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Carlos Kaiser, o malandro: "Eu odiava ser jogador de futebol, mas adorava tudo o que vinha com isso. As mulheres, as festas e as amizades"

Esteve nas principais equipas do futebol brasileiro (e quase em Portugal), mas nunca jogou. A história Carlos Kaiser virou filme por convencer os clubes a contratá-lo, e depois fez de tudo para nunca entrar no relvado. Kaiser por anos contou a história do malandro que enganou o futebol. Para a Tribuna Expresso, contou também a da pessoa que sofreu por causa dele

Evandro Furoni, em São Paulo

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Não é recomendado acreditar em tudo que Carlos Kaiser diz. Afinal, um dos seus talentos foi mentir para assinar contratos com clubes de todo o mundo e não jogar. Talvez nem todas as palavras sejam verdadeiras, mas a história é única. Amigo de internacionais como Bebeto e Renato Gaúcho, seu objetivo como futebolista sempre foi conquistar mais mulheres do que adeptos.

A história é tão fantástica que virou filme. “Kaiser: O Grande Jogador que Nunca Jogou” estreou no último dia 24 de novembro em Portugal, durante o Porto/Post/Doc. O filme desmente pelo menos uma das histórias de Carlos, a de que jogou em França, no Gazélec Ajaccio. Em entrevista para a Tribuna, diz que jogou na equipa, uma das primeiras em que aplicou seus golpes, mas a máfia não deixa os outros admitirem.

Assim como muitas de suas histórias, onde jogou ou deixou de jogar são difíceis de comprovar. Louis Myles, realizador do documentário, conseguiu confirmar com diversos clubes a passagem de Carlos, mas defende que isto não é importante. “Várias pessoas são obcecadas por saber onde realmente jogou. Não é o ponto. Ele nunca ligou se algo era oficial, só queria o prestígio. Queria a vida de futebolista, conseguiu exatamente isso. Sinto falta dele. Às vezes, a vida pode ser terrivelmente chata, a dele não foi”, afirma o realizador.

O luxo é apenas um dos lados da história que Kaiser gosta de contar. Há outra cheia de sofrimento. Diz que a mãe era alcoólica, e foi um agente quem o obrigou a ser futebolista, ainda quando criança (defende que os golpes começaram após jogar como profissional nos EUA). Afirma que que é viúvo três vezes e teve que lidar com a morte de um filho. Hoje, os sempre presentes óculos escuros escondem um problema de visão. Para ele, o futebol é uma ilusão tão grande quanto a que criou.

Como começou no futebol?
Eu nunca quis ser jogador de futebol, mas sempre fui obrigado. Desde de criança tive meu passe (os direitos federativos dos jogadores brasileiros na década de 80) vinculado a um empresário, que me obrigava a jogar. Minha mãe era alcoólica, morreu quando eu ainda era criança, fui criado por parentes. Nunca joguei porque queria, mas para ganhar dinheiro. Cheguei a ganhar vinte mil dólares no começo da carreira no El Paso, dos EUA. Eu queria estudar, ser culto. Enquanto os outros iam para as festas, eu ia para museus. Eu queria ser professor de educação física, mas era obrigado a ser jogador de futebol.

Se não queria ser jogador, porque assinou com equipas brasileiras e fazia o que fazia?
Pô, quem não quer levar a vida que um um futebolista leva? Qualquer um faria se tivesse a oportunidade. Eu tinha físico de atleta, conseguia treinar. Só fazia de tudo para não entrar em campo, aí armava todas aquelas confusões. Eu odiava ser jogador de futebol, mas adorava tudo o que vinha com isso. As mulheres, as festas e as amizades.

Por que decidiu contar a sua história em documentário?
Eu nunca quis contar a minha história ou ser famoso. Mas aí os jornalistas procuravam gente como o Romário, o Renato Gaúcho para saber de mim. Não podia desmentir esses. Eu nunca quis ser famoso, mas as pessoas iam atrás dessa história. Eu não podia ficar quieto e fazer pessoas que eu amo se passarem por mentirosas.

