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João Vieira: “Eu não vou proibir as mulheres de fazer os 50km. Acho muito bem que haja igualdade, mas 50km é muito violento para elas”

O currículo impressiona: o marchador João Vieira tem 19 títulos nacionais de pista coberta, 45 internacionalizações, participou em quatro Jogos Olímpicos, 11 mundiais, seis europeus, dois ibero-americanos, 11 Taças do Mundo e 12 taças da Europa. Leia a sua entrevista de vida

Alexandra Simões de Abreu

JOSEP LAGO

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Há um mês conquistou no mesmo dia três títulos, o de 20km em veteranos, 35 e 50 km marcha. Há uma semana alcançou o título nacional de 5.000 metros, sendo este o seu 19º título em pista coberta. Teve alguma sabor especial?
Este título é mais especial porque na semana anterior a minha esposa, que é a minha treinadora também, esteve internada no hospital, por isso foi um título dedicado a ela.

Pode revelar que problema de saúde teve a sua mulher, Vera Santos?
Teve um problema no coração. Apanhou um vírus tal como apanhamos uma gripe, só que o vírus em vez de se instalar nos pulmões ou na garganta, alojou-se no coração e teve de passar uma semana internada. Veio para casa na véspera da minha competição, sábado passado. Mentalmente a semana foi muito desgastante para mim, tive de fazer muitas viagens ao hospital para visitá-la, mas também para levar exames médicos anteriores.

Vive em Rio Maior desde os dois anos mas nasceu no Algarve, certo?
Sim, nasci em Portimão. A minha mãe é da zona do Cadaval e o meu pai é da zona de Silves, Armação de Pêra, eles conheceram-se numas férias dos patrões da minha mãe. Casaram e ficaram a viver no Algarve durante dois anos. Os patrões da minha mãe eram de Rio Maior ofereceram trabalho também ao meu pai e viemos todos.

Qual o trabalho dos seus pais?
A minha mãe era empregada doméstica interna na casa dos patrões e o meu pai trabalhava na construção civil, no Algarve, e quando vem para Rio Maior, foi trabalhar para uma empresa de vinhos.

Como é que surge o atletismo na sua vida?
Começa quando era miúdo e vi os Jogos Olímpicos de Los Angeles e o Carlos Lopes a ser medalha de ouro na maratona. A partir daí tornou-se um sonho ser atleta de alto rendimento. Com 11 anos o clube aqui da terra convidou-me para integrar o grupo de atletismo e fui. Eu e o meu irmão gémeo, o Sérgio. Ele andou comigo mais de 20 anos no atletismo. Somos iguais e muita gente confundia-nos.

Têm aquela ligação que os gémeos costumam ter, de sentir o que o outro está a sentir?
Agora já não tanto mas, por exemplo, na escola primária, davamos erros iguais. Quando olhávamos para os testes os erros eram iguais e um estava numa ponta da sala e o outro, na outra ponta.

O seu irmão gémeo é seu rival.
Ele já não faz marcha, Mas foi meu rival nos últimos anos quando ele representou o Sport Lisboa e Benfica e eu estava no Sporting. Mas o ano passado ele desistiu porque não tinha grandes condições para treinar e sofrer grandes cargas de treino.

Como surge a marcha?
Comecei por fazer provas de corta-mato, de pista, de pavilhão. A marcha surgiu porque havia provas nacionais jovens e todos os distritos levavam atletas de todas as disciplina, mas o distrito de Santarém não tinha ninguém na marcha atlética, então eu e o meu irmão começamos a fazer as provas de marcha para integrar essa seleção. Viemos a ter sucesso e conseguimos competir internacionalmente pelo país.

João Vieira (à direita) com o gémeo Sérgio numa prova de marcha

João Vieira (à direita) com o gémeo Sérgio numa prova de marcha

D.R.

Estudou até quando?
Fiz a escola praticamente até ao 11-º ano. Era um estudante médio, não tinha grande vontade para estudar, os resultados que tinha estavam a ser bastante valiosos e optei por dedicar-me 100% ao atletismo, a partir dos 19 anos.

Viveu sempre só do atletismo, nunca trabalhou em mais nada?
Trabalhei. Quando desisti da escola a Câmara Municipal de Rio Maior deu-me apoio durante cinco anos, em que trabalhei com miúdos, ia às escola primárias da atividade física, fazer corridas com eles.

Entretanto acaba por tornar-se treinador da Vera Santos, a sua mulher. Como é que a conhece?
Conhecemo-nos no grande grupo de atletismo que havia em Rio Maior. Fazíamos os dois marcha. Sei que quando a comecei a namorar eu tinha 20 anos e ela tinha 15.

Quando é que se torna treinador da Vera?
Ela chateou-se com o nosso ex-treinador, os objetivos não estavam a encaminhar-se no sentido que ela queria e passei a treiná-la, em 2004.

Ela tornou-se também sua treinadora. Porquê?
É minha treinadora desde 2015/16 por uma questão de haver mais rigor no meu planeamento de treino e ela poder apoiar-me em certas deslocações que faço para treinar e competir.

O facto de estarem permanentemente juntos não afeta a vossa relação enquanto casal?
Não. Temos um trabalho de equipa, somos bastante cordiais um com o outro e por isso não nos tem afetado nem a nível profissional, nem familiar.

João Vieira com a mulher, Vera Santos e a filha de ambos, Sofia

João Vieira com a mulher, Vera Santos e a filha de ambos, Sofia

D.R.

O João tem feito várias distâncias dentro da marcha, qual é a sua preferida?
Neste momento estou destinado a fazer provas mais longas, de 50 km, devido à minha idade, os ritmos são mais lentos, é só treinar por treinar e fazer alguns ritmos mais elevados poucas vezes. As provas mais pequenas acontecem porque o Sporting precisa de mim e vou dar o meu contributo à equipa que represento.

