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O treinador que deu mais um título europeu ao Sporting: “Quero ganhar uma medalha em Tóquio 2020 com os nossos atletas da formação”

Pedro Soares é técnico de judo do Sporting desde 2007 e há uma semana, em Bucareste, na Roménia, atingiu um dos maiores objetivos pessoais e do clube: vencer a Liga dos Campeões da modalidade, depois de nos últimos três anos ter trazido sempre para casa a medalha de bronze. O técnico leonino explica à Tribuna Expresso como é que este feito foi alcançado

Alexandra Simões de Abreu

José Fenandes

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O que foi diferente desta vez para o Sporting ter conseguido ser campeão europeu?
Não foi nada que se tenha passado em cima do tapete. A qualidade da prova é bastante elevada, conta com as oito melhores equipas da Europa, por isso tem de ser um dia perfeito para chegar ao ouro. Mas atrás disso tudo estão alguns anos de trabalho e de investimento, nomeadamente nesta competição. Foi a nossa sétima participação e a nossa quarta medalha, foi esse percurso que fez com que as coisas acontecessem. Por outro lado, mudei a preparação mental, dizendo que este percurso não podia ser em vão e tinha de ter como consequência lógica esta vitória, porque se não fosse para caminhar para cima não fazia sentido. Este discurso foi mudando a mentalidade e deu ali um aporte diferente e um bocadinho mais de potência, trouxe um maior espírito de sacrifício, uma maior vontade. Este título é para os sócios, é do meu sportinguismo para os sócios.

Quando chegou ao local da competição, sentiu logo que era o dia perfeito?
Senti. Mas senti isso também nas outras edições. Por isso, só tive a certeza de que não nos escapava quando fizemos o 3-1 e matematicamente era impossível perder o ouro. Antes disso nunca me senti campeão. Esta é uma competição de tolerância zero para o erro. O judo tem sete categorias de peso numa prova individual e nesta competição de equipas, que é a maior que existe, o modelo é de cinco categorias. Quando as provas de equipa eram também de sete pesos, normalmente ganhava sempre aquela que realmente era a mais forte porque em sete combates, mesmo que houvesse uma surpresa os outros conseguiam retificar. A partir do momento em que são cinco pesos, se há um peso que damos como garantido ganhar e não o ganhamos, a coisa vai mesmo correr mal. Até por isso é uma prova interessante porque muitas vezes não ganha o melhor, ganha o que esteve melhor. É uma prova milionária, com uma parada de estrelas de nível elevadíssimo e onde toda a gente tem hipótese de ganhar ou de ficar em último lugar. É por todas estas razões que nunca senti que já estava ganho.

O primeiro combate da final com a equipa russa do Yawara-Neva foi o mais importante?
Sim, foi importantíssimo porque coloquei um miúdo, o David Reis, com 21 anos a realizar o primeiro combate, nos -66kg. Um miúdo que tem um enorme valor e não tem competido muito e que acabou por se superar e vencer. Venceu o adversário mais forte dos russos daquela equipa.

O David não tem competido porquê?
Por problemas de saúde e lesões. Foi um atleta que nas camadas jovens ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal. Aí sim tive um "feeling", não sendo um peso onde apostava literalmente que o ia ganhar, sentia que ali se podia passar qualquer coisa de transcendente e sentia-o porque ele merecia, primeiro que tudo, e por aquilo que vi nos treinos. Eu sabia que ele estava com falta de ritmo competitivo, mas também sabia que estava com uma enorme vontade competir e que merecia ser abençoado. Foi abençoado e abençoou também a equipa. Começamos a ganhar 1-0 num peso que teoricamente não contávamos como vitória e isso acabou por contagiar a equipa. Fizemos o 2-0, depois ficou 2-1, a seguir o Nikoloz Sherazadishvili faz o 3-1 e vencemos a prova. Perdemos o último combate, ficou 3-2.

O que faz o dia perfeito para um atleta?
Nesta prova não podemos falar do dia perfeito para um atleta, porque é uma prova de equipas, houve atletas que perderam o primeiro encontro, ganharam o segundo e depois o terceiro. Houve atletas que perderam o segundo e o terceiro e ganharam o primeiro e por aí fora. É uma prova onde toda a gente sabe que o que interessa é se a equipa ganha ou não e não o percurso individual.

O estado de espírito em que se encontram os atletas no dia da prova, se estão mais ou menos nervoso do que estava à espera, pode alterar o seu alinhamento em cima da prova?
Pode. E muitas vezes não é nervoso, é mesmo medo.

