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Schmeichel: “O Manuel Fernandes foi inútil no Sporting. Ninguém gostava dele”

Peter Schmeichel ficará para a história como um dos melhores guarda-redes, porque era grande na mesma medida em que era elástico, e porque tinha o carisma dos vencedores natos. Jogou em Portugal, no Sporting, onde se sagrou campeão numa época que começou mal e acabou em glória. Esta é uma entrevista sobre esses tempos estranhos de Alvalade. Esta é a primeira de três partes desta longa entrevista a Schmeichel

Nuno Luz e Tribuna Expresso

Ben Radford

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Porquê viver em Copenhaga?
Escolhi Copenhaga, porque é fácil vir daqui até Inglaterra, as ligações aéreas são boas. Mudei-me para aqui, mas sinto saudades de Portugal, adoro Portugal.

Sim, mas vive aqui.
Sim, vivo aqui. Estive fora muitos, muitos anos e habituas-te a estar fora e por isso começas a não ter realmente uma casa. Eu vou a Londres, sinto-me em casa. Vou a Lisboa, sinto-me em casa. Aqui, é diferente: a temperatura é diferente, temperaturas negativas, há dias amenos e outros muito frios. Estou a 45 minutos de Copenhaga, tenho o mar e a floresta e os bosques, uma comunidade local. É um lugar seguro, vivo a minha vida, tenho boas relações com os meus vizinhos.

O que faz agora?
Tal como outros ex-colegas meus, comecei a trabalhar nos media. A comentar no Match of the Day, trabalhos como comentador, também apresentei quiz shows. E também fiz o meu curso de treinador - aliás, recebi uma carta da FA dizendo que tinha de acabar o curso.

O último Mundial foi duro para si: viu o seu filho a jogar pela Dinamarca, enquanto trabalhava.
Não foi assim tão difícil. É lógico que, quando o teu filho está na equipa, as coisas e os sentimentos multiplicam-se. Não queres que nada de mau aconteça à tua família, não é? E também queres que o teu país faça o melhor. Não achei duro e até acredito que o Kasper jogou o suficiente para ser uma das figuras do Mundial.

Falemos de Portugal e das suas recordações.
Não me lembro muito bem do primeiro contacto com o Sporting. Eu já tinha decidido sair do Manchester há algum tempo, andava a falar com o meu agente sobre isso. Só que não tinha ideia alguma sobre para onde iria. Tinha regressado do Mundial de 1998, andava a jogar as qualificações para a Liga dos Campeões, e estava a sentir-me cansado - na época anterior tínhamos perdido o campeonato para o Arsenal e fora muito esgotante mentalmente. Pensei: bom, vais dar tudo mais um ano pelo Manchester United e pelo Alex Ferguson que te ajudou muito. Andei em contactos com o Brondby, por quem joguei antes de ir para a Inglaterra, planeava por outro lado reformar-me. E, depois, aconteceu aquela época incrível em que tudo o que tocávamos, transformou-se em ouro. Perdemos um jogo com o Middlesbrough em dezembro e falámos uns com os outros: “Nunca mais vamos perder um jogo. Vamos ganhar os 35 jogos que faltam.” E então comprometi-me com o United, enquanto o meu agente falava com os outros clubes. Em Barcelona, depois da vitória na Champions, mantive conversas com a administração e com o Ferguson.

O Sporting não falou consigo antes?
Não, não. Nunca. Tinha prometido ao Ferguson que não falaria com outro clube até final da época. Recordo-me de falar com o meu agente: “Já fui a Lisboa, é bom, tenho 35 anos, o inverno em Inglaterra é difícil.” Assim, pensei no Sporting, um clube que devia estar a ganhar mais coisas, mais títulos, entalado entre o FC Porto e o Benfica. Era um desafio bonito, num lugar onde podes desfrutar do clima. Eu já tinha dores por todo o lado por causa do inverno. Assim, aterrei no aeroporto e estava alguém do Sporting para me levar a Alvalade para assinar o contrato. Só que eu só tinha vindo para perceber a cidade - tinha feito alguma pesquisa, queria conhecer o Estoril, as escolas internacionais para os meus dois filhos. Disse: “Condutor, leve-me ao Estoril”. Vi casas, apartamentos, etcetera. À tarde, fomos à SAD do Sporting e começámos a negociar o contrato. Discutimos muito sobre o significado das palavras, porque o agente que me estava a representar tivera vários problemas com jogadores que tinham assinado por clubes portugueses. Então, passou o tempo: meia-noite, uma da manhã, e eu muito cansado e só queira ir para o hotel descansar. O Janela diz: “Agora, conferência de imprensa.” Abre a porta e há mesmo uma sala de imprensa e ele garante aos jornalistas: “O Peter é a partir deste momento jogador do Sporting e o Sporting vai ser campeão, porque para onde o Peter vai,é campeão”. E eu: “Ok…”

Mas a relação com Carlos Janela não durou muito tempo.
Não, aquela administração e aquela equipa técnica duraram quatro jogos. Entrou o Luís Duque e eu, naqueles quatro jogos, pensei: “O que é que eu estou aqui a fazer? Deixei a melhor equipa do mundo, organizada”. Tive tantos, tantos problemas do estilo: “Mas, olha, isto está no contrato”. E, do outro lado, diziam-me: “Amanhã, amanhã”. Jogávamos mal e só com muita sorte poderíamos acabar a meio da tabela. Depois, com o Carlos Janela, com o Inácio a treinar, as coisas mudaram, começámos a ganhar jogos e vencemos o título.

