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Frederico Ricardo: “Desde que cheguei ao FK Senica, há um eslovaco atrás do banco, de cachecol da nossa seleção, a gritar 'Eusébio'”

Aos 39 anos, Frederico Ricardo é o primeiro treinador português a colocar uma lança no futebol eslovaco. Nascido em Bragança, residente em Fafe, onde foi adjunto do clube local durante nove anos, emancipou-se em julho, quando partiu à aventura rumo ao banco do FK Senica. Cinco meses depois, deixou a equipa de trampolim de jogadores em 10º lugar na Fortuna Liga, competição que para durante dois meses devido aos rigores do inverno. Conta que na Eslováquia os locais olham de esguelha para os estrangeiros, embora sinta a simpatia dos adeptos por ser português. Graça que se deve a Ronaldo e também a Eusébio, ainda uma referência entre os mais velhos

Isabel Paulo

Rui Duarte Silva

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Como foi parar à Eslováquia?
Tinha a ambição de ir treinar lá fora, mas sobretudo de orientar uma equipa da I Divisão. Comecei por ser treinador da formação do FC Porto, estive nove anos como adjunto no Fafe e achei que era chegada a hora de me emancipar num clube das ligas profissionais.

Tem empresário?
Não, mas relaciono-me com quatro ou cinco que me vão apresentando propostas. Quando surgiu o convite para treinar o FK Senica, tinha uma proposta para ir para a China, um contrato de dois anos, mas não queria ir já para tão longe. Preferia ficar na Europa, numa equipa da I Liga, que é sempre importante para o currículo. Quando por acaso surgiu a oportunidade de ir para a Eslováquia ainda pensei que era demasiado longe, mas informei-me e vi que afinal fica a três horas de avião de casa. Nem hesitei. Nesta vida de treinador, é preciso agarrar as oportunidades, é um dia de cada vez.

Conhecia o FK Senica?
Nem por isso. Sabia que poucos dias antes o clube tinha sido comprado por um empresário venezuelano e estava a organizar-se. Fui a uma reunião a Viena com o manager da equipa, o holandês Ton Caanen, fiquei convencido e abalei, em julho, já decorridas quatro jornadas do início da Fortuna Liga.

Esteve nove anos no como adjunto no Fafe...
Estive duas épocas na formação do FC Porto, depois fui como adjunto para a II divisão, para o Fafe e estive uma temporada no S. Martinho - e sou o primeiro português a treinar na Eslováquia. Lá acham graça a isso, embora não valorize muito esta situação de pioneiro, pois já há treinadores portugueses mundo fora.

Senica fica longe da capital?
A 55 km de Bratislava. É uma cidade fantástica, Senica é pequena, tipo Maia. Pelo que percebi, muita gente trabalha em Bratislava, mora em Senica, e fica relativamente perto de Viena e Budapeste.

Dá para fazer turismo?
Um bocado. Jogamos sempre ao sábado, treinamos ao domingo de manhã e temos folga à segunda-feira. Já fui a Viena e Budapeste de TGV. Costumo dizer que estão ao nível do Porto, cidade de que gosto muito.

Foi sozinho?
Fui. Tenho duas filhas, uma de sete e outra de 14 anos, andam no colégio em Fafe, onde vivemos, e era complicado estar a mudá-las de escola, numa profissão em que passado um mês podia ser despedido. Se um dia tiver um contrato de dois ou três anos anos, será diferente. Mesmo assim é um risco, que isto de projetos no futebol... Dependemos dos resultados. O que importa é ganhar. Mas tenho colegas argentinos cujos filhos frequentam colégios ingleses em Bratislava.

Tem contrato por quanto tempo?
Um ano, embora isto esteja sempre a mexer. O meu clube é uma loucura. É de um único proprietário e não têm bem a noção do que é o futebol. O campeonato são 12 equipas, só uma é que desce, e na segunda fase seis jogam um play-off para a subida e as restantes para não descer. Estamos em 10º lugar e o objetivo é a manutenção e fazer boa figura na Taça. Esta época somos a surpresa da Taça, depois de termos eliminado os dois favoritos e estamos nos quartos-de-final. Outro dos objetivos, claríssimo, é vender jogadores.

