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O padre Meireles é canhoto como o deus Maradona e brilhou na final do Europeu: “O hat-trick é surpreendente para quem não me conhece”

Em 13 edições, Portugal ganhou pela quinta vez o Campeonato da Europa de futsal para padres. A Tribuna Expresso falou com o herói da final de Montenegro, o padre André Meireles, que se confessou sobre jogo, ego, pecado, vinho do Porto e Ricardinho

Hugo Tavares da Silva

D.R.

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Não foi fácil apanhá-lo. E ele, depois de pedir perdão, brincou: "Se me desmarcasse no campo tão bem como sou difícil de apanhar no telemóvel...". André Meireles, de 28 anos, é padre em Vila Real e foi a grande figura da final do último Europeu de futsal para padres (3-0 vs. Bósnia), em Montenegro. Entre as aulas de Religião e Moral, as cinco paróquias e uma marcação de um funeral, a Tribuna Expresso lá conseguiu partilhar uma chamada telefónica com o senhor hat-trick.

Temos de começar por aqui. Por que razão disseram que o hat-trick do padre Meireles era surpreendente?
Enchi-me de rir com isso. Encher, talvez não seja o termo mais correcto, mas, na verdade, a minha reação à expressão foi também um bocadinho insólita. Até comentei com alguns colegas de sacerdócio e amigos de infância. É surpreendente para quem não me conhece (risos). Com alguma naturalidade, costumo marcar golos. Tenho uma filosofia de jogo mais para o pragmática. E, embora este contexto do Campeonato Europeu possa parecer descredibilizado ou com pouca visibilidade, pensando até no paradigma antigo que os padres são todos velhos e barrigudos, é algo que já não corresponde à realidade. De ano para ano, a capacidade física e tática das próprias seleções tem vindo a evoluir de uma forma bem notória. A seleção portuguesa gosta de jogar o futebol de uma forma livre, sem muito contato físico, que é muito o jogo da Polónia e algumas seleções do Leste, por exemplo. Os bósnios têm uma filosofia de jogo parecida com a nossa. E, na verdade, fez com que o nosso jogo encaixasse melhor na final, concretizando o 3-0.

Então, foi uma boa final?
Sim, sim! O ano passado fomos à final, em Itália, foi a 12.ª edição do Campeonato da Europa. Perdemos na final com a Polónia, com um erro defensivo. Pode dizer-se que tentamos ter uma grande eficácia defensiva. Porquê? Porque, como os jogos têm a durabilidade de 20 minutos corridos, quem melhor defender mais possibilidade tem ou, pelo menos, não perde: pode empatar ou vai a penáltis. A nível do psicológico e tático, é muito forte mesmo. Treinamos com bastante intensidade e, especialmente, esse lado defensivo, apesar de nós, os portugueses, termos um cariz ofensivo, técnico, bastante mais apurado do que as outras seleções.

Treinam com que regularidade?
Uma vez por semana desde setembro até ao campeonato. Isso, para a seleção. Porém, temos em Portugal o Clericus Cup, que é bem diferente deste Campeonato da Europa, e o Ricardo Araújo Pereira, na ‘Mixórdia de Temáticas’, não foi explícito nem correto nisso. Nós temos o campeonato interdioceses nacional, em julho, e durante a semana, ao longo do ano, treinamos na diocese para esse campeonato. Ora, fazemos treinos todo o ano. O selecionador escolhe a equipa para representar o país mediante o desempenho no campeonato nacional.

Marcar três numa final de 3-0. O ego ficou agitado?
Em parte, sim. Tenho de confessar. Apesar de ter sempre em conta que o individualismo é bom quando está ao serviço do coletivo. Não somos nada quando não estamos ligados à equipa. O que eu dizia era: foi 3-0 porque também não sofremos nenhum golo. O guarda-redes foi decisivo em dois jogos. Nesta campanha, o jogo mais tranquilo até foi o da final. Mas, tanto nos quartos como nas meias finais, ganhámos por decisão de grandes penalidades, contra Hungria e Polónia. Claro que temos um gosto especial quando marcamos. Até a própria plateia, no pavilhão, quando eu tocava na bola já assobiava. Se calhar, já lhes estava a estragar um bocadinho a festa. Era notório que, como somos um povo que está aqui mais encostado, e o campeonato tem mais relações ali no meio da Europa e Leste, somos um bocadinho nação non grata. A Bósnia, como foi a primeira vez na final, eles gostavam que tivesse ganho. Com os portugueses, notou-se frieza. Mas são coisas que a gente não liga porque, como dizemos, é o nosso lema: as medalhas conquistam-se nos treinos e vão-se buscar nos campeonatos.

Quantos golos marcaste no Europeu (seis jogos)?
Nove.

És pivô?
Sim. E, às vezes, jogo também a ala, devido à facilidade no arranque físico e na explosão, porque sou esquerdino e tenho na potência de remate uma grande arma.

