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Ticha Penicheiro: “Conheci o Magic Johnson, um ídolo, e quando percebi que ele sabia o meu nome e como eu jogava... fiquei de boca aberta”

A antiga basquetebolista portuguesa, considerada uma das melhores bases de todos os tempos, foi nomeada para fazer parte do Women's Basketball 'Hall of Fame', distinção que a deixa orgulhosa e honrada. Afastada há seis anos da WNBA, ainda detém o segundo melhor registo de assistências da história da competição. Fã de Cristiano Ronaldo, garante que não foi tocada por nenhuma varinha mágica quando nasceu e que tudo se deve a muito trabalho, sacrifício e, claro, alguma sorte

Alexandra Simões de Abreu

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Que significado tem esta nomeação para o Hall of Fame?
É um grande orgulho saber que o meu trabalho durante toda a carreira é reconhecido pelo Hall of Fame. Quem entra no Hall of Fame são pessoas que contribuíram de maneira excecional para o basquetebol feminino e ver o meu nome ao lado de tanta gente que o fez era impensável para mim quando cheguei aos EUA. Nunca pensei que a minha carreira me levasse tão longe, por isso, na verdade é um grande orgulho e estou bastante honrada.

Tem um significado maior do que o campeonato da WNBA que conquistou em 2005 com as Sacramento Monarchs?
É diferente. Nós jogamos para ganhar campeonatos, é um desporto coletivo e o título é uma vitória de uma equipa e de uma cidade. Este é individual, mas se cheguei onde cheguei foi por causa dos treinadores e das colegas de equipa, que me ajudaram a ter a carreira que tive. Era impossível chegar aqui sozinha. É difícil comparar, são coisas distintas. Ganhar um campeonato, ainda por cima o da WNBA que é a liga mais competitiva do mundo, é o que todos as atletas querem.

Ticha Penicheiro, em criança, quando começou a jogar basquetebol

Ticha Penicheiro, em criança, quando começou a jogar basquetebol

D.R.

Foi considerada durante anos a melhor base de todos os tempos da WNBA. O que é preciso para ser uma boa base?
Trabalhar e ser uma líder dentro e fora do campo. Nós somos muitas vezes a ponte entre o treinador e as colegas de equipa. Temos de mandar no pessoal todo, dizer onde é que têm de estar. Há várias maneiras de liderar e sempre gostei de liderar com as minhas colegas e não ser uma ditadora. Eu tentava liderar por exemplo, por isso tentava ser sempre a que trabalhava mais, a que dava sempre tudo nos treinos e nos jogos.

Quando é que percebeu que é uma líder?
Acontece naturalmente. É uma coisa que uma pessoa tem ou não tem. Desde pequenina que jogava com os rapazes e muitas vezes tinha que lutar para mostrar que pertencia a jogar com eles porque, lá está, era uma rapariga e estava a tentar jogar basquetebol com eles. Nunca conheci uma base que não fosse líder, é algo natural que vem com a posição. Desde pequena sempre foi a posição em que joguei, porque temos de chamar as jogadas que vamos fazer no ataque, controlar a defesa. Eu conseguia falar e chegar às minhas colegas de equipa e também tentava ser o exemplo e ser a jogadora que trabalhava mais.

Alguma vez se chateou mais a sério com alguma colega de equipa ou adversária?
De certeza que havia desentendimentos, mas eu tentava sempre fazer as coisas no um a um. Às vezes uma pessoa lidera com gritos no calor da situação, mas eu esperava para chegar ao balneário para falar com a jogadora ou com a minha colega diretamente, sem expô-la se algo tivesse corrido mal.

A posição de base surgiu naturalmente ou foi o seu pai, que era treinador, que a encaminhou para aí?
Sinceramente não sei. Eu era muito pequenina até aos 14, 15 anos e depois dei um salto. Geralmente os mais pequeninos é que jogam a base, eu de repente cresci até 1,80m e era uma das bases mais altas da WNBA. Geralmente as bases andam por 1,60 e tal 1,70m. Mas eu adorava driblar, adorava ter a bola nas mãos, acho que foi uma coisa que veio naturalmente, sempre foi a posição em que joguei. Muitas vezes há jogadoras que mudam de posição ou porque os treinadores acham que elas têm mais jeito para jogar a poste do que a extremo ou vice-versa e aquela sempre foi a posição em que joguei desde o primeiro dia.

