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“O scouting não tem nenhum segredo, não tem uma receita mágica de ficção científica ou da NASA”

Mário Branco é diretor desportivo do PAOK, que conquistou há poucos dias o campeonato nacional. Não acontecia há 34 anos. Em conversa com a Tribuna Expresso, o português fala sobre a liga grega, mercado, scouting e o que deseja para o clube de Salónica, uma espécie de FC Porto da Grécia

Hugo Tavares da Silva

NIKOS VERVERIDIS

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É um dos portugueses que anda feliz por Salónica. Trinta e quatro anos depois, o PAOK voltou a celebrar um título de campeão nacional. A fazer contas de cabeça e a imaginar uma equipa competitiva, que conta com Vieirinha e Sérgio Oliveira, está Mário Branco, o diretor desportivo dos gregos. Tem curso de treinador, estudou gestão desportiva e especializou-se em scouting, a área onde começou no futebol profissional. Em 2009, num escritório do Leixões, chegou ao futuro que imaginava, aquele meio caminho entre o homem da tática e o patrão. A seguir, veio o maior feito da carreira: duas qualificações para a Liga Europa pelo Estoril Praia. Branco quer, "num curto prazo", colocar o PAOK entre os 20, 30 maiores clubes da Europa.

O Mário chegou ao PAOK esta época. Foi contratado para quê?
A minha contratação não foi uma situação normal. Acertei a minha vinda em maio do ano passado, mas acabei por assumir as funções apenas em agosto. Numa primeira fase, a minha função era diretor de desenvolvimento do futebol. Ou seja, tinha uma função transversal a todo o edifício do futebol no PAOK, na perspectiva de poder ajudar o clube a melhorar. A partir de novembro, fiquei com poderes reforçados como diretor desportivo e responsável total pela parte desportiva, que englobava a primeira equipa. A ideia principal de ter vindo para aqui era dotar o PAOK de alguns processos que estão mais de acordo com o que se faz na Europa ocidental. O PAOK, sendo uma equipa com capacidade financeira, tinha de almejar alguma sustentabilidade, na perspectiva de poder ser auto-suficiente e não necessitar exclusivamente, como tem sido até aqui, dos suprimentos do proprietário, que é uma pessoa com capacidade financeira grande. No fundo, é ganhar jogos, ao mesmo tempo almejando uma sustentabilidade financeira que permita ao clube estar, num curto prazo, entre os 20 e 30 maiores clubes da Europa e que esteja assiduamente a disputar a Champions League. De grosso modo, foram os objetivos propostos e traçados quando vim.

O PAOK já tem algumas das suas ideias? Conseguiu implementar algo ou é um processo que demora?
É difícil quantificar. Não vou ser narcisista e egocêntrico o suficiente para dizer que cheguei em agosto, mudei e fomos campeões. Humildemente, acho que dei a minha contribuição. Sem querer ser imodesto, acho que fui importante. Por exemplo, neste momento conseguimos ganhar o campeonato sub-15 e o de sub-19 pelo segundo ano consecutivo. Somos campeões na primeira equipa, 34 anos depois. Temos a hipótese, se na quinta-feira nos qualificarmos na segunda mão das meias-finais, de jogar a final da taça e eventualmente fazer a dobradinha, que seria inédito. Como é óbvio, quero pensar que o meu trabalho se refletiu a esse nível. No topo do edifício, que é a primeira equipa, o meu trabalho refletiu-se na janela de transferências de janeiro, porque tentei de alguma forma mudar o paradigma que, essencialmente no futebol grego e um bocadinho também no PAOK, estava instituído: contratar grandes nomes já numa fase final da carreira. Tentei mudar isso, acabámos por vender o melhor marcador da equipa, que era o [Aleksandar] Prijovic, para a Arábia Saudita por 10 milhões de euros, que foi o recorde de transferências daqui do PAOK. E acabámos por trazer jogadores bastante mais jovens. O jogador mais velho que trouxemos em janeiro foi o Sérgio Oliveira, que tem 26 anos. Os outros quatro que vieram têm menos de 26 anos. Permitiu-nos baixar o nível etário da equipa e equilibrar financeiramente porque fizemos essa transferência de 10 milhões de euros. Não perdemos qualidade, penso que inclusivamente melhorámos. Para além disso, não perdemos competitividade, o que permitiu que a equipa desse o empurrão final para conseguir o título sem derrotas. E, esperemos, que no próximo dia 11 de maio consigamos também, pelo terceiro ano consecutivo, ganhar a Taça da Grécia. Isso será histórico e inédito.