Qual é o maior pecado que se pode fazer no campo?
O maior pecado… boa pergunta… nunca tinha pensado nessa. Sobretudo o facto de não sabermos respeitar o próprio colega e adversário. É transversal a todo o desporto. É, sem dúvida, esse: a falta de respeito, o ter o bom senso de não estar, até para quem ganha, a espezinhar ou gozar com o adversário. Ter esta simplicidade. Aconteceu-me isso ao marcar os três golos: ao assobiarem, eu retive que fiz aquilo que eles não queriam ou não gostavam, mas não posso entender como pecado, porque era o meu trabalho e o que tínhamos de fazer.

D.R.

O torneio durou quanto tempo?
Teve início numa segunda-feira e terminou na quinta-feira à noite, às 20h de Montenegro. Estes torneios revestem-se de uma grande intensidade. São diversos jogos por dia. A carga física é tremenda, por isso é necessário levar um bom coletivo. Lá está, esta vontade não só jogar como conviver. Fazíamos atividades partilhadas, desde as refeições a passeio cultural. Tem um leque de experiências que extravasam o campo. Não é só jogar. É estar, representar o país e mostrar também aquilo que são as nossas gentes. Por exemplo, ao iniciar o jogo levamos sempre uma garrafa de vinho do Porto. Esse tipo de socializações e contrastes de nações enriquecem a nossa experiência.

Havia regras para recolher ou era só bom senso?
O selecionador impunha sobretudo uma regra. Ele foi jogador profissional de futsal do Sp. Braga e dizia-nos sempre que a mais valia era não quebrar rotinas.

Há momentos quentinhos dentro de campo ou é tudo cordial?
Ahhhhhh, há momentos quentinhos… É natural que haja. Embora não tenhamos a vontade de nos transfigurar, no sentido negativo da palavra, claro que os jogos aquecem porque ninguém gosta de perder. Já houve vários momentos em que as seleções, nomeadamente Polónia e até a nossa, quando perdiam ficavam com uma melância, cuidado. Ninguém gosta de perder. Mete-se o pé. Há muita matreirice. Há aquela sapiência empírica que faz com que, quem está de novo (foi o meu segundo campeonato), duvide até da própria capacidade. Psicologicamente, os jogos são muito complicados. Connosco fecham-se lá atrás, esperam e tentam ferir-nos.

E maldade, há?
Não diria. Não há é vontade de perder… Mas há que balizar isto. Ninguém, que eu conheça, foi expulso. Acontece alguma entrada mais voluntária para aleijar, isso sim. Não quer dizer que extravasa o aceitável.

Queixam-se dos árbitros?
Eram árbitros da federação montenegrina. Notava-se algum benefício para as seleções mais conhecidas. Temos uma dificuldade tremenda com a linguagem. Não que não saibamos inglês, mas porque essas seleções são todas da Jugoslávia, Bielorrússia, República Checa, Croácia, Polónia, Kosovo este ano. Entendem-se melhor. Espanhóis não há, perdiam por uma margem considerável e deixaram de ir. Era uma das coisas que também tínhamos como intenção: apesar da supremacia bastante avultada da nossa parte para com algumas seleções, procurámos não golear. Compreendemos que, se eles vão, não é para serem espezinhados. Gostam de participar, querem estar com colegas e partilhar a fé neste ambiente que não é tão natural.

Rezam antes de entrar em campo?
Temos eucaristia todos os dias, mas em campo não. Nem no balneário. A oração é pessoal, mas não a exteriorizamos ou expressamos na altura dos jogos.

Portugal tem cinco Europeus em 13 edições. É milagre ou os nossos padres jogam divinamente?
Eh, eh, eh… Jogar divinamente, não diria. Jogar bem, jogamos. Mas, lá está, temos sempre de compreender o contexto. Com uma equipa boa que pratique bom futsal a nível nacional, falando de uma segunda divisão, nós batemo-nos. Naquele contexto próprio de colegas que não são toscos nenhuns, denotamo-nos. Não só pela entreajuda que temos, mas também porque treinamos semanalmente com essa intenção. Focados, com objetivo de ir buscar [às medalhas]. Cá conquistamo-las, com trabalho e suor, mas lá vamos dar corpo ao que imaginamos.

Os padres ficam aborrecidos quando os românticos do futebol chamam Deus a Maradona?
[Silêncio]... Não. Não, porque eu entendo-o como uma palavra iniciada por minúscula. Claro que nós temos dons e, se os temos, pomo-los a render. Agora, um jogador não tem a capacidade de ser omnipotente, embora se demarque dos demais. Mas somos humanos. Somos humanos e essa caracterização do divino, do transcendente, da onipresença, da onipotência não nos consegue tocar na totalidade.

Tens algum Deus?
Tenho! Jesus Cristo.

... E no futsal?
Sem dúvida que é o nosso Ricardinho. Pela genialidade que ele coloca em campo, pela imprevisibilidade com a qual consegue desmontar ou surpreender uma equipa adversária.

O Ricardinho também é canhoto. Não me parece uma coincidência…
Ahhhh, talvez os canhotos tenham em si algum trunfo, um caráter de surpresa próprio. Somos próprios nas coisas, na forma como interpretamos o lance e decidimos. Talvez não seja tão vulgar.