Mas qual a distância que mais gosta de fazer?
Os 20km.

As várias vezes em que participou nos 50km, em grandes competições, as coisas não lhe correram muito bem. Porquê?
Tenho tido alguns percalços em grandes competições. Fui um bocado teimoso e quis insistir bastante nos 20km, ganhei duas medalhas em campeonatos da Europa e por isso quis explorar até ao fim as minhas qualidades. Por isso é que ainda sou bastante rápido nos 5km, apesar da idade que tenho.

Está na altura de abandonar os 20km e dedicar-se apenas aos 50km?
Neste momento faço 20km só por carga de treino de ritmo. Praticamente só treino para fazer 50km em grandes competições.

Nos Jogos Olímpicos (JO) de Londres e do Rio, já fez os 50km, mas acabou sempre por desistir. O que correu mal?
No de Londres não consegui recuperar de uma prova para a outra, dos 20km para os 50. Tive de desistir a meio porque o ritmo estava muito rápido e o meu físico não aguentou. No Rio, entre os 20 e os 50km apanhei uma grande gripe e não pude concluir a prova porque entretanto fui mal medicado pelo médico que estava ao serviço do Comité Olímpico, as coisas deram para o torto.

Como assim?
O médico em vez de dar-me um antibiótico para curar-me, deu-me um que fez o efeito contrário, fiquei pior ainda do que estava, e ele não estava muito preocupado com isso. Na prova os meus pulmões não conseguiram corresponder ao que eu queria. A seguir à prova já não fui acompanhado por esse médico, mas por um outro, que foi mais atencioso comigo, fomos fazer um raio X para ver se eu estava com pneumonia, porque o primeiro médico não me atendeu lá muito bem.

O João e a Vera têm uma filha com 10 meses, a Sofia. Ter filhos era um sonho de ambos?
Era um projeto, podia não ser já, mas como a Vera estava com bastantes lesões decidimos ter já um filho, porque qualquer mulher deve ter um bebé. Fazia parte do nosso projeto e foi o que aconteceu.

João Vieira em representação do seu clube, o Sporting, durante uma prova de marcha

João Vieira em representação do seu clube, o Sporting, durante uma prova de marcha

NurPhoto

O seu grande objetivo são os JO de Tóquio. É aí que quer fazer a sua despedida?
Sim, o meu grande objetivo é finalizar a minha carreira desportiva em Tóquio. Até lá ainda vou ter o campeonato do mundo em Doha, em setembro.

Há uma proposta em cima da mesa de alterar as distâncias de 20 e 50 km para 10 e 30 km. O que pensa dessas alterações?
Não concordo. A tradição é 20 e 50 km e acho que não é viável estarmos a trocar, é a minha opinião e a de muitos atletas como eu. Foi o presidente do comité da marcha da IAAF (Federação Internacional de Atletismo) que propôs isso, vamos ver o que vai acontecer.

Porque é que ele propôs essa alteração se os atletas não estão de acordo?
Porque a IAAF quer fazer alterações em várias competições porque uma prova de 50km dura praticamente quatro horas e em termos de televisão não é muito viável para uns JO ou campeonato do mundo.

Por outro lado o que pensa da luta da Inês Henriques, e de outras atletas, para que as mulheres possam competir nos 50 km marcha como os homens.
Não acho nada, porque não posso concordar com certas coisas. Acho muito bem que haja igualdade para as mulheres. Mas temos de reparar que, no panorama do atletismo, nem todas as distâncias ou marcas são iguais entre homens e mulheres, por isso não há igualdade.

Mas neste caso, concorda ou não com os 50km também para as mulheres?
Não concordo.

Porquê?
Porque é uma distância bastante longa para uma mulher, em termos fisiológicos é muito violento.

Mas elas já provaram que são capazes.
Sim, já o fizeram e vão continuar a fazer. Eu não vou proibir as mulheres de fazer os 50km, mas não vejo com bons olhos.

Se houvesse a tal alteração que está a ser equacionada de passar a marcha para 10 e 30 km, já concordava que fosse para ambos os sexos?
Aí concordava.

O facto dos JO serem em Tóquio pode afetar a sua performance?
Sim. Em termos do meu histórico sei que Tóquio vai ser uma prova bastante difícil. Por causa da humidade que vai estar.

À conta disso vai fazer alguma preparação especial?
Não, porque nós não conseguimos controlar a humidade. Só se formos para o Japão treinar e neste momento é impossível porque temos de preparar um campeonato do mundo em Doha, noutras condições difíceis.

Tem 45 internacionalizações, 4 JO, 11 mundiais, 6 europeus, 2 ibero-americanos, 11 Taças do Mundo e 12 taça da Europa. Destes eventos todos qual o que mais o marcou e porquê?
Um que não está contabilizado. Os primeiros Jogos Olímpicos a que fui, em Sidney, em que fiquei doente e não pude participar, mas tive presente e marcou-me bastante porque era a minha estreia nos JO.

Ficou doente com o quê?
Com gripe e uma otite, tive febre de 40 graus.

Aconteceu-lhe o mesmo no Rio. Acha que tem a ver com clima ou pode ser uma sintomatologia psicológica?
Não sei explicar. Nos primeiros JO, de Sidney podem dizer que era um atleta novato e que foi o sistema nervoso que me atraiçoou. Mas houve muitas diferenças de temperatura que podem ter influenciado. No Rio pode ter sido igual. Não apanhámos o clima que estávamos à espera.

O João e a Vera são ambos atletas do Sporting desde 2010. São ambos mesmo sportinguistas?
A Vera é mais neutra, mas eu sou mesmo sportinguista.