Correia

Já caçou leões?
Já cacei um leão. Foi a coisa mais difícil que eu tive para caçar. Porque eu nunca queria caçar o leão. Só me faltava o leão para ter os cinco grandes (leão, leopardo, rinoceronte, búfalo e elefante). Mas o leão eu não queria matar. Nunca tive férias na minha vida, mas os dias mais livres eu passava em África e quero lá voltar. Comprava o pacote, que era caríssimo, fazia as outras espécies, a caça normal e o leão não. Os guias perguntavam-me porque é que eu não matava o leão. Comecei a caçar com 15 anos e nunca tive interrupção na minha vida, sou um caçador antigo, mas tenho coutos onde não dou um tiro e no entanto estou lá a tratar do couto. Porquê? Porque é preciso repovoar, por exemplo. E um belo dia, lá em África, era de noite, estávamos à volta da fogueira onde ficávamos na conversa a tomar um gin ou outra bebida, a contar histórias, e o guia começou a dizer: "Não consigo entender, você tem os bichos todos, falta-lhe o leão. Não consigo entender, você gasta dinheiro..." E a minha mulher estava comigo, eu levava-a para a caça, parecendo que não é uma forma de passarmos férias juntos, e ela também começou a dizer, "Realmente é incompreensível, pensando bem, se tens essa mentalidade nunca vais ficar com os cinco maiores bichos". Aquela conversa deixou-me a pensar e a verdade é que eu às tantas disse para o guia: "Está bem. Prepare a isca". E assim aconteceu. Tenho esse leão.

Tem três casamentos, um filho, o Miguel, que tem agora 49 anos. O maior susto da sua vida foi o rapto dele?
Está a ver o que é um pai ver o filho raptado? É um susto grande. Nunca se sabe o que acontece. Mas a nossa polícia é muito boa. Na altura ele pagou uma fortuna.

60 mil contos (300 mil euros), não foi?
Sim. E agora apanhar as pessoas? Como era possível? Quem eram, como é que eram? Mas eu tenho de prestar homenagem à PJ, temos a melhor polícia do mundo, encontraram-nos e eles apanharam 19 anos de prisão.

E o dinheiro?
Todo recuperado. O dinheiro ainda tinha as cintas do banco.

Quem pagou o resgate?
Foi o meu filho. Eu estava no Brasil na altura. Depois vim para cá, mas o meu filho já estava solto, porque foi tudo rápido.

É verdade que o Sousa Cintra também foi quase raptado, no Brasil?
Várias vezes, não foi só uma [risos]. Mas isso no Brasil é o prato do dia. Estive duas vezes para ser raptado. No campo das cervejas o único tipo que não foi raptado fui eu.

Andava com seguranças?
Às vezes a segurança prejudica, dá muito nas vistas.

O que aconteceu consigo?
Uma vez entraram em minha casa. E eu estava em casa. No Brasil, o negócio com os supermercados na área das cervejas é importantíssimo, porque compram camiões e camiões. Então os diretores dos grupos de supermercados, ao fim de semana combinam churrascos com este e com aquele. E é nesses momentos que às vezes se fazem os bons negócios: "Eh pá, preciso que me compres 10 camiões esta semana porque tenho um stock grande" ou " Preciso de não sei o quê". E é ali com o churrasco e depois uma cartada que se faz o negócio. Lá os portugueses dominam bem essa área. E eu também tinha, ao pé de São Paulo, a minha casa com churrasco e essas coisas todas para recebê-los como devia ser. Quando fui para aquela casa, que tinha cinco quartos, não sei porquê escolhi o quarto que ficava ao lado da cozinha. Não escolhi o melhor quarto, escolhi aquele, não sei porquê, há coisas na vida que não dá para entender. E vejam bem a minha sorte. Tenho uns amigos de Portugal que vão visitar-me e deixaram os passaportes deles em cima de uma mesa grande que tenho no hall de entrada. Os raptores quando entraram viram os passaportes, o meu obviamente não estava lá, vão ao quarto das pessoas e pensam "O gajo não está cá, enganaram-nos". Eles nem chegaram a ir ao quarto junto da cozinha. Tiraram um carro da garagem, andaram uns 300 m com o carro, depois abandonaram o carro e foram embora. Nunca mais dormi naquela casa.

