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A vida idílica de um treinador português na Islândia: “Aqui os diretores de comunicação não têm direito de andar a falar. Fala-se do jogo”

Em 2017, quando o convidaram para treinar na Islândia, Pedro Hipólito mudou-se de armas e bagagens. Subiu da 2ª para a 1ª divisão, trocando o Fram Reykjavik pelo ÍBV, e vai estrear-se oficialmente na nova época este sábado, para a Taça da Liga local: "O mercado islandês é um mercado que quer aprender e nós em Portugal temos muito conhecimento sobre o futebol e temos muita capacidade de ensinar e de fazer muito com pouco"

Mariana Cabral

Pedro Hipólito (ao centro), na Islândia

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O IBV esteve em pré-época e agora vai começar a Taça e não o Campeonato. É isso, não é?
Sim, vamos começar pela Taça da Liga. O Campeonato só começa no fim de abril. Primeiro é a Taça da Liga, que vai até finais de março. Depois o Campeonato vai até final de setembro e, pelo meio, também há a Taça da Islândia.

Tudo preparado para a estreia na nova época?
Não... Não poderemos utilizar a maioria dos jogadores agora, isto é, aqueles que vêm do estrangeiro, porque, por lei, só podem ser inscritos a 21 de fevereiro. Portanto, este primeiro jogo será sempre um bocadinho a feijões. Só a partir de 21 de fevereiro é que podemos utilizar todos os jogadores. Até lá temos de aguardar e jogar com o que temos.

Como estão a correr as coisas no IBV?
Bem. Infelizmente o IBV cometeu alguns erros no passado, o que levou a que o budget tenha sido encurtado, porque há que reorganizar o clube e, ao mesmo tempo, ter uma equipa capaz de competir e de lutar pelos objetivos. Mas, neste momento, estamos a tentar reorganizar tudo, para dar mais equilíbrio ao clube, financeiramente e desportivamente.

O IBV é então uma equipa de meio da tabela? Capaz de lutar pela Europa?
Sim, é de meio da tabela, mas, para já, não estamos em condições de poder lutar pela Europa. Lá mais para a frente, quando conseguirmos equilibrar as coisas, muito bem. Para já, não vejo o IBV a lutar pelas competições europeias.

Como é que foste parar à Islândia?
Através do meu advogado, Rui Alexandre Jesus, que tinha alguns contactos aqui e perguntou-se se estaria interessado em vir. Aceitei, passei uma semana cá e gostei daquilo que vi. Achei que era uma excelente oportunidade, não só a nível profissional, mas também a nível pessoal.

Não é um mercado muito comum para os treinadores portugueses.
Não é, mas o mercado islandês é um mercado que quer aprender e nós em Portugal temos muito conhecimento sobre o futebol e temos muita capacidade de ensinar e de fazer muito com pouco. Eles, aqui, estão abertos a aprender, estão abertos a novas culturas e querem continuar a desenvolver-se no futebol, porque nos últimos anos têm crescido muito, como se tem visto pelas prestações da seleção islandesa. Querem continuar a crescer e foi nessa base que vim para cá, percebendo também que aqui posso crescer e posso ajudar.

Que nível há na Liga islandesa? Já há profissionalização total?
Há quatro ou cinco clubes completamente profissionais, os outros são mais semiprofissionais. O Valur, que é a equipa bicampeã, é a mais forte da Islândia e este ano aposta forte em entrar na fase de grupos das competições europeias [o campeão islandês participa na 1ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões]. É um clube que já tem outra capacidade financeira em relação aos restantes. Depois há duas ou três equipas que lutam diretamente com eles, que tem capacidade semelhante, e que também vão procurando as competições europeias, como aquela equipa que jogou com o Braga há dois anos e até se bateu bem [o FH Hafnarfjördur, que o Braga eliminou para chegar à fase de grupos da Liga Europa, ao vencer por 2-1 na Islândia e 3-2 em Portugal]. O futebol islandês não é visto em Portugal, mas o nosso futebol português também não é visto aqui. Este é um futebol que está em crescendo e que já tem qualidade e competitividade. O jogador daqui é muito competitivo e é muito forte mentalmente, é um bocadinho a imagem do islandês.