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E quem é que começou a marcar golos, então?
O Prijovic era o melhor marcador da equipa e foi o melhor marcador do campeonato no ano passado, por isso a equipa era muito dependente da capacidade finalizadora dele. Com a saída do Prijovic, os golos começaram a ficar mais repartidos, mais pela segunda linha: temos um holandês, o [Diego] Biseswar, que fez mais golos, o ponta de lança inglês, Chuba Akpom, que fez cinco, seis. O ponta de lança polaco de 1997 que contratei em janeiro, o [Karol] Swiderski, veio do Jagiellonia [Bialystok], internacional sub-21, já fez cinco golos desde que chegou. Os golos foram mais repartidos, a equipa deixou de depender exclusivamente do ponta de lança, mas de muita gente da segunda linha, porque jogamos em 4-2-3-1, essencialmente dos três atrás do avançado e também dos médios-centro. Por exemplo, o Sérgio Oliveira em 12 jogos fez três golos. É o médio que, em termos de minutos/golos, tem o melhor rácio de aproveitamento. A equipa ficou dotada de uma poder de fogo mais repartido e não tão concentrado no Aleksandar Prijovic.

O treinador Razvan Lucescu, por exemplo, chegou em 2017. Há um perfil definido pelo clube, uma ideia de jogo ou serão os resultados e oportunidades a ditar o andamento do projeto?
O treinador foi escolhido anteriormente à minha chegada, tendo como principal razão o facto de estar a trabalhar na Grécia. Ele esteve dois anos e meio no Xanthi. É um treinador que já conhece a realidade do campeonato e que, neste caso, já conhecia o PAOK, porque Xanthi é a 200 quilómetros daqui, também no Norte da Grécia. Era importante ter um treinador que tivesse a ideia da especificidade do ADN do PAOK. Temos um modelo de jogo bastante instituído, assente no sistema 4-2-3-1 e, obviamente, os jogadores que contratamos são em função desse esquema e da ideia do treinador. A minha chegada também tem um pouco a ver com isso. O diretor desportivo, pelo menos na minha concepção, tem de ser sempre um intermediário entre clube e treinador. Porque o treinador, como é óbvio, quer ganhar, sabe que, como em qualquer clube do mundo, a função dele é dependente diretamente dos resultados. O diretor desportivo tem de, no fundo, satisfazer e criar boas dores de cabeça ao treinador, que foi o que fizemos em janeiro, mas por outro lado defender a ideia do clube, de sustentabilidade, equilíbrio.

Aqui temos um problema com o fair-play financeiro. Embora o nosso proprietário e presidente tenha uma capacidade financeira muito assinalável, o clube tem de ser, pelas regras da UEFA, auto-suficiente. A minha função está entre os dois: satisfazer as necessidades do treinador e da equipa, tendo em atenção as limitações e parâmetros que o clube quer estabelecer. Não trabalhamos por acaso, temos um perfil definido. Sabemos o que queremos, fazemos uma triagem muito interessante daquilo que queremos. Depois, o mercado dirá se conseguimos. Se lhe perguntasse a si, em dezembro do ano passado, se o Sérgio Oliveira vinha do FC Porto para o PAOK, provavelmente não acreditaria. A verdade é que no dia 31 de janeiro, conseguimos fazê-lo. Aqui na Grécia foi uma surpresa generalizada, porque não se pensava que um internacional português, que foi importante no título do FC Porto no ano passado, viesse para a liga grega, com todo o respeito pela liga grega. Os jogadores começam a acreditar no projeto. O facto de eu ser português e de o Sérgio ser português, de ter existido uma certa tradição positiva de jogadores portugueses, como Vieirinha e Sérgio Conceição, e do engenheiro Fernando Santos, quando treinou aqui, ajuda. Neste momento o PAOK não é uma equipa tão desconhecida assim para o futebol português.