Como assim?
O nervoso num desporto como o judo é bom, mantém-nos alerta e é um sinal de respeito pelo adversário, porque se acharmos que vamos ganhar somos mais negligentes. O medo é quando percebemos que o atleta em vez de dizer que está nervoso e mostrar sintomas de nervosismo, estar irrequieto, estar instável quase emocionalmente, está com um discurso de medo de entrar lá dentro e receio daquele adversário.

Já lhe aconteceu ter atletas com medo?
Muitas vezes. E aconteceu nesta prova. Não vou dizer quem é o atleta, mas acabou mesmo por perder. Mas quando eu senti esse medo já tinha escalado a equipa senão teria voltado atrás. E senti esse medo quando o atleta me começa a dizer "Se calhar não vai entrar o A, vai entrar o B". Eu disse “Vai entrar o A porque o A é o mais forte, só se o treinador for pouco inteligente é que vai por o B”. Senti que ele estava com medo e acabou efetivamente por perder.

Qual foi o prémio?
35 mil euros, mas não vou dizer como foi distribuído (risos).

José Fenandes

Qual o próximo grande objetivo?
Em 2019 ganhar outra vez a Liga dos Campeões e para 2020 ganhar uma medalha nos JO de Tóquio, com os nossos atletas da formação.

Olhando para o panorama do judo nacional, o que falta para termos ainda melhores resultados a nível internacional?
O judo nacional faz o que pode, muitas vezes não se trata de competência ou não porque quando temos um país com uma base de recrutamento pequeníssima, como é o caso de Portugal, que tem 13 mil federados e desses só uma centena ou duas é que leva a coisa a sério, é difícil fazer melhor. A nossa base de recrutamento é uma migalha. No Japão, por exemplo, toda a gente que anda no secundário, na faculdade, que está na polícia ou no exército pratica judo, ou seja, a base de recrutamento deles é de milhões. O técnico que está a gerir aquilo nem tem de se preocupar muito porque é um bocadinho como o Brasil no futebol, toda a gente joga futebol, depois é só escolher o melhor, quase nem é preciso treiná-los. É mais ou menos isto.

Está a dizer que os nossos resultados são grandes feitos.
Os nossos resultados são enormíssimos face à realidade que nós temos no desporto e por inerência nesta modalidade. A França tem como desporto obrigatório nas escolas o judo. São criadas turmas de alto rendimento, que têm horas e professores específicos para poderem acompanhar a sua vida académica e não perderem nada em termos desportivos. Nós estamos a anos luz disto, isto não existe nem nunca vai existir em Portugal. Como é que nós podemos competir com isto? Nunca. Vamos vivendo aqui da carolice de alguns treinadores e de alguns atletas que estão dispostos a abdicar da vida pessoal, da vida académica, etc. em prol da modalidade.

Há muita gente que critica o facto de haver muitos estrangeiros nas equipas portuguesas. O que tem a dizer?
Vamos lá a ver, o Nikoloz Sherazadishvili, o Odbayar Ganbaatar e o Kherlen Ganbold não são portugueses e foram contratados para a Liga dos Campeões. Não sou eu que os treino durante o ano todo, sou eu que os treino durante este período que antecede a competição. Mas o David, o Anri Egutidze e o Jorge Fonseca são portugueses. O Jorge Fonseca é um sério candidato a medalha olímpica. É importante explicar que nesta prova só podem entrar dois atletas estrangeiros numa equipa de cinco. Nós não temos ninguém nos 90kg, não existe um 90kg com nível em Portugal, e seria extremamente injusto quer ao Sporting quer a outra equipa da Europa, não poder disputar legitimamente uma Liga dos Campeões porque lhe falta um peso e ir a coxear para aquela prova, quando nós temos os outros atletas que merecem vencer essa prova. É aí que entra essa regra dos estrangeiros, que ainda assim têm de ser escolhidos de forma assertiva e inteligente de maneira a serem uma mais valia.

O Sporting recentemente foi buscar dois atletas ucranianos. Porque não apostou em portugueses?
Isso foram contratações do gabinete olímpico do Sporting. Não foram contratações do judo do Sporting. Não os treino, nem sei quem os treina. Tem de falar com o gabinete olímpico, eu não pertenço ao gabinete olímpico.

Começou a praticar judo quando?
Com seis anos, na Damaia. O filho do meu padrinho, que era mais velho, praticava judo e aconselhou-me. Fui porque era uma modalidade praticada num barracão em frente à casa onde eu vivia na Damaia e portanto era só atravessar a rua.

Gostou logo do judo?
Um miúdo com seis anos quando começa a fazer judo não é propriamente o judo que o agarra a ser assíduo e a gostar de ir. São os amigos, a atmosfera, o convívio, o professor, são os jogos que se fazem, é a brincadeira.

