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Miguel foi para Angola para treinar uma equipa, mas acabou por ser o único português a jogar no Girabola. Esta é a história dele

Aos 26 anos, Miguel Caramalho retornou ao Porto, após uma época e meia a jogar na Académica de Lobito. Foi à aventura, tentou integrar uma equipa técnica, mas acabou a jogar na equipa que acabou o Girabola num inesperado em 5.º lugar. Na terra natal da mãe, não colheu fama, nem dinheiro, mas o ponta de lança que nunca passou dos Distritais conta que valeu pela experiência de vida. Bem acolhido, elogia a capacidade de resistência dos colegas de equipa, capazes de dar o máxima mesmo somando muitos meses de salários em atraso, movidos por duas razões poderosas: alimentar a família e ter visibilidade para dar o salto para o grande palco do futebol. A fazer um mestrado em Psicologia do Desporto na FADEUP, Miguel vai tentar o regresso aos relvados em janeiro, embora o treino seja a a sua meta futura

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

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Como surgiu o convite para ir jogar a Académica de Lobito?
Não fui convidado. Fui por minha iniciativa, à aventura. Tenho um primo e padrinho que vive em Benguela há cerca de oito anos e sempre que conversava com ele dizia para o ir o ir visitar. Em março do ano passado, decidi visitar o país para, se desse, integrar uma equipa técnica de um clube, na observação ou análise de jogo. Já tinha alguma experiência, até porque estava na altura a treinar a equipa de sub-19 da União Desportiva Valonguense, da I Distrital de juniores da AF Porto, e já tinha estagiado no Varzim B, como adjunto.

Então como começou a jogar na Académica de Lobito?
O meu padrinho conhecia o presidente do clube e comecei a jogar à experiência. No final da época, perguntou se queria ficar, já com melhores condições financeiras. Tinha 24 anos, nada a perder, e decidi ficar pela experiência, pela aventura.

Já tinha estado em África?
Nunca, mas sempre tive curiosidade, até porque a minha mãe nasceu em Angola e os meus avós viveram lá durante alguns anos.

Como foi a adaptação?
Confesso que numa fase inicial não foi nada fácil. É uma realidade completamente diferente do que estamos acostumados em Portugal e na Europa. Ajudou ficar a viver com os meus familiares.

Do que mais gostou no Lobito?
Da praia, a escassos de casa, do bom tempo, da cidade. Gostei das pessoas, de uma simpatia incrível. O espírito de sacrifício e capacidade de trabalho dos angolanos é algo que não vou esquecer. Do que senti mais saudades foi da família e amigos. E adorei a comida, muito boa.

E menos?
Talvez dos acessos. As estradas são muito esburacadas e é difícil circular nalgumas zonas. E existem muitas zonas que quando chove ficam inundadas e com muito lixo.

Onde começou a jogar?
No Sport Progresso, aos 8 anos, um dos clubes mais emblemáticos do Porto e já extinto, infelizmente.

Quem eram os seus ídolos?
Lembro-me de ver os jogos do Fernando Torres, na altura em que ele tinha 17,18 anos e tentava imitá-lo em tudo. Desde o corte do cabelo, à forma de jogar, aos festejos. Também gostava do Ronaldo "Fenómeno" e do Ronaldinho Gaúcho.

Em que posição joga?
Ponta de lança.

Em que lugar ficou a Académica de Lobito?
Em 5º lugar, um momento histórico, depois de na época anterior a equipa ter lutado para não descer e, esta época, ter acumulado seis meses de salários em atraso. Não havia um clima de grande motivação para treinar, mas os jogadores continuaram a dar o seu melhor porque eram o único, em quase todos os casos, o único sustento da família e precisavam de visibilidade para dar o salto para outros clubes. É uma realidade comum a outros clubes. Li há dias que o preparador físico do Kabuscorp tem oito meses de salários em atraso e colocou o caso na FIFA. E há processos movidos também por jogadores.

E conseguiram?
Fiquei feliz por saber que o central Zebedeu foi para o Interclube, o Cláudio, do meio-campo para o Kabuscorp e o Vander para o Bravos do Maquis.

