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“Não acredito que o Benfica desça de divisão. Mesmo que se prove tudo. Estamos a falar de quantos torcedores? E acionistas e investimentos”

17 anos depois de ter deixado o Rio de Janeiro, Alan Osório da Costa Silva sente-se mais português do que brasileiro: a mulher é de Viseu e os filhos nasceram cá (Rodrigo na Madeira e Diogo no Porto). Aos 39 anos, a viver há mais de uma década em Braga, é um dos símbolos incontornáveis dos arsenalistas. No verão passado deixou os relvados e foi escolhido por António Salvador para ser o rosto dos 'Guerreiros do Minho' nas instâncias internacionais, como diretor de relações institucionais, e diz à Tribuna Expresso que os jogadores têm de se preparar para várias funções, tipo canivete suíço

Isabel Paulo

Alan é uma das grandes referências do Sporting de Braga

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

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Sente-se mais português ou brasileiro?
Sou do Rio de Janeiro, nascido e criado, ao contrário do que diz a Wikipédia, que me dá como natural de Salvador da Baía. Gostava que corrigissem. Não tenho nada contra os baianos, mas tenho muito orgulho em ser carioca. Agora, sinto-me mais português. Tenho aqui a minha família, conheci a minha esposa, Paula, de Viseu, logo que cheguei à Madeira. O meu filho Rodrigo (13 anos) nasceu lá e o Diogo (9) no Porto.

Jogam futebol?
Sim, no 'Fintas' e adoram. É a semana toda a levar um ou outro aos treinos.

Faz pressão para que sigam as suas pisadas?
Nenhuma. Nessas idades, muitos pais pressionam os filhos para serem um Cristiano Ronaldo, Neymar ou Messi. Prefiro que se divirtam, sejam felizes. É o mais importante nessas idades, sem a responsabilidade de serem isto ou aquilo para agradarem.

A busca do sucesso precoce cresceu...
E do dinheiro também. Projetam nos filhos um estatuto ou meio de sustento, até para eles próprios. Eu prefiro ir pelo outro lado. Sempre lembro que vida de jogador de futebol não é fácil, temos de nos privar de muita coisa. Ao fim de semana, enquanto os amigos estão em festa ou a fazer o que querem, temos estágio e jogo... A minha esposa foi pai e mãe durante muito tempo. E nem todos chegam ao topo. Como é o sonho de muitos miúdos e miúdas, no Braga temos o cuidado de os preparar para a vida, para tem alternativa...

Onde começou a jogar?
Na rua, menino, com as outras crianças e, aos sete, comecei a jogar futsal. Um dia fui ver o meu irmão, Alex, mais velho do que eu quatro anos, treinar, e um senhor, que me viu a chutar, chamou-me para me ver brincar. O Hellênico tinha uma equipa de futsal muito forte.

Quando deu o salto para o futebol de 11?
Aos 16, 17 anos. Não gostava de futebol de campo. Achava que era muito espaço e demorava muito tempo a pegar na bola. Achava esquisito. No futsal estamos sempre tocando a bola, naquela rotatividade louca. Hoje em dia então, só estando muito bem fisicamente. Continuo fã. Depois troquei de localidade e no meu condomínio tinha um campo de futebol de 7 e mudei.

O que fazem os seus pais?
A minha mãe já faleceu e o meu pai é engenheiro eletrónico, no setor metalúrgico.

E o seu irmão?
Deixou de jogar para 'pegar' onda às 5h da manhã. O meu pai até brincava: 'Alex, não há surfista preto, Alex. Já viste surfista negro? Não há'. Hoje em dia, trabalha como corretor de imóveis.

Qual foi o seu primeiro clube de 11?
O Internacional, do meu bairro e que disputava a II Divisão carioca. De lá fui para o Universal, já era profissional e estudava. Depois fui fazer teste no Cruzeiro de Belo Horizonte, mas fiquei. Fui para um clube satélite do Atlético Mineiro e disputei a copa João Havelange. Fiz um campeonato extraordinário e a minha carreira começou a descolar, com vários interessados, desde o Cruzeiro até ao Atlético. Como não houve acordo, vim para Portugal

Como foi parar ao Marítimo?
Tinha 21 e vim com o meu empresário de então, Adelson Duarte. Há uma curiosidade. Fiquei uma semana no Porto e olheiros de várias equipas vieram ver-me. Era para ter assinado pelo Braga, quiseram que fizesse teste e o meu empresário recusou. Ficou Marítimo e Boavista. O Jaime Pacheco acabou escolhendo outro e fui para a Madeira...

