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“Tanto o Rúben Dias como o Ferro já têm muitos jogos nas pernas contra jogadores com o dobro da idade deles, já batidos e com ratice”

Rúben Dias e Francisco Ferreira - mais conhecido por Ferro - têm ambos 21 anos, mas esta jovem dupla de centrais made in Seixal já é bem mais rodada do que parece: o primeiro somou 59 jogos na equipa B antes de chegar ao plantel principal, no qual já vai com 70 partidas nas pernas; e o segundo atuou 94 vezes pela equipa secundária antes de ser promovido por Bruno Lage. Ou seja, ambos já são bem mais experientes do que era Paulo Madeira quando se estreou num FC Porto-Benfica, em 1990/91, com apenas 20 anos, recorda à Tribuna Expresso o ex-central benfiquista: "Agora um miúdo de 20 anos já tem uma maturidade muito maior do que naquela altura"

Mariana Cabral

Matthew Ashton - EMPICS

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A dupla de centrais mais jovem num FC Porto-Benfica foi a dupla Rui Bento-Paulo Madeira, com 19 e 21 anos, respetivamente. Sabias?
Não fazia a mínima ideia. Nem sei quando é que foi isso.

A 3 de novembro de 1991.
Não me lembro. E diz-me uma coisa: isso foi para o campeonato ou...?

Foi para o campeonato e ficou 0-0.
3 de novembro de 1991... Espera, mas isso foi antes ou a seguir ao César Brito?

Ora isto foi depois.
Pois, deve ter sido depois. O Benfica é campeão em 91...

Sim, 1990/91. E em 1991/92 foi o FC Porto.
Pois, o César Brito foi 90/91. Então o jogo que me estás a falar foi no ano a seguir a sermos campeões, com aqueles dois golos do César Brito.

Já vi que te lembras bem desse jogo do César Brito e não do seguinte.
Pois é, desse não me lembro [risos].

De qualquer modo já tinhas jogado a titular no FC Porto-Benfica de 90/91, com 20 anos.
É assim, obviamente que os dias de hoje são diferentes daquela altura. Uma vitória no Estádio das Antas, com dois golos do César Brito, e sermos campeões... Na altura o Benfica apresentava uma equipa madura. Lembro-me que joguei eu, o Ricardo e o William, e eles os dois já tinham alguma experiência. Depois no ano a seguir foi a estreia de dois miúdos [Paulo Madeira e Rui Bento] a quem o Eriksson deu oportunidade. Agora, sabemos que jogar no Porto naquela altura era muito complicado. Não só pelo ambiente criado e pela ratice que os jogadores tinham que ter, porque realmente em termos psicológicos havia uma grande pressão, desde a chegada do autocarro ao próprio aquecimento, que era num campo paralelo ao estádio das Antas, ao qual os adeptos do FC Porto tinham acesso e podiam, já naquela altura, digamos que incentivar pela negativa as equipas. E depois o próprio jogo em si, a entrada do túnel e a pressão que havia sobre o adversário era brutal. Creio que hoje em dias as coisas não são assim, mas realmente era preciso ter uma grande força mental para nos abstrairmos de todas estas situações. E por isso também aquela história... Não sou muito de estatísticas, mas segundo vi recentemente, desde a nossa vitória do César Brito que o Benfica só conseguiu duas vitórias no estádio das Antas e do Dragão para o campeonato [em 2014 e em 2005]. Portanto, só por aí já se vê a dificuldade que é jogar ali.

Vai ser difícil para Rúben Dias e Ferro?
Se o Benfica jogar com o Rúben Dias e com o Ferro, como é provável que aconteça, em primeiro lugar não será uma estreia, porque já jogaram juntos esta época em jogos complicados, como o jogo na Turquia contra o Galatasaray, que tem um ambiente muito parecido ao que vão apanhar no Porto. Os dois complementaram-se bem e já são jogadores com provas dadas - o Rúben Dias mais, claro, porque já tem mais jogos e tem uma grande maturidade neste Benfica. O Ferro é uma agradável surpresa: teve uma oportunidade e agarrou-a com unhas e dentes. Espero que sábado possam estar na melhor forma possível, porque realmente complementam-se bem e estando a concentração ao mais alto nível acabam por fazer um bom jogo.