O FK Senica teria lugar na Liga NOS?
Somos um clube ao nível do Moreirense ou do Chaves, e a prioridade é ir buscar jogadores a divisões inferiores e valorizá-los para vender. Quando cheguei, todos as semanas recebiam jogadores novos. Era uma loucura, pois não conseguíamos fazer uma equipa, daí ter sentido muitas dificuldades no início. E no balneário há sempre jogadores de oito, nove ou 10 nacionalidades: venezuelanos, argentinos, colombianos. croatas, franceses, cabo-verdianos, portugueses...

Quem são os portugueses?
O Zezinho, que fez a formação no Sporting e é capitão da seleção da Guiné-Bissau, e o Kay, cabo-verdiano, que jogou no Belenenses.

E eslovacos...
Poucos, o que não agrada muito aos adeptos. Lá são muito nacionalista, não como nós. Os eslovacos são humildes e trabalhadores, mas só aceitam bem estrangeiros quando são muito bons. Se forem do o mesmo nível do que os locais, têm reservas. A tarefa do nosso manager, um pouco ao estilo inglês, tem por tarefa principal andar Europa fora a oferecer e recrutar jogadores, alguns à experiência, daí ser difícil formar uma equipa com espírito de grupo. Em geral, os jogadores são bastante individualistas, pensam primeiro neles do que na equipa, pois sabem que estão de passagem à espera de serem vendidos. Como digo, não estou num clube normal, é complicado incutir um espírito de equipa.

Rui Duarte Silva

E tem menos autonomia do que cá em escolher jogadores?
Cheguei em andamento e herdei uma equipa. Desde aí, observámos 10 jogadores com determinado perfil: apresentam-nos, falam connosco e decidimos em conjunto. Agora vamos contratar um jogador à experiência da II divisão francesa, vou analisar se vale a pena arriscar.

Levou equipa técnica?
Não, eles já tinham um técnico do clube, um treinador de guarda-redes, também eslovaco, e um adjunto argentino, que fiz questão de conhecer primeiro - e aceitei, sem problemas. Mas, no futuro, terei a minha equipa, formada por técnicos que conheço e com quero trabalhar. Desta vez foi tudo rápido.

Onde vive?
Inicialmente num hotel, agora numa moradia.

Comunica em inglês?
No balneário há duas línguas oficiais: inglês e espanhol. No dia-a-dia, inglês, embora só os mais novos falem, enquanto os mais velhos nem querem saber se percebes ou não o que dizem. Já passei por situações curiosas. Fui a um restaurante por volta das 21h com uns colegas, não percebi nada da ementa e escolhi quase à sorte. Chegou as 21h30 e puseram-nos na rua. Protestámos que ainda estávamos a começar, mas não quiseram saber. É hora de fecho, e fecham. Não é como aqui, que até fecham a porta mas têm a simpatia de deixar o pessoal à vontade. Já aconteceu ir ao banco, que encerra às 12h30, cheguei uns minutos mais cedo, expliquei que era só uma informação e a resposta foi taxativa: “Venha às 14h”. É surrealista.

Por serem estrangeiros?
É sobretudo cultural, embora já tenha sentido nos cafés, quando estou a falar inglês ou espanhol, num restaurante a falar em inglês ou espanhol, em que nos olham com alguma desconfiança. Em Bratislava já é diferente, é uma cidade mais aberta, mais cosmopolita...

Quem são as estrelas do futebol eslovaco?
Gostam do Marek Cech, que jogou no FC Porto e faz comentários para a televisão. Estive com ele o outro dia e ainda fala português. O herói é o Hamsik, a estrela do Nápoles.

Vive-se o futebol com a mesma paixão do que cá?
Lá a modalidade principal é o hóquei no gelo. Vivem intensamente os dias dos jogos. É como ir à missa. Começam logo de manhã com uns churrascos e convivem até à hora do jogo. Quando fomos jogar com o campeão, o Slovan Bratislava, estava toda a gente à espera de uma goleada e empatámos. Fui capa do jornal, mas a meias com um dos treinadores do hóquei no gelo. O jornal desportivo mais importante da Eslováquia tem 30 páginas, 15 são para o hóquei no gelo, 10 para o futebol e o resto para as restantes modalidades. O campeão do mundo de ciclismo, Peter Sagan, é eslovaco, têm muito orgulho nele, mas nada que se compare aos jogadores de hóquei.