Quando estive no Europeu, o selecionador islandês dizia que os adeptos locais gostavam era de seguir a Liga inglesa. Continua assim?
É, exatamente. Todos os islandeses têm um clube inglês do qual são adeptos, têm uma proximidade grande à Liga inglesa. É o grande foco deles, além da Liga local. Eles de Inglaterra sabem tudo. Depois também sabem um bocadinho de Espanha, porque os islandeses vão muito para Espanha, têm casas de férias lá. O nosso futebol é que não seguem tanto, para não dizer nada mesmo [risos].

Questionam-te sobre o futebol português?
Sim, fazem perguntas para saber como é o nosso futebol, porque o que conhecem é mais os treinadores que estão lá fora e as vendas de milhões que o futebol português consegue produzir, ou seja, não é o futebol em si, são os negócios e as trajetórias dos jogadores e dos treinadores. Sobre o futebol em si, não têm muito interesse.

Ultimamente tem havido uma série de acontecimentos menos felizes no futebol português...
Infelizmente essas más notícias chegam aqui. O problema que se está a passar com o Benfica chegou aqui, o problema na Academia do Sporting chegou aqui, o problema com o Bruno de Carvalho chegou aqui... Infelizmente isso tudo chegou aqui. Felizmente, também chegam algumas boas notícias em relação a jogadores e treinadores. Pena é que não chegue também em relação aos dirigentes, mas isso são coisas que não podemos controlar. É triste. Perguntaram-me o que é que se andava a passar em Portugal para haver tantas polémicas.

Imagino que as metodologias de treino e as formas de jogar sejam algo diferentes aí. Como foi a adaptação?
Sim, de facto é diferente e tive de me adaptar. Eles têm uma forma de pensar completamente diferente, mas a verdade é que estão abertos a novas formas de pensar, portanto não foi assim tão difícil. Eles estão abertos a aprender e a conhecer, tanto no treino como no jogo, e eu também, portanto houve aqui uma boa conexão entre as minhas ideias e a minha forma de pensar e as deles. Há abertura de ambas as partes para encaixar e encontrar a melhor forma de treinar, jogar e evoluir.

Consegues exemplificar o que tentaste mudar?
Tirando os tais melhores clubes islandeses, a maioria dos clubes aqui é semiprofissional. Em Portugal, a maioria dos clubes, até no Campeonato de Portugal, é profissional, portanto há muitas vezes treinos bidiários, treinos específicos, uma série de coisas que eles aqui não têm. Portanto, para haver uma aprendizagem e uma evolução mais rápida, teve de haver mais treinos, mais treinos específicos e mais treinos com conteúdo tático, que era algo que não faziam muito. Eles perceberam e aceitaram. São semiprofissionais, portanto é um treino ao final do dia, mas tentei que a mentalidade passasse a ser mais virada para o profissionalismo e para o treino.

Treinam todos os dias?
Sim, treinamos todos os dias e algumas vezes também treinamos duas vezes por dia.

E o jogo é tradicionalmente muito direto?
Já não é tanto assim, está um bocadinho diferente. Há muitas equipas a jogar em 4-3-3 e gostam de sair a jogar. As melhores equipas têm um futebol muito parecido ao nosso [português], com um jogo apoiado. Também há muitas equipas que apostam muito no contra ataque rápido, por exemplo. Não é só jogo direto. Claro que alguns aproveitam o físico para fazer isso, com o 4-4-2, mas é um campeonato engraçado porque há muitos estilos diferentes, não é sempre a mesma coisa.

Há diferenças grandes entre o nível técnico na Islândia e em Portugal?
Sim, nós somos mais técnicos. Eles são mais físicos. Mas a grande diferença até acaba por ser o conhecimento do jogo. Os nossos jogadores têm um nível mais alto em termos de conhecimento do jogo, eles aqui ainda estão a desenvolver isso.