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Estes jovens estão mais preparados para lidar com jogos deste nível, mais do que na tua altura de jogador?
Acho que sim. Quando hoje se olha para um Rúben Dias ou para um Ferro, vemos que já estavam num futebol profissional, nas equipas B, e não apenas num futebol de formação em que só apanham miúdos da idade deles. Tanto o Rúben Dias como o Ferro, quando assumiram um papel fundamental no plantel principal já tinham muitos jogos nas pernas, especialmente na equipa B, contra jogadores se calhar com o dobro da idade deles, jogadores já batidos. Obviamente podem não ser jogadores se calhar tão fortes em termos técnicos ou táticos, mas são jogadores com aquela ratice e os miúdos vão aprendendo é com os jogos. Na minha altura havia um campeonato de reservas, mas não era um campeonato competitivo, não era a mesma coisa. Ou seja, no meu tempo só se ganhava essa maturidade competitiva muito mais tarde do que hoje em dia. Agora um miúdo de 20 anos já tem uma maturidade muito maior do que naquela altura. Não é por aí que as pessoas têm de ter medo. Já são jogadores mais batidos, mas, como te disse, neste tipo de jogos a concentração é absolutamente essencial, porque o mínimo deslize, a mínima desconcentração momentânea pode ser a morte do artista. E estes jogos normalmente resolvem-se com pormenores e é nisso que muitas vezes se distinguem os grandes jogadores dos outros que não conseguem atingir o topo. Se um jogador estiver concentradíssimo o jogo todo, mentalizado que qualquer falha ou erro pode ser fatal, então seguramente faz um bom jogo.

Vendo agora a forma como o Benfica tem abordado os jogos e tendo os centrais tido mais preponderância no início da construção dos ataques, neste tipo de jogos é fácil para um central manter a mesma abordagem de sempre ou, com a ansiedade, a tendência é facilitar e esticar na frente?
Acho que há uma coisa que vai ser positiva neste jogo: as condições climatéricas. Isso muitas vezes condiciona bastante um jogo. Se não chover, o campo deverá estar ideal e, portanto, em termos de raciocínio não haverá tanta pressa em chutar a bola para a frente. Acho que haverá mais preocupação em jogar, por parte do Benfica. Mas ainda não se sabe muito bem como jogará o Benfica, porque o Benfica tem alturas em que começa a pressionar o adversário lá em cima e tem alturas em que relaxa um bocado e troca muito a bola. Quem vê o Benfica a jogar hoje em dia percebe que os jogadores têm uma confiança muito grande. Vê-se que a equipa está confiante, não perde a bola facilmente, não falha passes fáceis. Isto é tudo uma questão de treino e de concentração, sabendo o que o treinador quer que façam. Hoje em dia olha-se para este Benfica e já não se vê um central a dar um chutão para a frente. Só mesmo em última instância, num alívio dentro da área, por exemplo. De resto, preferem sempre sair a jogar, procuram um futebol bonito. Já o FC Porto joga de maneira algo diferente, porque gosta de colocar a bola direta nos avançados e realmente nesse aspeto é muito forte, porque tem na frente dois, três jogadores muito fortes. Tanto o Soares como o Marega são jogadores em termos físicos muito possantes, muito poderosos, e o FC Porto gosta de jogar dessa forma para aproveitar isso e depois nas segundas bolas tem o Herrera, tem o Brahimi, tem o Corona... Ou seja, isto para dizer que os centrais do FC Porto normalmente jogam de forma mais direta, são formas de jogar. Acima de tudo, acho que vai ser um bom jogo. Mas, a meu ver, a responsabilidade é do Benfica, porque, não tendo um resultado positivo, o FC Porto passa a ter quatro pontos de vantagem, faltando 10 jornadas, ou seja, 30 pontos. Mas quatro pontos de diferença é muito ponto em 30 pontos. Já o FC Porto, mesmo com um empate continua à frente e o campeonato fica aberto, e mesmo perdendo o FC Porto fica a dois pontos, portanto não fica com o campeonato fechado. Por isso é que digo que a responsabilidade é do Benfica, porque, a meu ver, tem de encarar este jogo para ganhar, como encarou os últimos oito em que teve vitórias, para que o campeonato possa ter mais emoção.

Quando entravas para um clássico, havia alguma palavra especial do Eriksson ou dos veteranos?
Nem por isso. As palestras do Eriksson eram palestras simples, normais, de incentivo, nada de muito diferente. Se calhar hoje um treinador dá mais enfâse a nuances sobre as bolas paradas ou sobre a forma como o adversário joga, até porque hoje em termos de vídeos e de análise do adversário consegue-se saber muito mais do que aquilo que se sabia antigamente, até porque os meios são totalmente diferentes. Mas acho que essa integração dos jovens tem a ver com os jogadores com mais experiência do plantel, ou seja, no meu tempo, quando me estreei, tive sempre o apoio dos mais velhos, dos Velosos, dos Vítores Paneiras, dos Pachecos... A gente olhava para eles como nossos ídolos, naquela altura, quando éramos miúdos a subir da formação e a jogar com eles. Eles ajudavam-nos muito nessa integração no futebol profissional. Penso que hoje em dia também funciona assim, porque as equipas grandes, obviamente, não podem ter só miúdos, têm de ter jogadores batidos, com experiência, como um Samaris da vida, um André Almeida da vida, um Jonas da vida... Dou um exemplo: se calhar o João Félix, que hoje joga com o Jonas, olhava para o Jonas há três ou quatros anos como alguém que queria imitar. Este tipo de integração é muito importante para os jovens conseguirem chegar ao topo, por isso é que os mais velhos são muito importantes, tem de haver uma mescla de juventude com experiência.