O que mais o surpreendeu na Eslováquia?
Confesso que não tinha grandes expetativas e fiquei surpreendido pela positiva. Em termos de serviços, não falta nada. É uma cidade tranquila, as pessoas vão de bicicleta para o trabalho, vives tranquilamente e a qualidade de vida é boa. O nível de vida é mais barato do que cá, o custo dos transportes públicos é baixo. A exceção são os produtos importados. Costumo almoçar por €4, refeição completa, mas pago por um cappucino €3 e €3,5 euros por uma Coca-Cola. E olharam-me de lado quando pedi capuccino: “Um capuccino ali para a woman”. Em Bratislava já é tudo mais caro...

É verdade que lhe foi imposto um sistema de jogo 3x5x2?
Tinham essa tradição de modelo de jogo, comum a todos os escalões desde as camadas jovens. Era uma indicação, não uma imposição. Agora até estamos a jogar agora em 4x4x2. As características dos jogadores não dava para jogar daquela forma.

Ou seja, faz sentido um modelo comum num clube que privilegie os jogadores da casa...
Sim, mas não é o nosso caso, já que a rotatividade de jogadores é muita e a meta principal vender.

Os portugueses foram consigo?
Não. O Zezinho já lá estava e o Kay chegou depois. Já o conhecia do campeonato português, precisávamos de um jogador com a experiência porque tínhamos problemas defensivos.

Os adeptos apoiam a equipa, apesar de os jogadores não aquecerem lugar?
Apoiam, mas não com o mesmo fervor clubístico de cá, apesar de quase todas as equipas da Fortuna Liga já terem sido campeãs nacionais. E todas têm internacionais, muitos sub-21 nacionais ou vindos de países próximos como a Croácia, Áustria e também de Itália, Holanda, cujos clubes põem lá os jogadores a rodar por empréstimo. Depois regressam aos clubes de origem ou vendem-nos. Os jogadores eslovacos são tecnicamente muito bons. Na minha equipa tenho três internacionais sub-21 eslovacos. Das seleções principais, além do Zezinho, tenho está o Segbé, francês mas que joga pelo Benin e pode ser apurado para a CAN. Os pontas de lança das melhores equipas tinham lugar aqui em Portugal. E são bem pagos...

Financeiramente compensa ser técnico do Senica?
Compensa. Ganha-se ao nível dos clubes do meio da tabela de cá.

Rui Duarte Silva

Há grandes rivalidades, como entre o Benfica e Sporting ou FC Porto?
Não tanto. Aqui marcam um golo e é o fim do mundo. Lá festejam o golo, claro, mas passados 10 segundos está a festa feita. No princípio estranhei: “Já está? O que é que se passa aqui?”. É só um jogo, sem paixão de maior. Antes e depois do jogo, eu e o treinador adversário fazemos a conferência de imprensa em conjunto. Aqui tenta-se fazer isso na Taça da Liga. O espírito é outro.

É mais saudável...
Por um lado, é, mas sinto que falta alguma chama, falta qualquer coisa.

E dentro de campo?
Há menos agressividade competitiva, há mais tempo de jogo jogado, há preocupação em jogar bem. Sendo português, o que valida a minha ideia de jogo são os resultados. Claro que se puder ganhar jogando bem, melhor.

Como diz o Sérgio Conceição, se querem espetáculo vão ao Coliseu ou Sá da Bandeira.
Vão ao teatro. Já tentei chegar à beira dos meus jogadores quando jogamos com equipas melhores e pedir para terem mais contenção, eles não aceitam. O jogador quer jogar, não aceita muito bem ficar à espera.

E em relação à arbitragem, também existe um clima de permanente suspeição?
Os árbitros portugueses são os melhores do mundo. Nunca pensei dizer isso. Conheço muito bem o futebol português da III à I Divisão, por isso digo que na Eslováquia é 10 vezes pior do que aqui. Quando jogámos com o Slovan, o campeão, em cinco minutos estávamos a ganhar por 2-0. A partir daí, numa mais pudemos tocar num jogador adversário. Era logo falta. A proteção aos grandes é flagrante. Há muita injustiça, tão grande que houve uma série de queixas à federação. Tivemos sete situações de penáltis evidentes, do tipo de jogarem a bola com a mão na nossa área, e nada. Fizemos uma exposição. Já houve quatro árbitros que após jogos nossos foram de castigo relegados dois meses para a II divisão. O meu treinador de guarda-redes, que é eslovaco, explicou-me que os dois clubes que vão à frente são sempre beneficiados. Como antigamente quando as equipas mais pequenas iam jogar à Luz ou às Antas e não quase passavam do meio-campo.