Era o único português?
Era. E mesmo do Girabola, não me lembro de mais nenhum jogador português. Quando cheguei havia cinco na minha equipa. Três deles com dupla nacionalidade. E o Diogo Rosado, que estava no 1º de Agosto, mas também foi embora.

Há muitos estrangeiros a jogar em Angola?
Poucos. Na época que terminou, na minha equipa havia um jogador de S.Tomé e Príncipe e um de Cabo Verde, que saiu a meio da época, e ainda três jogadores do Congo.

Financeiramente, vale a pena?
É difícil de responder. Depende muito do contexto e da situação. O futebol angolano está a passar por algumas dificuldades, fruto da mudança que o país atravessa. Para os portugueses e europeus, deixou de compensar a partir do momento em que se tornou difícil ou impossível transferir divisas. E há muitos jogadores com salários em atraso.

O que falta ao clube em termos de estruturas?
Temos de perceber primeiro a desigualdade que existe entre as condições dos quatro clubes ditos "grandes" de Luanda e os restantes. A Académica é um clube humilde e do povo, tem muito poucas ajudas e sobrevive da boa vontade das pessoas, que muitos sacrifícios fazem para ajudar o clube. O estádio é antigo, renovado para o CAN, em 2010. O clube não tem a possibilidade de ter um campo de treinos, um ginásio, como os clubes de Luanda. Uma vezes o treino era no estádio ou tínhamos de ir +ara outros campos. Mas pior estão os miúdos da formação, que treinam nas bordas do relvado, em pedra e areia, ou num campo pelado que existe no exterior do estádio.

Pode falar-se em futebol profissional no Girabola?
O que é uma equipa profissional angolana e uma equipa portuguesa ou europeia é completamente diferente. Mas é profissional, no sentido em que todos os jogadores só jogam futebol, é o seu único emprego e dependem exclusivamente dele. Vivem 100% para o clube.

Quem era o seu treinador?
Rui Garcia, luso-angolano. Foi o primeiro ano como treinador principal, após ter sido preparador físico em anos anteriores. Agora foi treinar o Interclube. Saiu o Paulo Torres, que está no Kabuscorp

Foi bem aceite no clube?
Fui muito bem aceite pelos lobitangas (adeptos da Académica). E fui muito bem integrado pelos meus colegas de equipa. No caso dos treinadores estrangeiros, acredito que seja bem mais complicado, porque vão sempre criticá-lo mais depressa, se a equipa perder ou não estiver bem. Mas os portugueses têm boa imagem no Girabola, como pessoas e muito respeitados a nível profissional.

Rui Duarte Silva

Tem ideia quantos quilómetros percorrem para competir ao longo do campeonato?
Ui. Essa é complicada. Não tenho mesmo noção, mas foram milhares e milhares de quilómetros.

Viajam de autocarro ou avião nos percursos mais longos?
Depende muito. Mas normalmente viajamos de autocarro, em estradas esburacadas... Só vamos de avião para os locais onde o acesso terrestre é praticamente impossível de alcançar.

Em viatura do clube ou em transportes públicos?
O clube não dispõe de viatura própria. É alugada.

Qual a história que mais o marcou em Lobito?
Tenho muitas histórias que me foram marcando. Logo numa das primeiras viagens em que fui com a equipa, fomos jogar à cidade de Dundo, a 1500 quilómetros do Lobito, sendo o único acesso possível feito através de ligação aérea. Saímos em direção ao aeroporto de Benguela por volta das 7h30 (já depois de nos reunirmos às 6h30 para tomar o pequeno-almoço). Por lá permanecemos durante algumas horas, pois era uma incógnita quando chegaria o avião. Nestes casos específicos, as viagens são feitas em avião militar ou da força aérea e nunca dão horas exatas de quando chegam ou partem e varia muito em função das pessoas que estão no aeroporto e vão guardando o seu lugar, por ordem de chegada. O avião lá chegou por volta das 11h00, já pairava uma pressão tremenda, pois o jogo era às 15 h e ainda teríamos que almoçar. A viagem durou 2h horas e foi a mais atribulada que alguma vez fiz: os bancos onde nos sentávamos eram laterais, não tinham apoios, avião lotado de pessoas e mercadoria em constante agitação, muito desconfortável mesmo. Condições pouco propícias para quem ia fazer um jogo de grande exigência (a equipa do Sagrada encontrava-se em 3º lugar e nós precisávamos urgentemente de pontos para fugir aos últimos lugares).

