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“Uma coisa do outro mundo”: era uma vez Bernd Schuster, por Paulo Futre

Toni Kroos não gostou de ser criticado por Schuster, que lhe chamou "trator a diesel". No Twitter, o futebolista do Real Madrid escreveu um seco: "Quem?". E a Tribuna Expresso enfiou-se na máquina do tempo com Paulo Futre para conversar sobre Der Blonde Engel e tentar explicar a Kroos quem foi este germânico

Hugo Tavares da Silva

Paul Marriott - EMPICS

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A conversa não podia deixar de começar pelas duas semanas “tremendas” no Twitter, onde se autointitulou piscinero número 1, comparou Casemiro a Michael Phelps e ainda recordou um episódio semelhante ao de Kepa com a camisola do Atlético Madrid, que deixou Tomislav Ivic à beira de um ataque de nervos. Vocês sabem do que ele está a falar.

Só que o tema é Bernd Schuster, que esteve 13 anos em Espanha, nos três grandes, onde conquistou 12 troféus; o ex-futebolista criticou Toni Kroos, dizendo que este parece um “trator a diesel” e Kroos respondeu no Twitter com um seco: “Quem?”. Quem? À boleia de Paulo Futre, que jogou três anos com o alemão no Vicente Calderón, descobrimos quem era Schuster. Der Blonde Engel. O Anjo Loiro.

Toni Kroos perguntou no Twitter quem era Schuster. Começamos pelo bigode ou pelos pés do homem?
Eh, pá, ele podia ter respondido de outra maneira, não é? Estamos a falar do único estrangeiro – e, cuidado, quando os estrangeiros estavam limitados com a Lei Bosman, não é como agora – que jogou nos três grandes de Espanha. E é alemão. Estamos a falar de um jogador único, pela sua presença física, enchia o campo… Houve grandes jogadores naquela posição, sem dúvida, mas ainda hoje, quando vejo um passe vertical de 30 ou 40 metros nas costas dos centrais que isola o avançado, continuo a dizer: “isto é um passe à Schuster”. Era um médio genial.

Que tipo de médio era o alemão?
O forte dele era a visão de jogo. Era aquele box-to-box, conduzia, tinha um-contra-um, era rápido. A visão de jogo era incrível. Ele, parado, sem tomar balanço, sem dar um passo atrás, conseguia fazer um passe a 30, 40 metros. Funcionávamos muito bem. Era uma maravilha jogar com ele. É difícil encontrar hoje um jogador como o Schuster.

Paul Marriott - EMPICS

Será que Kroos sabe que Schuster foi três vezes finalista da Bola de Ouro?
Pois, ele não gostou da crítica… Fica-lhe mal. Normalmente é mais para os avançados [a Bola de Ouro]. Para um médio estar sempre ali na luta é porque tinha uma classe incrível, uma elegância a jogar maravilhosa. A correr com bola e os passes que fazia... era uma coisa do outro mundo.

Em 1980, quando a Alemanha ganha o Europeu, Schuster tinha 20 anos e foi segundo na Bola de Ouro...
Aí está, e ele deixa a seleção pouco depois. Houve uma confusão qualquer. Era titularíssimo da seleção alemã.

E recentemente houve alguém parecido com Schuster?
Estava aqui a pensar, estava aqui a pensar. Mas não é fácil. Vês lances, vês passes de 40 metros antes do meio-campo, com pressão e tudo, e a bola caía-te nos pés.

Ia com olhinhos…
Mesmo. Laser! Eu jogava muito com os dedos com ele. Imagina que tens o central ou o marcador atrás de ti. Metia a mão na barriga, se apontava o dedo para baixo, queria a bola nos pés. Ele no meio-campo e eu perto da área. Ameaçava que ia para trás do defesa e vinha receber no pé. Se levantava o dedo, dava um passo à frente, o defesa vinha comigo, e arrancava logo. A bola vinha-me cair mesmo nos pés. Treinávamos muito isto. Deu-me uma ajuda tremenda. A pressão caía toda sobre mim no Atlético. Quando ele chegou, ficou mais dividido. Foi muito mais fácil para mim. A responsabilidade era repartida.

Shaun Botterill

Jogaram três anos juntos. Um segundo e terceiro lugares e duas Taças do Rei, sendo que numa delas venceram o Real Madrid por 2-0… com golos de quem?
Marcámos os dois. Foi a vingança dele também, porque ele tinha sido do Real Madrid. Recordo-me do golo dele, logo nos primeiros minutos. É incrível. De falta. Ah! E depois tinha isto: grande marcador de faltas. Na bola parada era o dono da bola. O golo deu-nos confiança e fizemos um jogo incrível. Para nós, Atlético, ganhar ali no Bernabéu foi como ganhar uma Champions. Foi um dia histórico.

Como é que ele era no balneário e no dia a dia?
Frio, frio, frio, mas boa gente. Muito polémico. Quando falava era muito direto. Não tinha papas na língua. Se tinha de dizer, dizia logo. Com o seu humor, quando estava bem disposto. Ia aos jantares de equipa e, quando chegou, organizou um almoço na casa dele para todos.

Quando chegou ao Vicente Calderón, Schuster já tinha jogado com muitos futebolistas como Maradona, Quini, Lineker, Hugo Sánchez, Butragueño, Michel… Ele falava muito nessa gente ou não era de conversas sobre o passado?
Eh, pá, ele era um grande. Os outros podiam ser muito grandes, mas ele era um dos craques do momento. Um dos melhores jogadores do mundo dos anos 80. Recordo-me do trauma que ele tinha. Ele estava no Barcelona quando o Quini foi sequestrado. Em Madrid, depois, o Schuster ainda andava com um ou dois guarda-costas. Eu perguntava-lhe porquê e ele dizia que era um grande trauma. Aqueles anos eram tremendos pelo terrorismo, pela história da ETA. Mais tarde, os meus filhos já adolescentes queriam ir para os centros comerciais e eu proibia. Era uma paranóia para mim. Quando a ETA ameaçou o Governo português, no caso de serem extraditados elementos da ETA para Espanha, disseram que iam atacar alvos portugueses. Eu era um dos alvos. A embaixada ligou-me a perguntar se queria segurança. Eu disse que não. Mudava de caminhos todos os dias.

Paul Marriott - EMPICS

Quando é que ouviu falar no Schuster ou o viu jogar pela primeira vez?
Ele era tão grande… tão grande… No ano 85/86, o Porto jogou com o Barcelona para a Champions, acho que era a segunda eliminatória. Lá perdemos 2-0, aqui ganhámos 3-1. Quase que os eliminávamos. A primeira coisa que eu faço quando acaba o jogo é ir direto ao Schuster e trocar a camisola com ele. Era o craque. Cinco anos depois estava a jogar com ele.

Como foi receber essa notícia de que ele ia para o Atlético?
Foi uma felicidade incrível. A imprensa, ali no início, queria meter-nos um contra o outro, mas não conseguiu. Sempre nos respeitámos. Eu já tinha alguma experiência, ele mais do que eu. Sabíamos como era o jogo nos bastidores, na imprensa. Nunca entrámos em polémicas.