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Quando o coração trai um atleta: “Só acordei com o desfibrilhador, o casaco rasgado e a minha mãe a chorar. E fiquei com medo de adormecer”

No decorrer de um jogo, em fevereiro de 2012, Fábio Faria sentiu-se mal e só acordou mais tarde com o barulho do desfibrilhador. Decidiu deixar o futebol depois de uma recaída e, agora, deixa um aviso a Iker Casillas: seguem-se momentos psicologicamente duros. A confiança já não será a mesma, avisa o atual treinador do Rio Ave B, que nas semanas seguintes ao incidente até tinha medo de adormecer, por não saber se voltaria a acordar

João Pedro Barros

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Dia 4 de fevereiro de 2012, Moreira de Cónegos, Guimarães. Fábio Faria representava o Rio Ave, por empréstimo do Benfica, num período de descontos de um encontro da Taça da Liga que já só servia para cumprir calendário. O ex-jogador recorda que foi após uma disputa de bola com um adversário, o ex-colega de equipa Cícero, que se baixou para puxar a meia para cima e limpar o sangue. A partir daí, começou o pesadelo.

A equipa médica do Rio Ave pensou de início que fosse uma quebra de tensão, mas como o encontro já não tinha importância competitiva, o jogador recolheu ao balneário, acompanhado pelo médico. E foi aí que a situação piorou. Fábio Faria começou por não sentir as pernas, depois os braços. “Depois já só acordei com o desfibrilhador, o casaco rasgado e a minha mãe a chorar”, conta à Tribuna Expresso.

O problema cardíaco que lhe foi diagnosticado é muito diferente do de Iker Casillas, que sofreu esta quarta-feira um enfarte agudo do miocárdio. Mas Fábio Faria não tem dúvidas de que ele terá vivido o pior momento da vida, tal como ele. “Fui para os cuidados intensivos, só no dia a seguir tive noção do que tinha acontecido. O pior foi ver nas capas dos jornais que tinha a carreira em risco. Só aí tive noção de que as coisas tinham sido muito, muito más. Foi o pior momento da vida, depois de tantos momentos bons e de uma carreira linda”, conta.

Uma carreira magnífica e recheada de títulos é precisamente aquilo que tem Iker Casillas: campeão do mundo e duas vezes campeão da Europa de seleções, três vezes vencedor da Liga dos Campeões, cinco vezes campeão de Espanha, campeão de Portugal em título pelo FC Porto. Na opinião de Fábio Faria, esse fator pode ser decisivo nas próximas semanas, quando o espanhol tiver de decidir o que fazer do seu futuro.

“Deve ser o guarda-redes com mais títulos no futebol mundial, tem de tomar uma decisão importante. Aos 37 anos não tem de provar mais nada a ninguém — e o mais importante é que ele está cá. Será sempre um grande guarda-redes”, avalia o ex-jogador do Rio Ave, Benfica, Valladolid e Paços de Ferreira, que curiosamente passou pelo FC Porto nas camadas jovens.

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O coração de Fábio Faria disparava e chegava a picos de 300 pulsações por minutos. Após ter sido a sujeito a um cateterismo em Lisboa – “o Benfica foi impecável comigo, nunca me faltou em nada e pagou o contrato até ao fim” –, fez um estudo eletrofisiológico, e tudo indicava que o problema não seria impeditivo para voltar à competição. Faria começou a fazer algumas corridas, sempre ao lado do pai, o ex-avançado Chico Faria. No final de uma dessas corridas sentiu-se mal e desmaiou durante uns 15 a 20 segundos. Foi nesse momento que tomou a decisão: “Disse ao meu pai que não queria jogar mais, estava cansado de alguns episódios, queria uma vida tranquila. Pensei muito bem.”

Iker Casillas vai seguramente ter de passar por um processo de reflexão e testes semelhante ao de Fábio Faria. Um período difícil, especialmente a nível psicológico, reflete. “Falava com a minha namorada e dizia que tinha medo de adormecer. Lembro-me que de início aguentava ao máximo antes de dormir. Será que ia acordar? Tinha medo de fazer exercício, engordei 30 quilos. Foram um ou dois anos horríveis, não tenho problemas em dizer que, se não fosse a ajuda de um psicólogo e do psiquiatra, dificilmente estaria bem.”

Hoje, o antigo defesa central mantém-se ligado ao futebol através do Rio Ave, sendo treinador adjunto da equipa B. Está medicado e usa sempre um relógio que lhe dá um sinal de alarme no caso de as pulsações subirem acima do valor recomendado. Já faz exercício físico moderado, aprendeu quais são os seus limites. E é a partir desta experiência que deixa uma mensagem a Casillas.

“Que tenha muita força. Foi o momento mais difícil da vida, falo por mim e pelo Iker. Ele que pense bem, o futebol não é tudo, apesar da carreira linda que ele tem vai continuar sempre a ser o grande Iker que é. Lembro-me que quando me despedi disse que a vida é o mais importante e isso faz todo o sentido. O mais importante é estar com a família e com quem mais gostamos.”