Então quando começou a gostar do judo?
Eu percebi que gostava de judo e queria fazer judo o resto da vida quando representei pela primeira vez a seleção nacional, tinha 14 anos, num torneio em Espanha. Quando vestimos o fato de treino da seleção nacional sentimos que a coisa já é realmente um bocadinho mais séria. E aí acho que casei para o resto da vida com a modalidade. Até essa idade tive picos na minha relação com o judo. Nem sempre a pratiquei de forma assídua, pelo meio fiz outros desportos, joguei basquetebol, andebol, fiz atletismo, joguei futebol, tudo federado. quando representei a seleção também passei a aperceber-me que para ser bom só podia fazer judo e não quatro coisas ao mesmo tempo.

No seu percurso qual o título a que dá mais valor e porquê?
Há vários pontos altos na minha carreira e há vários picos de felicidade que não têm necessariamente que ver com a importância da competição em si. Por exemplo, eu fui campeão nacional de seniores com 17 anos. Era júnior ainda de primeiro ano, mas pelas regras estava autorizado a participar nos seniores, embora teoricamente nunca teria hipóteses de vencer. Não sendo um resultado megalómano, porque ser campeão nacional é uma coisa normal, um objetivo medio de um atleta de alta competição, fazê-lo com 17 anos, vencendo toda a concorrência, que era tudo homens, foi para mim um dia inesquecível. Mas se falamos de pontos altos da minha carreira, terei de falar do campeonato da Europa de juniores que venci, do torneio de Paris, que é uma das provas mais fortes, que também venci e do campeonato da Europa em 2012, onde ganhei duas medalhas porque participei na categoria de +100kg e na categoria aberta e que é um resultado que ainda hoje está na história do desporto português, porque fui o primeiro a conseguir vencer duas medalhas no campeonato da Europa em duas disciplinas diferentes, no mesmo fim de semana. Resumiria assim.

Como passa a treinador. Era já um objetivo?
Acaba por ser uma consequência lógica daquilo que foi a minha carreira. Eu terminei a minha carreira com 28 anos, mas aos 25/26 anos, por razões de ordem financeira comecei a dar aulas de judo. E quando acabei a minha carreira dava mais aulas ainda, a miúdos, em colégios. A coisa foi crescendo mas na altura ainda não percebia se era por grande paixão se era porque tinha de trabalhar para ganhar dinheiro. Quando começo a perceber que tinha uma grande paixão pela carreira de treinador é quando venho para o Sporting, em 2007. É onde começo a conseguir juntar o meu sentimento pelo clube, já era sportinguista, sou sócio há 30 anos, ao meu desporto. Tirei vários cursos, tenho o curso de nível III que é o que permite ser treinador de atletas olímpicos.

E a escola onde ficou no meio disso?
Eu ainda fiz dois anos do curso superior de Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa. Em 1995 optei por congelar o curso porque tinha de passar a pagar propinas, que ainda era um valor considerável e eu estava a preparar os JO de Atlanta 96. Na altura parecia-me lógico apostar tudo no judo. Congelei o curso para não ter de pagar propinas e porque ia treinar para o Japão. E nunca mais descongelei o curso (risos).

Como foram as experiências dos JO, primeiro em Atlanta e depois em Sydney?
Eu fui aos JO de Atlanta com 21 anos e senti que era jovem demais. Tinha um potencial enorme, era apontado como um candidato às medalhas, mas eu hoje como treinador tenho a perfeita noção de que quem conseguir tirar mais partido do ciclo olímpico e conseguir encher mais o seu balão nesses quatro anos é aquele que melhor preparado vai para os JO. Eu vou 21 anos, ou seja, com dois anos de junior e só com dois anos de sénior. Mas mesmo assim fiz uma grande olimpíada, porque realizei quatro combates, venci dois e perdi dois. Perdi com o campeão olímpico que ganhou em Atlanta e perdi na repescarem com o campeão olímpico dos JO de Barcelona. O sorteio não poderia ter sido pior. Pelo meio venci um alemão e um cubano. Na altura não havia cabeças de série como há agora a afastar os melhores, caso houvesse eu seria cabeça de série porque me qualifiquei muito bem para esses JO. Para os JO de Sydney tive 'n' lesões, uma operação à cervical, aos joelhos, portanto estive parado mais de metade do ciclo olímpico. Volta-me a faltar o tal balão cheio. Os combates não me correram tão bem. Posso dizer que não subi ao pódio mas estive lá a disputá-lo, não passei ao lado.