Ticha Penicheiro durante um jogo da equipa da Universidade de Old Dominion, dos EUA

Ticha Penicheiro durante um jogo da equipa da Universidade de Old Dominion, dos EUA

D.R.

Foi para os EUA com 19 anos, foi muito difícil largar a família e amigos?
Eu saí de casa com 16 anos, porque antes de ir para os EUA estive a jogar com a seleção em Rio Maior, num projeto pioneiro da federação que concentrou todas as jogadores da seleção de cadetes. E depois joguei na União de Santarém antes de ir para os EUA. Em Rio Maior estávamos todas juntas e em Santarém dividia apartamento com duas colegas. Estudava no ISLA de Santarém, na universidade e nunca estava sozinha. Quando fui para os EUA também vim com uma colega moçambicana e um ano mais tarde veio a Mery Andrade, portanto tive sempre um apoio. Mas não foi fácil deixar a família, os amigos, a minha cidade e ir para um país completamente desconhecido. Foi uma aposta minha e foi um passo no escuro porque não sabia se ia resultar.

A que foi mais difícil adaptar-se nos EUA?
Às horas de treino, a estudar em inglês, as aulas eram todas em inglês, eu já falava bem, mas é completamente diferente falar no dia a dia e poder dar pontapés na gramática, e estudar numa universidade, em inglês. Muitas vezes tínhamos treinos às seis da manhã, antes de irmos para as aulas; os treinos eram de três horas, completamente diferente do que eu tinha vivido em Portugal. Mas sou uma pessoa que me adapto fácil. Embora, claro, havia dias que eram difíceis, em que sentia saudades e não era como hoje que agarramos no WhatsApp ou no Facetime e vemos a família. Eu tinha de escrever cartas aos meus pais, colocá-las no correio e falávamos ao telefone só de vez em quando porque era muito caro. Mas faria tudo outra vez exatamente da mesma maneira.

Quando vai para a universidade de Old Dominion foi com uma bolsa. Como é que a conseguiu?
Eu fui recrutada pela universidade com oferta de bolsa de estudo completa. Quando eu tinha 16 anos e estava em Rio Maior, competimos no campeonato da I divisão e uma americana que jogava na escola, na Amadora, que se chama Alison Green, de repente voltou para os EUA e tornou-se treinadora adjunta da Old Dominion. Ela disse à treinadora principal: "Tens de ver esta miúda que vi em Portugal a jogar há dois anos. É muito boa e acho que ela nos podia ajudar". Foi por aí que começou o processo de recrutamento pela Old Dominion.

Porque é que escolheu fazer um curso de Comunicação Social nos EUA?
Porque pensava que no dia em que me retirasse do basquetebol queria continuar ligada à modalidade. Pensei que sendo jornalista desportiva podia cobrir o basquetebol. Entretanto as coisas mudaram um bocadinho e continuo ligada ao basquetebol mas não segui essa carreira.

Ticha Penicheiro (ao centro, atrás) faz parte das 15 melhores jogadoras dos 15 anos da WNBA

Ticha Penicheiro (ao centro, atrás) faz parte das 15 melhores jogadoras dos 15 anos da WNBA

D.R.

Tornou-se agente de jogadoras. Quantas atletas tem?
25. Trabalho para uma agência que já está nestas vidas há muito tempo. Aliás, o meu patrão tentou recrutar-me logo que saí da universidade. Ele já anda nesta vida há mais de 30 anos e é uma pessoa com grande experiência e com quem tenho aprendido bastante. Também já sou agente há seis anos, o tempo passa depressa. Foi uma transição simples, rápida e sem dor.

Nunca lhe passou pela cabeça ser treinadora?
Passou. Mas quando uma pessoa é base e tendo em conta a minha carreira… Eu queria uma coisa diferente que não fosse estar dentro do pavilhão, a fazer as mesmas rotinas. Sendo agente tenho muito mais mobilidade e disponibilidade e eu queria passar mais tempo com a minha família, ter oportunidade de passar mais tempo em Portugal, viajar um bocadinho pelo mundo. Não quero viver para trabalhar, quero trabalhar para viver.

