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Amir Abedzadeh: “Admiro o Bento, o lendário guarda-redes português”

Amir tem 25 anos, é guarda-redes do Marítimo e internacional iraniano. Deixou o Irão aos 14 anos, andou por Inglaterra e pelos Estados Unidos e chegou a Portugal para jogar no Barreirense; pensou que era capaz de dar sorte jogar no clube onde o Bento começou. Porque hoje há Sporting-Marítimo (21h, SportTV1)

Marta Caires (texto) Gregório Cunha (foto)

Gregório Cunha

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Amir tem 25 anos, é guarda-redes do Marítimo e internacional iraniano e gostava muito de jogar no Real. Deixou o Irão aos 14 anos, andou por Inglaterra e pelos Estados Unidos e chegou a Portugal para jogar no Barreirense; pensou que era capaz de dar sorte jogar no clube onde o Bento começou. Entende que as mulheres iranianas deviam ter acesso aos estádios de futebol, diz que foi um amigo que o avisou da suspeita no jogo contra o FC Porto – e admira a determinação de Ronaldo e a beleza natural da Madeira. Porque hoje há Sporting-Marítimo (21h, SportTV1).

O seu pai foi um dos heróis do Irão no Campeonato do Mundo de 1998. Tem memória disso?
O meu pai levava-me ao futebol, foi nessa altura que começou o meu amor pelo futebol, mas o meu pai não foi apenas um herói em 1998; já era nessa altura um ídolo, um herói no Irão. Acho que foi em 1997, durante a fase de qualificação. O que se passou foi que mais pessoas o viram no Campeonato do Mundo. É uma lenda no Irão e eu tenho muito orgulho nele.

Começou jogar como guarda-redes por causa dele?
É capaz de ser por causa do meu pai; costumava treinar com ele, comecei a treinar com ele aos 4, 5 anos.

Mas é um trabalho difícil...
É uma grande responsabilidade, mas quanto mais difícil, melhor o gosto da vitória. Fico contente quando ajudo a minha equipa, quando salvo o jogo, mas claro que há momentos complicados.

É verdade que a sua mãe também é guarda-redes?
Não, não...(risos) O que se passou é que houve um jogo de solidariedade de futsal e a minha mãe fazia parte e jogou como guarda-redes, mas não é uma boa guarda-redes.

O Irão é uma sociedade muito fechada à participação das mulheres...
Para ser sincero, nunca falo sobre essas questões políticas, mas claro que é bom que todos tenham liberdade. A verdade é que a seleção tem muitos adeptos que são mulheres que gostariam de estar no estádio para nos apoiar. Não posso dizer muito mais, mas espero que em breve haja mais liberdade, que as mulheres possam participar para termos uma boa atmosfera no estádio. No voleibol as mulheres podem assistir, o ambiente é tão bom. Penso que levará tempo.

Tem andado por aí no Mundo. Esteve no Tottenham e nos Estados Unidos. Como é que lá chegou e o que é que correu mal?
Eu penso que nada correu mal. Essas passagens por Inglaterra e pelos Estados Unidos e depois Portugal... tudo isso teve de acontecer para conseguir chegar até onde estou agora. Eu comecei em Inglaterra, mudei-me para lá quando tinha 14 anos. Estive no Tottenham, estive também noutros clubes, mas assinei o meu primeiro contrato profissional nos EUA, onde estive dois anos. Depois, voltei para o Irão e depois para Portugal.

E como foi parar ao Barreirense?
Um amigo meu conhecia o meu agente, o que tenho agora, e naquela altura estava em Portugal. Então vim sozinho e tentei começar de baixo. Eu acredito que começando de baixo podemos mostrar melhor o nosso valor. Então aceitei vir para Portugal para jogar na III divisão e tudo correu bem porque consegui dar o salto muito depressa. O Marítimo confiou em mim, deu-me uma oportunidade. Mas uma das razões porque aceitei o Barreirense foi por causa do Manuel Bento.

O guarda-redes?
O lendário guarda-redes português! Eu admirava o Manuel Bento e ele começou no Barreirense e foi para o Benfica. Achei que era um bom sítio para começar. Acredito que se pode conseguir tudo o que temos em mente com muito trabalho e determinação. Espero conseguir dar passos maiores.

Maiores, como?
Gostava de ir para um clube como o Real Madrid. Eu acordo todos os dias com este sonho, mas sei que tenho de seguir um passo de cada vez.

No final da época passada, o seu nome apareceu envolvido em suspeitas no jogo contra o FC Porto.
Um amigo meu mandou-me uma mensagem [a explicar o que se passava] porque, normalmente, não leio notícias. A minha primeira reação foi: isto só pode ser brincadeira. Nada daquilo fazia sentido. Sou profissional e na verdade não dou importância nem dou atenção ao que se passa à volta, ao que não faz parte do jogo.

Como é Carlos Queiroz?
Um dos melhores com quem já trabalhei. Todas as pessoas no Irão admiram o seu trabalho, pois nos últimos sete anos treinou a seleção e colocou-nos entre as melhores da Ásia. Fizemos um bom Campeonato do Mundo. Os portugueses não acreditaram em nós e alguns dos meus colegas brincaram comigo antes de ir – disseram que íamos fazer um mau Mundial. Fui o primeiro jogador do Marítimo a jogar numa fase final do Mundial.

Acha que o Irão foi prejudicado pela arbitragem, tal como Queiroz disse?
Não conseguimos perceber porque é que o golo contra a Espanha não foi validado e já vimos o lance várias vezes; mas faz parte do jogo. O treinador tentou explicar que isto era um jogo para as pessoas, mas que agora é sobretudo um negócio.

E concorda com a reação dele?
É um treinador profissional e que quer que as equipas que treinam tenham sucesso, os melhores resultados. Quando falou da arbitragem, foi por causa disso.

Têm ídolos além do Bento?
Gosto de Conor McGregor [lutador MMA], Floyd Mayweather [pugilista], Kobe Bryant e LeBron James [basquetebolistas]. No futebol gosto muito da determinação de Cristiano Ronaldo, pelo esforço e pelo facto de viver e jogar a ilha onde nasceu. Foi daqui que ele partiu e acabou por chegar ao Real Madrid. E também gosto muito do Buffon pela carreira consistente, longa e sempre no topo.

Vem aí o Sporting, contra o qual já jogou duas vezes e não sofreu golos. É para manter?
É um trabalho de toda a equipa.

De que mais gosta na Madeira?
Das pessoas. E, na Madeira, adoro o facto de, onde quer que se vá, há sempre uma linda vista. Gosto do clima, da fruta e da espetada madeirenses.

Tem saudades do Irão?
Não. Vivo sozinho desde os 14 anos, altura em que deixei pela primeira vez o Irão. Na altura foi difícil, mas gosto de viver sozinho. Pode parecer estranho, mas gosto de pensar, de meditar, de estar comigo mesmo.

Já gerou algum problema o facto de ser muçulmano?
Não, de maneira alguma. Na equipa há outro jogador, o Zainadine, que é muçulmano. A Madeira é um lugar acolhedor, há uma mesquita e as pessoas respeitam a religião de cada um. O Ramadão é muito difícil para os altetas, pois temos contratos com os clubes. Mas cumpri-lo é bom, traz um bom karma.