Sabia onde era?
Nada. Sabia apenas que tinha de pegar mais um avião. Foi difícil, já tinha perdido a minha mãe aos 14 anos, uma fase que não queria fazer mais nada. Só continuei jogando porque era ela que me levava ao futebol e a alegria dela era ver-me jogar. Coloquei na cabeça que tinha de cumprir esse sonho.

E que lhe disse o pai, quando soube que ia jogar em Portugal?
Chorei muito no Brasil, mas o meu pai disse para eu encarar e vir que era a oportunidade da minha vida, que o comboio não passa duas vezes. Fui muito bem pelo Nelo Vingada e pelo capitão, o Zeca. Havia vários brasileiros a jogar lá, como o Gaúcho, meu padrinho de casamento, o Dinda, Paulo César. E o clima ajudou. No Marítimo ainda tenho dois grandes amigos: o Zeca e o Briguel, meu compadre.

E o sotaque...
No começo não conseguia entender. Parecia que estavam a falar inglês. Muito difícil.

Alan é atualmente diretor de relações institucionais do Sporting de Braga, depois de se ter retirado, no final de 2016/17

Alan é atualmente diretor de relações institucionais do Sporting de Braga, depois de se ter retirado, no final de 2016/17

FERNANDO VELUDO / NFACTO

O que fazia para além de jogar?
Ia à praia, ao café, lia. E conheci a minha a minha esposa, natural de Viseu, mas que estava lá a trabalhar.

Vai com frequência ao Brasil? Pensou em regressar quando deixou de jogar?
Nem de férias vou, quanto mais morar lá. Férias é para relaxar e recarregar baterias.O ambiente político e social é assustador. Ainda agora um candidato a presidente foi esfaqueado. Muitos amigos meus querem sair de lá, que o ambiente está o caos. Os hospitais, meu Deus do céu. A insegurança é a todos os níveis no dia a dia.

Alguma vez pensou jogar pela seleção portuguesa?
Pensei. Tenho dupla nacionalidade há 10 anos, mas nunca fui convocado. Era uma honra para mim representar o país que me acolheu e realizar o sonho dos meus filhos e da família da minha mulher. Em 2012, estava no auge, mas jogava o Simão Sabrosa, o Quaresma e Cristiano Ronaldo. A concorrência era pesada.

O que mais gosta em Portugal?
Do país, das pessoas, da comida típica. Bacalhau na brasa com batata a murro ou à Brás, alheiras, leitão e até o marisco é diferente para melhor.

Como mantém a forma, depois de parar de jogar?
Engordei no começo. Pensei: vou dar descanso para o meu corpo que foram muitos anos a correr. Reduzi à comida e engordava. Passados três meses, fui para o ginásio, senão ia ter de mudar o meu armário todo. E comecei a correr, ir ao ginásio, e três vezes por semana jogo com os amigos, uma pelada com o Custódio, João Tomás, Hugo, Jaime, Wender, o Eduardo. Muitos ex-jogadores daqui.

Alguma vez sentiu racismo no futebol português?
Apesar de já ter sido chamado de preto ou negro de merda, sentia que era só para me desconcentrar dentro de campo. Racismo mesmo apenas uma vez, num Braga- Benfica. O Javi García, além de preto e macaco de merda - o que até relevei pois pensei que era só para chatear -, falou no meu ouvido que queria que a minha família morresse num acidente de carro de volta a casa. Falei com o Jorge Jesus, e ele depois pediu desculpa. Racismo há um pouco em todo o lado, mas depende do estatuto da pessoa. Se tiver dinheiro, você pode ser de qualquer cor. Mas no Brasil até há mais preconceito social. Julgam-te pela roupa. Aqui, no início, quando ia de chinelo para o shopping, todo o mundo ficava olhando.

E das tranças, o que dizem?
Já uso há 10 anos, normal. No FC Porto eu, o Anderson e o Quaresma fazíamos um penteado de cristas. Um dia, o Anderson desafiou-me para irmos fazer tranças e fomos. Na época o Co Adriaanse não gostava. Falava que era cabelo de mulher. Brincos tínhamos que tirar e camisa era dentro das calças. Tudo à militar, direitinho. As tranças viraram imagem de marca.

Tony Marshall - EMPICS

É um penteado fácil de manter?
Nada. É preciso retocar e refazer a cada dois meses ou menos e demora quatro horas e meia. E dói ao repuxar. A minha esposa diz que nem preciso fazer lifting, que estica a pele toda. As rugas vão todas embora.