Comentou sobre Renato Gaúcho, o que ele é para você? (Renato é uma das pessoas que nunca escondeu a amizade com Kaiser)
Ele é um pai, um irmão, uma pessoa que sempre me ajudou. Amo o Renato mais do que amo minha mãe, que nunca me ajudou. Esteve aqui no Rio esta semana para o jogo contra o Flamengo (Renato é treinador do Grêmio) e nos encontrámos. Ele me fez famoso no Brasil, agora eu faço-o famoso no mundo.

No documentário há a menção que passou por Portugal, é verdade?
Não cheguei a fechar contrato, mas quase joguei Louletano, do Algarve. Acabou por não dar certo. Admiro muito o futebol português, para mim os melhores jogadores da história do país são Cristiano Ronaldo, Eusébio e Paulo Futre. Outro que me identifico muito, chegámos até a cruzar-nos uma vez, é o Fernando Couto. Portugal é um país muito bonito, se morasse na Europa, seria aí.

Foi muito amigo dos jogadores, como conquistou essa amizade?
Eu sou uma pessoa muito sincera, trato todos de forma igual. Eu sempre tratei os colegas de clube com muito carinho e respeito, e recebia isso de volta. Para o documentário, entrevistaram mais de 70 pessoas e todas lembraram de mim com carinho. Isso é prova do meu caráter. Eu nunca fui ídolo dos adeptos, fui ídolo dos jogadores, por ajudá-los, por ser sempre companheiro deles. O único clube em que os adeptos gostavam de mim era no Bangu, em que cantavam: ‘Ai que bom seria, se o Kaiser jogasse todo dia’. Ou pelo menos uma vez (risos)

Hoje é personal trainer: é mais feliz do que quando futebolista?
Sem dúvidas. Fui eleito o melhor “coach” de fisioculturismo na categoria “wellness e models” por cinco federações diferentes. Treino minhas atletas e todas usam como apelido Kayser - elas com y, o meu é com i. Também apresento um programa no Youtube. Hoje eu faço o que sempre quis fazer.

Por trás da história do malandro, tem uma muito triste. Poderia contar?
Hoje eu já não vejo. Tive um descolamento na retina, quando a colocaram no lugar, a minha visão não voltou. Preciso fazer um transplante de córnea. Na minha vida, casei três vezes e as minhas três mulheres morreram. Perdi um filho aos 18 anos de idade [começa a chorar]. O título da matéria pode ser ‘O maior malandro do Brasil é o homem mais triste do Brasil’. Agora, estava noivo novamente e há três meses ela decidiu cancelar o noivado. Estou no momento mais baixo da minha vida.

Com a sua história famosa, teme que as pessoas não acreditem mais em você?
Não, de forma alguma. Eu sempre fui muito direto com as pessoas. Eu fiz o que fiz, mas nunca escondi o que sou. Por sinal, dois jogadores dizem no documentário que eu nunca joguei no Ajaccio, mas três anos atrás davam entrevistas para a “Four Four Two” (revista inglesa) a confirmar. Sabe o que é isso? Medo da máfia da Córsega. Como os caras lá são barra pesada, eles querem jogar tudo nas minhas costas.

Como avalia a sua qualidade como futebolista?
Para a minha época eu não jogava nada, uma geração que teve futebolistas como Zico, Renato Gaúcho e Romário, entre outros. Hoje, jogaria sem problemas. Tirando Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo, qualquer um consegue ganhar pelo menos duzentos mil hoje.

Acha que hoje alguém conseguiria fazer o mesmo que fez?
Não, nunca. Nem naquela época alguém além de mim teria coragem!

Para você, o que é futebol?
É uma ilusão, uma mentira. O mundo do futebol é um que se aproveita do jogador. Parte de eu falar tão abertamente sobre isso é até para alertar a geração atual que não pode ser apenas atleta, tem que estudar, buscar ser algo mais do que jogador. Vemos as notícias de que futebolistas ganham milhões, mas a maioria ganha quase nada. De novo, nunca quis ser jogador de futebol, fui roubado a minha vida inteira, pela minha mãe, por empresários, o meu dinheiro era para os outros. A minha sorte é que sou budista, e aprendi a não dar valor a essas coisas.