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Maths Elfvendal inventou uma nova barreira. Chama-lhe split wall e diz que é revolucionária, divertida e amiga dos guarda-redes

Há uns tempos, o IFK Norrköping defendeu um livre direto, perto da área, com duas barreiras uma ao lado da outra. Ou com uma " split wall", como Maths Elfvendal lhe chama. Ele é treinador de guarda-redes do clube sueco e da seleção da Suécia e tivemos uma breve conversa com ele sobre o maravilhoso novo mundo de possibilidades que há no treino defensivo de livres: "O melhor remate de quem vai rematar, ou o preferido, tem de ser menos atrativo para ele ou mais fácil para nós de defender"

Diogo Pombo

Anders Ylander

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Foi a primeira vez que utilizaram este tipo de barreira num livre direto?
Já a tínhamos usado no aqui no Norrköping. Também a utilizámos em 2016, acho eu. Tens que te adaptar e escolher a melhor estratégia, no momento correto, contra o adversário certo.

(O livre em causa está no tweet publicado em baixo.)

Qual foi a linha de pensamento que levou à formação dessa barreira?
O jogador que bateu o livre tem um pé direito muito bom e um historial de rematar com força para o canto mais próximo do guarda-redes. Tinha-o feito, contra nós, num jogo da Taça da Suécia. Por isso, precisámos de nos adaptar para, daquela distância, tentarmos ajudar o nosso guarda-redes.

Dividindo a barreira em duas, a ideia era limitar o processo de decisão de quem ia marcar o livre?
Não. O objetivo era que o nosso guarda-redes se pudesse posicionar mais ao centro da baliza e não tornar a tarefa mais fácil para o jogador que ia rematar. Mas, ainda assim, o jogador continua a ter a hipótese de rematar a bola por cima da barreira.

Mas não é mais difícil, para quem remata, ver aqueles dois jogadores a formarem-se ao lado da barreira? Não está o guarda-redes a sugerir onde quer receber o remate?
Acho que terias que perguntar isso a quem rematou. A nossa intenção era estreitar o ângulo de remate, para que ele rematasse com força para o lado do nosso guarda-redes. O lado negativo, claro, é que a bola poderia ser desviada em ambos lados por algum jogador da barreira. Mas acredito que as vantagens são dominantes.

Quais são?
Já mencionámos algumas e há muitas mais. A parte mais importante é retirar o fator surpresa ao rematador. O melhor remate de quem vai rematar, ou o preferido, tem de ser menos atrativo para ele ou mais fácil para nós de defender.

É mais fácil adaptar a barreira a um livre colado à área ou a um que esteja, por exemplo, a 30 metros da baliza?
Quando mais longe for, mais o campo se abre para o adversário ser criativo e fazer outras coisas, antes de rematar. E, claro, não é tão atrativo finalizar se estiver mais longe da baliza.

Nesse caso, não formar qualquer barreira seria uma hipótese?Tudo tem as vantagens e desvantagens. Essa seria, sem dúvida, uma possibilidade. Outra seria ter duas barreiras, com dois jogadores cada. Mas, a essa distância, facilmente um jogador consegue dar um efeito suficiente à bola para que ela contorne uma barreira com dois homens.

Para um jogador que sempre remata a bola por cima da barreira, sem efeito, em pancada seca, isso não lhe dificultaria a vida?
Talvez. Mas, obviamente, eles poderiam então deixar um jogador que remate com mais força, com um estilo mais potente, bater o livre - hipoteticamente, claro.

Como é o processo que leva à forma, ou às rotinas, como vão decidir defender os livres contra o próximo adversário?
Tento descobrir qual é a sua principal vantagem e, depois, arranjar uma boa tática que a possa contrariar. Não sei quantas rotinas temos. Não é uma questão de número, porque também nunca podes repeti-las. As equipas adversárias estão sempre a tentar arranjar maneiras de desmontar a tua defesa nestas situações.

Não te surpreende que não haja mais equipas a inovar na formação de barreiras, para lá de deitar um jogador na relva, para impedir um remate por baixo da barreira, como o Brozovic fez no Barcelona-Inter?
Não sou o tipo que deve responder a isso, qualquer equipa é livre de fazer o que quer e aquilo em que acredita. Mas sim, esse exemplo fez-me muito feliz! Acho que é o tipo de coisas que faz com que o próximo adversário comece a pensar em como poderá isso. Dessa forma, vamos continuar a criar novos limites e a evoluir constantemente.

Como é que os jogadores do Norrköping e da seleção sueca reagem a esta forma de defender livres?
Toda a gente quer ganhar e o nosso trabalho, enquanto treinadores, é explicar-lhes como poderemos tirar proveito de certas situações. Os jogadores são super profissionais e, às vezes, até são eles a ter ideias e a sugerir coisas.

Podes dar um exemplo?
Hmm, já aconteceu após os nossos jogos ou até depois de os jogadores verem algo na televisão. Ou até coisas que tenham feito nos anteriores clubes em que jogaram.

Além da formação da barreira, que outras aspetos são mais treináveis com os guarda-redes para a defesa de livres?
Os livres são divertidos porque sabes de onde a bola vai partir. É por isso que consegues ter uma noção clara, a partir de qualquer posição em campo, da forma como o livre é batido. Depois há a parte do instinto, que aparece mais perto da baliza e em situações mais caóticas, também pode ser treinada para que o guarda-redes retire benefícios.

Como é que se treina essa parte instintiva?
[Ri-se]. Isso dava para uma aula de duas horas. Mas é uma questão de praticar o maior número de boas ações e ações realistas - que repliquem uma situação de jogo - que conseguires, para que sejam a reação mais natural no guarda-redes. É nisso que acredito. Dessa forma, fazes com que o guarda-redes já tenha vivido esse tipo de situações ou, pelo menos, semelhantes.