Chegaram a tempo ao jogo?
Foi uma correria. Fomos de imediato para o local onde iríamos pernoitar para pousar as nossas coisas, comemos rápido e chegámos ao campo por volta das 14h. Nunca me tinha sentido tão cansado antes de um jogo. Os jogadores angolanos têm uma grande capacidade de superação. Enquanto estava sentado no banco, olhava para dentro do campo e todos os meus colegas corriam e lutavam como ninguém… Como se a vida deles depende disso. Tenho a certeza que muito poucos jogadores europeus fossem capazes de superar tanta adversidade...

Quem ganhou?
Perdemos, com um golo aos 87 minutos. Outro acontecimento que me marcou, também no ano passado, foi quando um adepto desceu o morro junto ao estádio e invadiu o nosso treino com pedras na mão para ferir um determinado jogador. Foi um filme para o tirar do relvado. Felizmente não aconteceu nada.

Os jogadores angolanos sonham jogar no estrangeiro?
Querem todos dar o salto. No balneário, diziam-me: “Leva-me para Portugal”. É a ambição deles. Trabalham para virem para a Europa, em especial para Portugal devido à ligação histórica e à língua.

O clube tem muitos adeptos a assistir aos jogos?
Tem muitos adeptos, principalmente do lado descampado (Morro), que é aberto e qualquer pessoa pode assistir, tendo até uma vista privilegiada do topo para o relvado. Mesmo a nossa bancada em dia de jogos fica praticamente cheia.

Seguem a Liga Portugal?
Principalmente os jogos dos grandes, mas também o campeonato espanhol e italiano. Torcem principalmente pelo Benfica e FC Porto, Real Madrid e Barcelona.

Bernardino Pedroto, no ASA, conquistou três títulos, quatro Supertaças e uma Taça de Angola. É uma referência?
O mister Pedroto deixou marca em Angola. Não só pelos títulos conquistados, mas pela maneira como lidava com os jogadores. Todos os que me foram falando dele, realçavam muito o facto de defender sempre os interesses do jogador. E isso para eles teve sempre um grande valor.

O que fazia nas horas livres? Quais eram as suas rotinas?
Ia à praia dar uns mergulhos todo o ano, passear o cão. Lia, via filmes, séries e muitos jogos de futebol. De manhã treinava, e tinha as tardes livres.

Existe violência no campeonato angolano?
Felizmente, desde que cá estou nunca assisti a nenhum acontecimento durante o campeonato. Sei que, no ano antes de chegar, no nosso estádio houve um adepto que chegou a disparar um tiro e o estádio chegou mesmo a estar interdito. Desde aí, em todos os jogos a segurança é bastante apertada.

A mudança do ciclo político sob liderança do presidente João Lourenço sente-se no dia a dia?
No futebol não se sentiu, mas acho que a mudança de liderança política trouxe alguma esperança para melhor na democracia do país. Acho que se sente uma maior afinidade entre o povo e o novo presidente.

É sócio de algum clube?
O meu pai fez-me sócio do FCPorto no dia em que nasci. Nem pude escolher. Há uns anos deixei de pagar quotas, mas sempre que posso vou ao estádio.

O que está a fazer agora?
Um mestrado de Psicologia do Desporto e Desenvolvimento Humano, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, a ser lecionado pela primeira vez. Fiz aqui a licenciatura em Ciências do Desporto, que me abriu as portas do treino, e mestrado em Treino Desportivo, no ISMAI, que me dá equivalência ao curso de II nível de treinador.

O seu futuro próximo é ser treinador ou quer continuar a jogar?
É uma questão com a qual ainda me estou a debater. Cheguei com o mercado fechado, tenho 26 anos e não me destaquei em Angola. Joguei pouco e estive uma parte do tempo lesionado. Se calhar, vou ainda tentar a sorte em janeiro, mas a minha maior ambição é o treino.

O que faz para manter a forma?
Ginásio, na academia de um amigo que é personal trainer e também preparador físico de futebol.