E a outra tentativa de rapto?
Foi no Rio de Janeiro. Compro uma fábrica de águas no Rio, estou a remodelar as máquinas, aquilo está atrasado e digo ao engenheiro que tem de ter tudo pronto até determinada altura, porque tenho compromissos de entrega. Venho a Portugal e no regresso aviso que vou à fábrica no dia seguinte. Provavelmente o engenheiro deve ter telefonado para a fábrica e deve ter dito: "Vamos ter sarilhos porque isso ainda não está pronto, ele chegou aqui de repente e amanhã às três horas vai aí". “Ele”, que era eu. No dia seguinte, quando chego, nem vou ao escritório vou diretamente à unidade fabril. Entrei, aquilo estava atrasado, perdi a cabeça, disse uns palavrões e virei as costas, volto novamente para o carro, nem entrei nos escritórios e fui embora. Passadas umas horas telefona-me o nosso diretor, "Sr. Cintra você é um homem com muita sorte, realmente você tem a estrelinha consigo. Então você sai e cinco minutos depois vieram uns gajos para o raptar". Bem me procuraram, ainda tiraram o dinheiro a quem lá estava. Em frente havia um bar, bem giro, chegaram lá pediram dinheiro ao homem, que deu o que tinha. Eles "Só tem isto?", pegaram na pistola e matam o homem, coitado. Era o que podia ter-me acontecido.

Não vivia com medo?
Não, tinha de encarar a realidade. A vida é assim. Evidentemente ninguém quer morrer, se puder evitar, evita.

Ana Brigida

Onde é que gasta mais dinheiro?
Eu não gasto dinheiro, sou um tipo poupado. Não sou gastador.

Foi no avião?
Não, isso era trabalho. Tive avião, tive iate também, que também era para levar os clientes e ganhar dinheiro com eles. Fazia parte do negócio. Talvez onde gaste mais dinheiro seja na caça. É pouca coisa, mas se for para África é uma extravagância. Mas fora disso, sou poupado.

Ainda tem muitos processos em tribunal?
O que é que quer que eu faça? Há indivíduos sem escrúpulos só querem chatear as pessoas e foi o que aconteceu com os brasileiros que, sem razão nenhuma, mas nenhuma mesmo, por causa de um contrato mal feito... Eles não me pagaram um centavo, não cumpriram, mas como tinham aquele contrato tentaram penhorar as coisas, mas estou convencido que a justiça me vai dar razão, porque a razão está do meu lado.

Mas precaveu-se porque criou uma Fundação onde colocou os seus bens.
Não me precavi nada. Sou uma pessoa aberta e franca, acredito é na justiça.

Ao criar a fundação e colocar os bens em nome da fundação...
Não tem nada a ver uma coisa com a outra. A fundação era um sonho meu desde sempre. Toda a gente sabe disso. Tem lá algum património, mas a fundação não tem nada a ver com isso. Sempre foi um desejo. Há de reparar que os empresários quase todos têm uma fundação.

Qual é o objetivo da fundação?
Procurar em certa medida desenvolver aquilo que tinha de desenvolver em várias áreas, quer da cultura, quer das ciências da natureza, que é uma coisa importante e de que gosto. Eu sou um amante da natureza. Mas sou mesmo. E queria desenvolver umas coisas, dentro do possível, mas infelizmente vieram chatear-me a cabeça, eu não mereço isso. Mas a fundação continua a existir, comigo nada pára, tudo funciona.

Qual é a área de negócio pela qual tem maior carinho?
Sempre gostei muito da área imobiliária, porque é uma área importante. Se bem que é preciso saber ganhar dinheiro na área imobiliária. A localização das compras é muito importante. Antigamente era diferente, hoje há empresas por todo o lado, dezenas e dezenas, eu tinha a máquina montada de uma forma diferente. Mas há outros negócios. Brevemente, daqui a alguns meses vão ouvir falar...Vou dizer isto pela primeira vez...Vai ser a maior surpresa de sempre, se eu conseguir realizar isto com êxito. Estou neste momento a pesquisar a hipótese da compra de um laboratório para lançar um produto que vai ser a maior surpresa em Portugal e até do mundo...