Não há VAR?
Não. Mas o campeonato é muito bem organizado. E os clubes têm estádios fantásticos, com centros de estágio. Outra das grandes diferenças é que maioria das equipas do escalão principal são de clubes-empresa, detidos por um só dono. Acho que o SK Seniva foi comprado por €200 mil, basta vender um jogador para recuperar o que investiu. O lado bom é que investem muito nas condições de trabalho. Temos dois campos relvados e um sintético coberto para quando neva -já apanhei temperaturas de 18 graus negativos. Os impostos também são mais baixos e todos os jogos têm transmissão televisiva em canal próprio da Fortuna Liga, com todas as equipas tratadas por igual.

O treinador português está bem cotado?
Há respeito pelo futebol português, pelos seus treinadores. Cristiano Ronaldo é incontornável, Ronaldo é a primeira palavra que me dizem quando sabem que sou português. Com exceção de um sócio idoso, que nas redes sociais do clube é apresentado como o fã nº1. Desde que cheguei vai para trás do banco com um cachecol da seleção portuguesa gritar 'Eusébio'. Sempre que me vê fala-me do Eusébio. Os diretores de clubes ou mesmo pessoas que gostam mas não estão ligadas ao futebol, conhecem a maioria dos clubes, não só os grandes, mas o Braga, o Guimarães, Académica.

Tem algum treinador-modelo?
As minhas maiores referências são treinadores portugueses, como o José Mourinho, Jesualdo Ferreira, Marco Silva, Luís Castro, Sérgio Conceição Paulo Fonseca, Vítor Oliveira e Agostinho Bento.

O que faz no dia-a-dia?
Treino de manhã, depois a equipa almoça sempre junta, e vejo muitos jogos. Sigo os campeonatos todos e estou sempre a 'cadastrar' jogadores e a fazer listas. E faço uma hora de corrida por dia, como já fazia cá.

Como comunica com a família?
Videochamadas, redes sociais. Falo todos os dias com as minhas filhas. A separação da mais pequena foi complicada. Sempre que posso venho dois ou três dias para não sentirem muito a ausência. E leio os jornais todos online. E tenho duas ou três vezes por semana aulas de inglês, já falava mas quero ser mais fluente. Francês não tenho dificuldades, que os meus pais foram emigrantes lá 30 anos.

Com quantos anos veio?
Não fui com eles, nem a minha irmã. Ficamos a cá viver em colégios privados, mas íamos nas férias.

E eslovaco, já arranha?
Só o básico, tipo bom dia, obrigado. Aquilo é chinês.

Do que sente mais saudades?
De penas coisas, do pão, da água natural, que não é simples de arranjar pois é quase toda com gás. Ir ao café com os amigos, comida tradicional portuguesa: rojões com castanhas, uma boa posta, alheiras, francesinha... Lá há pratos muito esquisitos, misturam leite, queijo e usam muitos picantes. Não suporto picante e tive uma praxe, quando fomos para estágio: o roupeiro resolveu colocar picante no esparguete à bolonhesa. Ia morrendo. Para eles é normal. O que me safa é que a sopa é muita parecida com a nossa. E há várias pizzarias italianas. E bebem muito álcool...

Vodka...
Dos mais novos até aos mais velhos. Senhoras de 70 anos, nos cafés, bebem aos três, quatro, cinco copos. E começam logo de manhã. E absinto puro, que nem sei o que é desde os tempos das 'queimas' quando era estudante de Educação Física. Em Bragança, o meu avô quando ainda era miúdo dizia que se quisesse ser homem tinha de beber um bagacinho para aquecer. Mas era um bocadinho. Pedem-me para levar vinho português, Vinho do Porto.

Continua a seguir os casos judiciais do futebol português, como o e-toupeira?
Continuo, embora um bocado farto. Estamos a estragar o que é bom no nosso futebol. Gosto do jogo e do treino, o que se passa em redor faz-me pena. Quem manda agora no futebol são os empresários. Não tenho dúvida nenhuma. Todas estas polémicas são ditadas pelo dinheiro. É uma pressão tremenda sobre os treinadores em valorizar jogadores para vendê-los. Esquecem-se que primeiro é preciso formar uma equipa e os dirigentes muitas vezes não pensam nisso. No FK Senica já me disseram que preferem perder 4-0 e vender um jogador. Eu respondo que não, pois sem resultados nem se valorizam os jogadores e sou eu que vou embora. A minha luta é essa. Quero ser alguém no futebol, de preferência em Portugal, mas não me importo de ir treinar para a China ou para o Qatar.