Então os portugueses do IBV - Rafael Veloso, Diogo Coelho, Telmo Castanheira - são os reis disso.
Não [risos], não são os reis, mas são jogadores importantes para a equipa. Além dos portugueses, também temos ingleses, temos um jogador belga, ou seja, temos jogadores de vários países que dão mais alguma qualidade, e também temos alguns jogadores islandeses de qualidade.

Como é a tua vida aí?
Estou com a minha família, portanto estou aqui bem. Trabalho, estou com a família, desfruto da Islândia e aproveito ao máximo esta experiência.

O que tem sido mais difícil?
A maior dificuldade é claramente o tempo, o clima. Muitas vezes não podemos fazer a nossa vida normal lá fora, como costumamos fazer em Portugal, temos de ficar mais por casa. De resto, não há problema nenhum. E os treinos, no inverno, são indoor. Temos um campo fechado onde costumamos trabalhar. Depois, no verão, quando melhora o tempo, já trabalhamos lá fora.

Se calhar até passas menos frio do que aqui.
Exatamente [risos]. Não há vento nem chuva.

Quais são os objetivos do IBV esta época?
É fazer o melhor possível no campeonato e tentar uma gracinha na graça, caso haja sorte no sorteio. Agora na Taça da Liga é difícil, porque não temos a equipa toda, mas na Taça da Islândia vamos tentar essa gracinha.

Este já será o teu terceiro ano na Islândia. Não estás a pensar voltar a Portugal?
Não, para já, não. Estou a gostar da experiência e se puder continuar no estrangeiro nos próximos anos irei fazer por isso. O clima ultrapassa-se bem. Se puder, ficarei por fora.

Por que razão?
Porque acho que a experiência de estar no estrangeiro, aprender com as pessoas, poder desfrutar de um país, acho que posso crescer mais rápido assim e dá-me mais prazer estar aqui, é mais motivante. Hoje olhamos para o futebol em Portugal e... não me motiva tanto. Prefiro ter esta experiência e continuar por aqui.

Mesmo assim acompanhas o futebol português?
Acompanho, claro, tento sempre acompanhar. Mas o futebol em Portugal é um jogo de poder, infelizmente. Hoje, quem estiver no poder tem de ser destruído para outro alguém ir para o poder também. Não se fala de mais nada a não ser quem é o beneficiado, quem é o prejudicado, quem é que pagou a quem, qual foi o jogador que facilitou para o grande ganhar... Hoje em dia ninguém respeita ninguém no futebol português. Ainda bem que lá vão aparecendo uns João Félix ou outros quaisquer para realmente mostrar o valor que há no futebol em Portugal, porque os nossos dirigentes e os nossos diretores de comunicação estão a matar o futebol.

Imagino que aí não haja esse tipo de envolvimento.
Não, nada, nada, nada. Aqui, felizmente, os diretores de comunicação não têm direito de andar a falar [risos].

Mas há interesse pelo futebol em termos mediáticos?
Muito, muito. São apaixonados pelo futebol, respiram futebol. Há muita gente aqui que viaja regularmente para Inglaterra para ir ver jogos da Premier League. Há vários programas de televisão e de rádio sobre a Liga islandesa, que é muito vista, todos os jogos passam na televisão. Depois há documentários e coisas do género, e há sempre o acompanhamento diário.

Há diferença nos termos em que o futebol é tratado?
Analisam o jogo, falam muito do jogo e pouco se fala de arbitragem. Estão mais preocupados em analisar o que aconteceu no jogo, o que é que o treinador poderia ter feito, falam dos jogadores, quem foi bom, quem foi mau... Podem também analisar os casos, mas não lhes dão grande enfâse.

Quando perdes já sabes que não vale a pena desculpares-te com o árbitro.
Não, aqui não [risos].