Tem passado mais tempo com a família, tem vindo muitas vezes a Portugal?
Sim, mas são muitas vezes visitas de médico porque como também represento jogadoras na Europa, vou vê-las e passo sempre por Portugal. Mas neste momento estou em Miami, onde vivo, e os meus pais estão aqui comigo.

Miami é o local dos EUA de que mais gosta?
Sim, tem praia e tem bom tempo, o que é espetacular (risos).

Ticha Penicheiro em ação durante um jogo das Sacramento Monarchs

Ticha Penicheiro em ação durante um jogo das Sacramento Monarchs

D.R.

Criou alguns campos de basquetebol em Portugal. É para repetir?
Sim, fiz alguns, porque gosto de dar o meu nome, fazer alguma coisa com o meu nome, mas quero estar presente e às vezes é difícil conciliar e saber exatamente as datas em que vou estar aí e organizar as coisas para estarem bem feitas. Já fiz alguns mas não é uma coisa que faça todos os anos.

Quando olha para o basquetebol feminino em Portugal o que vê e sente?
Acho que o basquetebol feminino em Portugal não está onde se calhar poderia estar, mas tem andado para a frente em termos de seleção. Temos organizado campeonatos da Europa em Portugal e as cadetes, sub-16 e sub-18 têm tido bastante êxito. Fomos vice-campeãs da Europa em sub-16 há dois anos, em Matosinhos, e é algo histórico, jamais aconteceu em Portugal e estou orgulhosa disso. Espero que um dia haja mais portugueses na WNBA e também, quem sabe, na NBA.

Acha mesmo que é possível isso vir a acontecer?
Eu quando tinha 15, 16 anos nunca pensei que ia ter a carreira que tive, aconteceu e ninguém me tocou com uma vara mágica quando nasci. Foi com muito trabalho, dedicação, gostar daquilo que fazia e entregar-me de corpo e alma. Claro, um bocadinho de sorte pelo meio, mas se eu consegui, pode voltar a acontecer.

Ticha Penicheiro (a 4ª atrás, a partir da esquerda), com algumas das 50 melhores jogadoras dos 15 anos da WNBA e a presidente da Liga

Ticha Penicheiro (a 4ª atrás, a partir da esquerda), com algumas das 50 melhores jogadoras dos 15 anos da WNBA e a presidente da Liga

D.R.

Segue mais algum desporto para além do basquetebol?
Futebol, aqui nos EUA futebol americano, mas o basquetebol domina a minha vida totalmente.

Torce por que equipas nesses desportos?
No futebol português sou do Benfica desde pequena, mas não sou fanática. Como boa portuguesa sou super fã do Cristiano Ronaldo, portanto era fã do Real Madrid e agora sou fã da Juventus. Sigo um bocado a carreira dele porque é uma pessoa que tem levado o nome de Portugal tão alto e tem feito tanto pelo país e pelo nosso desporto que é impossível não ser fã e não apoiá-lo. Mas sigo o futebol de passagem, isto é, vejo os resultados, não tenho que estar em casa às três horas porque vai dar um jogo, isso faço com o basquetebol.

Por quem torce no basquetebol?
Não há uma equipa especial; gosto de jogadores e o meu favorito neste momento é o Lebron James que está nos Lakers. Eu já vivi em Sacramento e naquela altura gostava dos Sacramento Kings, agora vivo em Miami, não sou fanática dos Miami Heat, embora vá ver alguns jogos. Como ando sempre a mudar de poiso, não tenho uma equipa, mas gosto de jogadores e gosto de ver bom basquetebol.

E jogadoras, quem foram as suas grandes referências enquanto jogadora?
Era difícil quando estava em Portugal seguirmos as coisas porque não havia internet, não havia jogos femininos na televisão. Quando cheguei aos EUA temos tendência de ver jogadoras que jogam na nossa posição, como a Dawn Staley que agora é treinadora da seleção olímpica e de South Carolina, a Nancy Lieberman, que jogou na minha universidade e que tem quase mais 20 anos do que eu, mas que me abriu os braços e deu-me bastantes conselhos quando cheguei, porque jogamos na mesma posição. Neste momento acho que a Sue Bird, a jogadora que me passou nas assistências, é aquela base que respeito e gosto bastante de ver jogar.