Gualter Fatia

Na definição do perfil dos futebolistas, quão importante é a estatística? É uma ferramenta para chegar a uma shortlist e depois, sim, há observação? Ou o processo é ao contrário: é sensorial, vê-se jogador e depois conhecem-se números, desempenhos, contexto…?
Hoje em dia, as duas coisas estão ligadas. Um jogador que eventualmente não esteja na nossa base de dados e que não tenha sido observado... não posso esconder que o primeiro filtro é sempre o estatístico. Ou seja, se está a jogar ou não está a jogar; se em função da posição tem números interessantes; se um jogador do meio-campo para a frente tem os chamados key pass, assistências, golos marcados; se um defesa tem, por exemplo, um número de minutos ou jogos sem suspensões, cartões. O perfil estatístico é o que nos salta primeiro à vista. Eu lembro-me que, há 20 anos, havia jogadores que não eram vistos, havia alguém que produzia um vídeo muito giro de quatro, cinco minutos, com ações fantásticas, e o jogador era contratado só pelo rótulo, sem se saber o que estava lá dentro. Hoje em dia, isso já não acontece. Com as plataformas, bases de dados e toda a tecnologia à disposição do futebol profissional, o perfil estatístico é sempre o primeiro; depois, observação em vídeo; depois, in loco, observações cruzadas - mandamos scouts diferentes para ver o mesmo jogador - e, em última instância, o diretor desportivo e, eventualmente, o treinador terão de chancelar se o jogador é ou não para vir. A administração, neste caso o presidente e proprietário, tem sempre a última palavra a dizer.

Quando outros clubes estão interessados nos jogadores do PAOK, é o seu telefone que toca?
Também, mas não só: 90% das vezes é o meu telefone que toca.

E tem tocado muito?
Tem tocado algumas vezes, ainda não muito. Até porque estamos a atrasar ou remarcar todos esses interesses para depois da final da taça, na qual esperamos estar.

Há algum jogador que será praticamente impossível segurar?
Os jogadores impossíveis de segurar são os que têm cláusula de rescisão e o potencial interessado chegue e pague. Foi o que aconteceu com o Prijovic, tinha uma cláusula de 10 milhões. Os outros são possíveis de segurar. Há aqui jogadores procurados. Vamos tentar arranjar soluções para jogadores menos utilizados. Vamos tentar, perdoe-me a expressão, fazer dinheiro com os jogadores menos utilizados, na perspetiva de manter o core da equipa. Depois queremos reforçar a equipa. O grande objetivo, para além de voltar a conquistar o título, é entrar na Liga dos Campeões. O PAOK nunca chegou à fase de grupos da Champions.

A festa do título nas ruas de Salónica

A festa do título nas ruas de Salónica

SAKIS MITROLIDIS

A liga grega dos últimos anos é diferente? É que antes parecia que só dava Olympiacos…
Sim, o Olympiacos, nos últimos 18 anos, ganhou 16 campeonatos. Obviamente não é bom para a liga grega, porque acaba por ser uma liga macrocéfala. Ganhando o campeonato, tinham acesso à Liga dos Campeões; depois, estando lá, tinham acesso a prémios de participação que lhes permitia fazer equipas muito mais fortes que os rivais, criando um fosso. O ano passado, o AEK foi campeão; este ano foi o PAOK. Há um equilíbrio de forças maior, mas continua a ser uma liga à imagem de Portugal, em que existem três grandes e os outros, embora o Sp. Braga esteja, a passos largos, a aproximar-se dos grandes. Aqui, existem dois grandes (Olympiacos e PAOK), o AEK, ligeiramente atrás mas é equipa grande, e o Panathinaikos, que, sendo um dos grandes da Grécia, nos últimos anos está embrulhado numa crise financeira assinalável, esteve bloqueado de fazer transferências e tem jogado com jovens gregos que vêm da formação. A liga tem melhorado. Há uma aposta cada vez maior na formação, mas ainda há um vazio grande entre os sub-19 e as primeiras equipas, porque não existe enquadramento legal para existirem equipas B. Enquanto a associação grega não resolver isso, vai ser difícil para os jovens gregos conseguirem evoluir. Um dos meus objetivos e estamos a tentar fazer é, tanto na Grécia como no estrangeiro, ter alguns parceiros onde possamos colocar jovens com muito valor para crescerem, inclusivamente em Portugal. Já falámos com uma ou duas equipas.