Que produto?
É um produto natural para emagrecer. Vai ser o maior sucesso e esse vai ser talvez o meu último negócio, e provavelmente vai ser de um sucesso enorme. Só posso dizer que vai deixar as pessoas felizes. É uma composição para emagrecer, mas natural. Não tem contraindicações. Emagrece entre os 3/4kg por mês. Basta tomar de manhã em jejum e pode continuar a comer e beber da forma a que estava habituada, não altera a sua dieta, faz a sua vida normal.

São cápsulas?
Pode ser bebível ou posso pôr em cápsulas, estou agora a tratar disso. Só posso dizer que vai ser uma revolução.

Tem noção de que já existem dezenas, centenas ou até milhares de produtos para emagrecer no mercado.
Eu sei. Mas isto é revolucionário. Vão ver.

Onde descobriu isso?
[risos] Já sabia que iam perguntar isso. Não posso dizer mais nada. Só posso dizer que toma aquilo de manhã, em jejum, durante um mês, não altera a sua vida, e ao fim do mês pesa-se novamente e emagreceu 3/4 kgs. E se quiser emagrecer mais, pode tomar ao almoço e ao jantar e aí pode perder 6/7 kgs. Não perguntem mais nada, podem depois fazer o teste. Isso só não está a funcionar ainda porque a minha vida aqui no Sporting, estes meses, levou-me a que tivesse de atrasar isso.

Vai desenvolver o produto cá ou no estrangeiro?
Posso mandar fazer o produto em qualquer laboratório na área dos produtos naturais, mas o que vai acontecer é que eles vão copiar a fórmula. E eu quero ter o meu próprio laboratório. Quero comprar.

Isso requer um grande investimento...
Um negócio desse não tem preço. Eu ainda pensei fazer esta coisa com um dos maiores laboratórios da Europa ou até na América, podia fazer um acordo com um desses laboratórios grandes, também é uma forma de eu fazer, mas talvez quisesse fazer isto eu próprio. Estou a ver.

Vai ser o mais rentável?
Não é só ser rentável, é o bem que faz às pessoas. Há pessoas que vivem atormentadas com o peso.

Já fez testes?
Sei que funciona. Mas eu não quero falar mais nisto agora. Foi só um desabafo [risos].

Voltando aos primeiros mandatos no Sporting. É verdade que no Egito lhe apontaram uma faca, no Brasil um jogador apontou-lhe um revólver e que andou na Jugoslávia à procura de um jogador no meio da guerra? Nunca teve medo?
Quem tem medo compra um cão, um gato, qualquer coisa. A gente quando tiver que morrer, morre. É evidente que ninguém quer ser raptado ou maltratado e o que pudermos evitar, evitamos. Mas se as coisas tiverem de acontecer acontecem.

O revólver apontado aconteceu porquê?
Foi um guarda-redes que esteve aqui no Sporting. Não pagaram e ele queria aproveitar-se de mim. Estava num país da América do Sul, a negociar um jogador, não sei se foi no Paraguai, e ele foi ter ao hotel onde eu estava e queria que eu pagasse a dívida que o Sporting tinha com ele. O que é que eu tinha a ver com aquilo? Foi uma coisa feita no tempo do Jorge Gonçalves. Aí tive que fugir, deixei a mala no hotel e tudo. O que vale é que tinha o passaporte comigo. Apanhei um voo para o Rio de Janeiro e depois mandei buscar as malas. Tive muita sorte.

E no Egito?
.Isso foi outra história. Estava a negociar a vinda do Amunike e não queriam deixar o rapaz sair. Eu tenho muitas novelas destas...

Como é que gostava de ser recordado?
Tenho de ser recordado pelas coisas boas que tenho feito na vida. Como uma pessoa que esteve aqui e serviu o melhor que pode, deixou amigos e não fez mal a ninguém. Você não encontra uma pessoa que diga "O Cintra prejudicou-me" ou "O Cintra enganou-me".