A seguir foi para o FC Porto, mas também era disputado pelo Sporting...
O presidente (Carlos Pereira) falou que havia dois interessados. Eu falei para me vender para qualquer lado. Disse para ter calma, que ia chegar a minha hora. Fiquei mais uma época. E vim para o Porto. Estava o Co Adriaanse. Gostei de trabalhar com ele, era duro mas justo. Não olhava a nomes, jogava quem trabalhava mais durante a semana. E fomos campeões com muita margem. E ganhámos a Taça. Fiquei dois anos.

O que correu menos bem?
Veio o Jesualdo Ferreira, com estilo diferente e me levava sempre para o banco. Falava, já estou cheio. Depois disse que era melhor eu sair e fui emprestado ao Guimarães. Não queria ir porque fiz uma grande pré-temporada na Alemanha: o Schalke, Dortmund, PSG tinham interesse. Depois o Guimarães se aliou ao Benfica para ver se afastavam o Porto da Champions, na sequência do Apito Dourado, e tive de ir para Braga. Fiquei lixado. O Manuel Cajuda queria que ficasse, depois da melhor época do Guimarães: ficou em terceiro lugar, a melhor classificação de sempre. O FC Porto bateu o pé. Na altura, queriam pagar € 10 milhões, mas Pinto da Costa, para fazer raiva, disse nem por € 10 nem por € 20 milhões. Vim para Braga. Até disse: “Vocês estão querendo me matar, mandando-me para o rival”. Queria ir para o estrangeiro, mas a alternativa era ficar no FC Porto a treinar sozinho...

Os jogadores têm pouca voz sobre o seu destino?
Somos um produto, o elo mais fraco. Somos negociados até sem saber. Fui muito bem recebido pelo Jorge Jesus, apesar de no início dizer que não precisava de mim. Nunca mais saí. Deus escreve certo por linhas certas, nós é que as entortámos. Não adianta mudar o destino. Está traçado até morrer. Não estaria feliz como estou, se tivesse ido para outros lugares.

Alan jogou em Braga entre 2008/09 e 2016/17

Alan jogou em Braga entre 2008/09 e 2016/17

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Foi treinado por alguns dos melhores treinadores portugueses. Jesus, Cajuda, Leonardo Jardim...
E Domingos Paciência. O que levou o Braga mais longe: segundo lugar no campeonato e final da Liga Europa.

Quem mais o marcou?
Primeiro o Nelo Vingada, no Marítimo. Ensinou-se a respeitar o adversário e o próximo, mesmo vindo de uma família que me educou bem. É muito educado. Era ótimo treinador, apesar de me fazer correr muito. Era bola na frente e Alan a correr e o Kennedy. O Cajuda tem histórias fantásticas. Uma vez, mesmo a ganhar 2-0, entrou no balneário a dizer: “Pensam que estão a jogar alguma, pois badamerda. Pôs o rosto no chão e raspou. "É assim que quero a minha equipa, dando tudo”. Chamava-me de brinca na areia. Um vez até me deu uma bola, dizendo fica com ela para brincar. No Guimarães até me disse: “Já que não te matei no Marítimo, vai ser aqui. Vais correr muito”. Com ele é preciso ser forte mentalmente.

E Jorge Jesus?
É o rei da táctica. O melhor a esse nível. Diz que para defender é preciso aprender. Agora para atacar não, é a criatividade dos jogadores. E dá liberdade, depois de nos posicionar muito bem. Para os defesas é a melhor coisa. Jogava de médio direito ou extremo, em 4-4-2, toda a gente dizia que corríamos muito, mas bem posicionado parece que se corre mais. Na gíria diz-se correr errado.

Ficou surpreendido ele ter deixado o país?
Fiquei. Principalmente da forma que foi. Nem ele nem os jogadores mereciam o que aconteceu. Não há palavras para dizer o que foi aquilo. Para futebol e para o país, foi uma vergonha.

O futebol português vive carregado de casos. Porquê?
A briga pelo título é acesa demais entre os grandes, como se as outras equipas não existissem. Fiquei incrédulo quando o Braga lutou pelo título nacional com o Benfica até à última jornada e um ex-ministro (António Mexia) veio dizer que o Benfica campeão era bom para a economia do país. Imagine o que foi para nós, que temos o sonho de fazer do Braga campeão. Ficámos em segundo e desde aí começou a ascensão do Braga.