Há semelhanças com o futebol português? Também se fala pouco do jogo? Qual é o ambiente?
Feliz ou infelizmente, não sei dizer, é muito parecido com o futebol português. É um ambiente bastante apaixonado. Em Portugal, existe uma maior imparcialidade nos media. Comparando geograficamente, o PAOK, no fundo, seria mais parecido com o FC Porto, a equipa da segunda cidade do país e do Norte, que tenta imiscuir-se no domínio normal dos clubes da capital. Não havia um campeão de fora da capital desde 89. A envolvência é semelhante à portuguesa. Se calhar, e não quero que me entenda mal, somos um bocadinho mais civilizados, mais racionais. Uma prova disso é os visitantes, num dérbi, não poderem viajar para os jogos. Quando fomos jogar com o Olympiacos, em Atenas, o estádio era 100% adeptos do Olympiacos e vice-versa. Perde a beleza. Tem a ver com a segurança e esse menor civismo e maior irracionalidade. O futebol, aqui, é quase uma guerra e o futebol nunca pode ser uma guerra. Sei que, em Portugal, as coisas têm piorado, mas temos uma imagem muito melhor da que pensamos.

SAKIS MITROLIDIS

Que lhe pareceram as épocas de Vieirinha e Sérgio Oliveira?
O Vieirinha… já faltam adjetivos para descrevê-lo. É um ícone do PAOK. Jogou aqui antes, foi transferido para o Wolfsburg, regressou, é casado com uma grega, fala a língua. É o verdadeiro capitão. Foi talvez o jogador mais importante neste título, porque, em momentos decisivos, apareceu e carregou a equipa às costas. O Sérgio foi importante no momento em que chegou. Estávamos a duas, três semanas de jogar a segunda volta com o Olympiacos na nossa casa, com seis pontos de atraso. Uma vitória deles poderia relançar campeonato. Conseguimos ganhar 3-1, abrimos distância para nove pontos. O Sérgio deu um empurrão importante, com a capacidade de treino - elevou muito o nível do nosso treino -, pela capacidade de jogo e com os três golos que marcou. Ajudou a cavar a distância para o segundo classificado. Para além deles, há um jogador com ligações a Portugal: Fernando Varela é internacional por Cabo Verde, mas nasceu em Cascais. Está na terceira época e foi muito importante, até fez um golo no jogo do título.

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O Mário foi scout durante vários anos, no Pontevedra, Wisla, Zaglebie, Steaua Bucareste e Astra Giurgiu. Isso ajudou a apurar o olho e a ser mais difícil ser enganado por uma boa exibição?
Desde sempre sabia que queria chegar aqui, à posição de diretor desportivo. Mas, para chegar aqui, é preciso ter valências transversais no futebol. Tenho o curso de treinador (UEFA A), tenho cursos ligados a gestão desportiva e especializei-me na área do scouting. Para quê? Para poder conversar com o treinador e entender as dificuldades, desafios e objetivos; e entender o que procurar e como procurar um jogador. O scouting não tem nenhum segredo, não tem uma receita mágica de ficção científica ou da NASA. Depende de cada um de nós, de como cada um vê o jogo.

Qual foi o maior feito da carreira: este campeonato 34 anos depois (e eventualmente uma dobradinha) ou aquelas duas classificações para a Liga Europa com o Estoril (acabado de subir à 1.ª divisão)?
Isso é uma pergunta difícil. Como diretor desportivo, os meus dois maiores feitos foram essas duas classificações para a Liga Europa do Estoril. Era um orçamento limitado, uma equipa que vinha da II Liga. Penso que hoje ainda é inédito em Portugal: acho que nenhuma equipa veio da II Liga e foi à Liga Europa, pela via do campeonato, em dois anos seguidos. Creio que o Vitória de Guimarães fez uma vez, via taça e campeonato. Se me perguntar, não sendo narcisista e egocêntrico, havia uma mão maior minha no Estoril do que há neste título do PAOK. Não tenho qualquer tipo de pejo em admitir. Em termos mediáticos e de carreira, este título do PAOK é algo que não vai passar ao lado, vai marcar-me. Se a isto se juntar a taça, independentemente de ficar aqui para o ano ou mais 10 anos, estarei sempre na história do PAOK. Enche-me de orgulho, é um privilégio.