Nem nos negócios?
Nada. Não encontra um. Tenho uma postura que considero indispensável nos negócios: honrar os seus compromissos e não se meter em alhadas. Eu não me meto em alhadas, há é invejas. Há essa doença no mundo inteiro, mas em Portugal a doença da inveja é forte. Se você ganhar muito dinheiro, se tiver sucesso, tem de ter algum defeito. Mas eu trato das coisas sempre com lisura e transparência e vou morrer assim. Mas a inveja... Há uma história que se conta que espelha bem o português. Na Alemanha, estavam dois tipos a varrer a rua, um alemão e um português e às tantas passa um bruto Mercedes, descapotável, e com o vento que fez as folhas que estavam a varrer foram pelo ar. O português disse logo "Filho da mãe, ainda te vejo aqui a varrer a rua". E o alemão disse "Um dia ainda hei-de ter um carro igual àquele". Veja a diferença [risos].

O Carlos Queiroz deu uma entrevista onde disse que no Mundial de 1994 o Sousa Cintra entrou no balneário de Marrocos e disse ao Naybet: "Tu vens para o Sporting". Isso aconteceu?
Aconteceram muitas coisas.

Mas era assim, era a forma que tinha de apanhar jogadores, entrar pelo balneário...
O objetivo é servir o nosso clube. Há métodos e método. Oportunidades. Se quer falar com um jogador e nem sempre tem oportunidade, porque é controlado pelos amigos, familiares ou empresário, e se tem uma oportunidade tem de aproveitá-la. Quando eu comprei as águas Vidago, há muitos anos, uma colega vossa da televisão perguntou-me como era possível, porque eu era praticamente desconhecido, tinha vindo do Algarve. E contei-lhe uma história: "Um dia um jornalista perguntou ao Rockfeller: 'O senhor foi emigrante, veio aqui para os EUA como emigrante, fez aqui estas coisas todas, como é que fez isto?'. E o Rockfeller olhou para ele e disse: 'É muito simples, é preciso, além do trabalho, sorte, depois sorte, sorte e sorte. Mas é preciso saber aproveitá-la' ". E é o que se passa.

Quando o acusam de aproveitar-se do mal dos outros, como lida com isso?
Ninguém é feliz aproveitando-se do mal dos outros. Deus não gosta disso.

Mas comprou terras ao desbarato a quem estava a fugir para o Brasil, pouco antes do 25 de abril.
Não pode ver isso nesse prisma. É uma leitura errada. Se você pode comprar um terreno por 10 embora ele valha 100 ou não importa o que vale, não vai comprar por 20. Você soube fazer o negócio, teve a oportunidade, teve a sorte de o encontrar e da outra parte o vender por esse preço. Onde e que está o mal aí? Não há mal nenhum. Isso é a oportunidade do negócio. Nos negócios, como em tudo na vida, mas nos negócios há uma coisa importantíssima, o segredo do negócio. E o segredo do negócio está sempre na compra. O sucesso do negócio está na compra. Seja os serviços que compra do engenheiro, do arquiteto, seja o terreno. A compra é sempre importante. Se souber comprar, caminho andado para o sucesso.

Qual foi o negócio mais complicado que teve?
Foi o do Amunike, ele era dos jogadores mais importantes, foi uma coisa complicada. Ele não podia ser inscrito, acabamos em guerra. Ninguém acreditava nessa vitória. Os advogados diziam-me: “Desista, não vale a pena, não vai ganhar isto”. Mas só perde quem desiste. Levei aquilo a peito. Fui à FIFA, fui lá uma, duas, três vezes, uma guerra, já quase não me podiam ver. O Sporting é um clube grande para Portugal, mas o país é pequenino, há outras forças, mas querer é poder. Acabamos por ganhar. Os jornais deram-me os parabéns e tudo.

O que é que mais lhe custou perder?
Uma coisa que está perdida, está perdida, não vale a pena lembrar. Nem é bom lembrar. Não devemos recordar coisas que não gostávamos que tivessem acontecido. Devemos recordar as coisas boas, as coisas que não são boas é para esquecer.

Ouvimos dizer que faz uma boa caldeirada, é verdade?
Faço. Quem faz a caldeirada com os amigos sou eu.

Qual é o seu maior sonho?
Neste momento é lançar este produto do emagrecimento.

Nunca se vai reformar?
Quando morrer reformo-me logo. Aí vai ser uma reforma longa.