Ficou triste quando viu ser batido o seu recorde de maior número de assistências na história da WNBA?
Não, toda a gente sabe que os recordes são feitos para serem batidos. Eu sabia que era possível e que ela estava perto, é uma jogadora excecional. Se alguém vai bater o teu recorde queres que seja uma pessoa com o nível dela e ela tem muito mérito nisso. Não fiquei triste, sabia que um dia ia acontecer.

D.R.

A sua referência quando era miúda, quando via os jogos da NBA na televisão, era o Magic Johnson. Ele disse que a Ticha era a Lady Magic. Que significado isso teve para si?
Bastante grande. Tive oportunidade de o conhecer e é incrível quando uma pessoa chega ao pé de um ídolo, com a grandiosidade dele, e ele sabe quem tu és. Sabia o meu nome, sabia como eu jogava e claro, fiquei um bocadinho de boca aberta. É um grande elogio vindo de uma grande pessoa e de um grande jogador.

O que faz hoje para se manter em forma? Ainda joga basquetebol de vez em quando?
Desde que me retirei que posso contar pelos dedos das mãos as vezes que joguei basquetebol. Tive alguma sorte na minha carreira de não ter grandes lesões e não quero pôr-me agora em aventuras com 44 anos a jogar basquetebol e que me aconteça alguma coisa que não aconteceu durante a carreira. Jogar basquetebol não jogo, e vou ao ginásio de vez em quando, às vezes faço coisas em casa. Tento comer de uma maneira saudável, o que não acontece todos os dias, mas é importante manter a forma e a nossa saúde.

Tem tatuagens. O que são e que significado têm?
Tenho uma no antebraço esquerdo, o 21 em numeração romana, foi o número com que joguei e que me trouxe bastante alegrias e sorte. E tenho uma estrela no pulso direito, porque gosto de estrelas. Não há um significado especial.

O que mais deu ao basquetebol e o que o basquetebol lhe deu a si?
O que eu dei ao basquetebol foi tudo. Quando comecei a jogar com quatro, cinco anos com o meu irmão e com o meu pai foi amor à primeira vista. Tive sorte de ter um campo de basquetebol mesmo do outro lado da rua e passava aí bastantes horas a jogar todos os dias. O que o basquetebol me deu a mim foram muitas alegrias, títulos individuais e coletivos que ficam na história e é muito engraçado tê-los, mas a coisa que mais importante que me deu foram amizades que ficam para a vida toda. Basicamente, todas as pessoas que estão na minha vida conheci por causa do basquetebol e viajei o mundo por causa do basquetebol.

Ficaram alguns sonhos pessoais por realizar por causa da carreira?
Não. Às vezes, principalmente as mulheres, pomos a vida pessoal em pausa para irmos atrás dos nossos sonhos e é isso que temos de fazer. Passei muitos aniversários sozinha, os meus avós faleceram e eu não estava presente no funeral, há muitos momentos de família em que não podemos estar presentes porque é o nosso trabalho e muitas vezes estava na Rússia, em Itália ou nos EUA, pelo mundo fora. Mas não tenho arrependimentos.

A questão da maternidade nunca lhe pesou?
Pensei. Mas não era um pensamento constante e suficiente para eu parar de fazer aquilo que estava a fazer. Não é uma frustração.

Jogou também em vários países como Polônia, Itália, França, Rússia, República Checa, Turquia, Letónia, etc, quando terminava a época nos EUA. Em qual dos países gostou mais de jogar fora dos EUA e de Portugal?
Em termos de equipa e de cidade, fora o frio, Moscovo, na Rússia. Uma cidade espetacular só que no inverno fazia um frio incrível (risos). Quando fazia 40 graus negativos era quase impossível respirar na rua, mas em termos de equipa tínhamos uma equipa incrível. O dono da equipa era um senhor multimilionário que já faleceu, e éramos tratadas incrivelmente: voos charter, hotel de cinco estrelas. Em termos de país também gostei muito de estar em Itália.