Entre o Rúben e o Ferro, quem é que é mais parecido com o Paulo Madeira?
Não sei quem é que é mais à Paulo Madeira, mas acho que o Rúben Dias ainda está um bocadinho mais acima do que o Ferro. O Rúben Dias já deu cartas e já demonstrou que estamos perante um central de elite. Disse há uns tempos e interpretaram-me mal, que um dia o Benfica não iria ter capacidade para aguentá-lo e o Rúben Dias iria para um clube grande. O que quis dizer na altura não era para denegrir o Benfica, mas vai chegar uma determinada altura em que, em termos financeiros, o Benfica não vai ter capacidade para segurar o Rúben Dias, porque pode aparecer um grande colosso europeu. Isto não quer dizer que o Benfica não seja um colosso europeu, agora, temos de ter consciência que em termos financeiros se calhar não vai conseguir concorrer com o Manchester City, com o Manchester United...

Aconteceu isso com o Lindelöf, por exemplo.
Pronto. Acho que pode acontecer ao Rúben Dias. O Ferro ainda vai ter de demonstrar com mais alguns jogos que pode chegar a um patamar mais alto, mas tem todas as condições. Em termos físicos é forte, joga bem de cabeça, já provou que marca golos... Portanto, estamos perante dois jogadores ainda diferente em termos de maturidade mas com uma capacidade de futuro muito grande.

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Olhas para eles e pensas: "Estes gajos são melhores do que eu"?
[risos] Eh pá, isso hoje em dia é difícil ter um termo de comparação, porque o futebol agora é totalmente diferente. Hoje os clubes e os jogadores têm muitas preocupações, é a comida, é o descanso, é uma série de coisas. Antigamente havia um bocado, mas era tudo muito desafogado, ninguém ligava assim muito ao que comia. Hoje em dia os jogadores são muito controlados e estar a comparar esse tempo com o de agora é difícil.

Isso quer dizer que comias o que te apetecia num estágio?
Não, havia alguma preocupação com a comida por parte do doutor, mas não era uma preocupação ao pormenor, como é hoje. Hoje em dia os jogadores sabem que só podem comer X disto e X daquilo, há um controlo muito grande. Antigamente não havia esse controlo assim, havia sempre aqueles que saltavam um bocado a cerca e à noite pediam comida para os quartos [risos].

Antes de um clássico assim - aliás, antes e depois, porque depois há aquela adrenalina - dá para dormir bem?
Acho que chega ali a uma determinada altura em que a ansiedade toma um bocado conta dos jogadores, quando vão para estágio, no sentido em que os jogadores querem que o jogo chegue rapidamente e pronto. E depois acontece realmente uma coisa muito engraçada: no final dos jogos, por norma, há um descarregar de energia que é uma coisa muito forte. Acaba o jogo e parece que aquela adrenalina é brutal. Este tipo de jogos tem uma particularidade, porque em termos de mentalização para o jogo os treinadores nem precisam de picar os jogadores, eles já sabem a responsabilidade que é jogar um clássico e um dérbi. Não vão ao jogo só por jogar e pronto. Havia jogos que para nós, jogadores, às vezes eram quase um frete. Estes jogos não, claro. Desde a saída do autocarro do hotel, até à chegada às Antas, onde as medidas tinham de ser muito apertadas porque às vezes havia ali excessos, e isso criava muita adrenalina. Mas também acontece uma coisa surreal, que é: assim que começa o jogo, aquele nervosismo inicial era logo abafado. Ao fim de 10 minutos já ninguém se lembrava que estava a jogar um clássico, porque focavas-te no jogo. Perguntavam-se se eu tinha visto isto ou aquilo, ou os assobios, e é óbvio que antes do jogo começar nota-se isso tudo, mas depois tudo passa. Já não ouvimos nada, porque o nosso cérebro está tão concentrado no que está a fazer que deixa de perceber o que está ao redor.

Os treinadores hoje em dia estão quase sempre em pé, na linha lateral. Neste tipo de jogos dá para ouvir alguma coisa do que diz o treinador?
Ouvir não, não se consegue ouvir nada. Mas o facto de o treinador, que é o líder, estar lá, estar em pé, às vezes até a gesticular, é uma perceção que fica. Não dá para passar mensagens vocalmente, mas há uma presença ali.

Se calhar até dos próprios colegas é difícil.
Não, dos colegas é mais fácil, por acaso. Porque há ali uma química. E os centrais se calhar são os únicos dois jogadores que têm a mesma função e têm de estar muito em sintonia um com o outro, porque de resto, o lateral direito pode não estar em função do lateral esquerdo, o extremo direito do esquerdo... Os centrais são diferentes. Neste tipo de jogos essa comunicação forte entre os centrais também é muito importante. Às vezes só mesmo no olhar ou no assobiar sabe-se logo o que o colega quer.