Como jogador, quais foram os seus momentos mais marcantes?
O 2º lugar, a final da Liga Europa, mas também a vitória da Taça de Portugal com o Paulo Fonseca. Foi incrível, depois de termos perdido no ano anterior a final com o Sporting. O futebol tem essa loucura. Mas também a nossa primeira taça, a Taça da Liga com o José Peseiro.

Alan a festejar a vitória na Taça de Portugal, em 2016

Alan a festejar a vitória na Taça de Portugal, em 2016

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Em que momento decidiu terminar a carreira?
É sempre complicado, até porque a forma física ainda permitia jogar algum tempo. Mas falando com a família e perante o projeto apresentado pelo presidente para ficar na estrutura,optei por parar. Muitos diziam que ainda fazia falta para os 20 minutos finais. Mas isso não é comigo.

O que faz como diretor de Relações Institucionais?
Faço vídeos para os torcedores dos adversários europeus conheceram o clube e a cidade, desde o índice de criminalidade, à língua, cultura. Também faço vídeos descontraídos com os jogadores, vou à escola dizer quem fui, dar o exemplo, falar do clube. Hoje há uma ligação cada vez maior dos bracarenses com o clube. Antes, quando jogávamos com o Benfica, não dava para distinguir pelos adeptos que equipa marcava golo. O barulho era igual. Agora, muito menor quando é golo do Benfica. Os mais jovens cresceram vendo o Braga lutar para ser campeão. Nem sei como não se considera o Sporting de Braga um dos grandes. Nas minhas funções, faço um pouco de tudo. Até já desfilei com equipamento do clube no Braga Day. E fiz uma corrida solidária para ajudar uma menina. Já falei na brincadeira com o presidente que pensava que ia ficar mais sossegado, parando de jogar. Até vou a casamento e batizado, só fica faltando funerais.

É difícil lidar com António Salvador? Dizem que é temperamental...
Entendo-me com ele até muito bem. Tem temperamento, é preciso saber lidar com ele. Se está nervoso e grita, deixo que ele se expresse, depois falo. Quando era capitão de equipa, pediam para ir pedir falar com ele dos prémios. Se estava cuspindo fogo, não ia. Esperava pela altura certa.

Já sabe quando vão jogar à porta fechada?
Ainda não. O clube recorreu. O castigo não se justifica. Já vi pior noutros estádios e não aconteceu nada

Há um tratamento desigual em relação aos grandes?
Todo o mundo vê... E muito.

O que acha que vai acontecer ao Benfica no processo e-toupeira?
Se fosse noutro país, como Itália, onde a Juventus foi despromovida, descia de divisão. Mas acho que, mesmo que se prove tudo o que fez, não acredito que desça. Estamos a falar de quantos torcedores? Fora os acionistas, os investimentos...

A que se ficou a dever o afastamento precoce da Liga Europa, frente ao Zorya?
Não tem justificação. Acho que menosprezámos o adversário. A começar por mim. Ninguém conhecia a equipa quando saiu p sorteio. Depois fui estudando, perguntei ao Paulo Fonseca, que me disse que era lixada, fisicamente forte e corriam muito. Também fez diferença já estarem avançados no Campeonato. Hoje não acontecia. Fomos ao chão, era importante para a equipa e para o equilíbrio orçamental.

A equipa abalou e empataram o o Santa Clara, depois de estarem a vencer por 3-0.
A equipa relaxou. Como digo sempre, camarão que dorme a onda leva. Agora vamos em 2.º lugar da Liga e podemos focar-nos só no campeonato. É a parte boa.

A luta pelo título fica mais fácil?
O desaire inicial se calhar veio para bem. Serviu para abrir os olhos. O título não sei se será daqui a um ano, dois ou três. é só uma questão de tempo. Temos todas as condições, uma Academia de clube grande, quem nem o FC Porto tem. E vai crescer mais. Para quem gosta de futebol, retirar a previsibilidade até ia desanuviar o ambiente sufocando. É um absurdo...

O jogo com o Sporting, segunda-feira, vem na altura certa?
Estamos bem mas eles também. Todo o mundo pensava que iam ficar com uma equipa fraca, a seguir ao tornado. Estavam enganados. O Sporting tem excelentes jogadores e uma grande equipa. E um treinador que conhece como poucos o futebol português. E o Braga e o Sporting, por ter treinado um e outro. Vai ser um típico de jogo de grandes, a resolver em detalhes.