E como era viver dentro daquele grupo?
Olha, eu sentia-me um bocado posto de parte. Os meus colegas moravam todos naqueles condomínios à volta do estádio; eu morava em Birre, portanto estava isolado, ninguém morava ali. Estava entregue a mim próprio. Os meus filhos andavam na St. Julian e começámos a dar-nos com os especialistas estrangeiros, com essa comunidade. Foi bom para nós, porque arranjámos um bom círculo social. Mas aquele ano foi um ano péssimo para a economia portuguesa, não foi? Desemprego, fábricas a fechar, e muita da inteligência foi para fora. E, de repente, ficámos sem convívio. O mais engraçado é que passávamos muito mais tempo juntos do que em qualquer outro clube.

E o Inácio?
O Inácio dizia: “Temos este treino, tal e tal e tal”, e era isso. Só que, depois, não dizia quando tínhamos o outro treino e eu achava aquilo muito estranho. Éramos adultos, não podíamos ser tratados daquela forma, não é? Então, um dia fui bater-lhe à porta do gabinete. “Sou adulto, tenho dois filhos, uma família, preciso de ter uma vida estruturada”. “Eu sei, Peter, mas há jogadores aqui que, se eu lhes der o planeamento semanal, eles vão para os copos, porque já sabem o que fazer.” E eu: “Tu dizes-nos diariamente que somos os melhores e que temos de ganhar este campeonato. Mas os melhores jogadores não são apenas os jogadores que são bons de bola, mas também aqueles que têm cabeça. Portanto, tu descobrirás facilmente quem anda nos copos e saberás que esse tipo não vencerá nada por ti. E, deste modo, tiras o tipo da equipa.” E o Inácio: “Olha, nunca tinha pensado nisso.” Na semana seguinte, tínhamos um planeamento de treinos para quinze dias. Gostei mesmo disto do Inácio: tinha qualidade, mentalidade, ambição louca para vencer, mas, ao mesmo tempo, era um jogador, percebia o ambiente no balneário. Tens de guiar a tua equipa, pôr um braço à volta, conhecer o futebolista.

Foram campeões nesse ano, mas no seguinte correu tudo mal.
No ano seguinte, depois de termos sido campeões, fizemos um grande erro ao vender o Vidigal e os outros melhores jogadores. É preciso saber que tipo de jogadores queres para um determinado clube. Se lideras o Barcelona, compras 11 futebolistas pequeninos capazes de manter a bola durante 90 minutos, mas isso só aconteceu uma vez, com o Guardiola. E eu até acho que eles eram mais defensivos do que a generalidade das pessoas achas.

Porquê?
Porque o que eles fizeram foi tirar-te a bola, não dar-te a bola. Bom, mas esse foi um caso único, porque normalmente uma equipa constrói-se com diferentes tipologias de jogadores, uns melhores com a bola, outros mais fortes defensivamente, personalidades díspares. E o Vidigal, por exemplo, não fazia parte dos planos com o Materazzi, como é possível? E quando entra o Inácio, eu vejo aquele grandalhão, o Vidigal, com aquele sorriso gigante, mudou completamente o balneário. E, no campo, enfim, não houve um jogador a ultrapassar o Vidigal, ninguém passava por ele. Eu, André Cruz, Vidigal - quem é que passava por ali? Ninguém. Estava aí a espinha dorsal. Depois, o Inácio foi compondo o resto da equipa, começámos a criar oportunidades de todo o lado. O César Prates era incrível, mas subia muito e nem sempre recuperava, só que com o Vidigal, ele podia ficar lá à frente. Foi por isso que ganhámos a Liga. Ah, claro, e o Acosta, que não precisava de uma oportunidade: chutava e era golo. O Inácio foi esperto.

Lembras-te de alguma palavra portuguesa?
Lembro, mas não são apropriadas na televisão [risos]. Não as digo.

E da primeira vez que esteve com o Paulinho?
Sou um grande fã do Paulinho. Quando falo de motivação às pessoas, falo do Paulinho. Não importa o contexto, a situação… Ele é um dos maiores lutadores que conheci. Do nada, construiu uma vida, era muito amado. Nunca conheci alguém que tenha uma palavra má a dizer sobre o Paulinho. Eu ensinei-lhe uma ou outra palavra má. Mas, quando eu cheguei, o Paulinho mal falava. Sim, ele ensinou-me uma má palavra, mas não a vou dizer aqui, porque não se dizem asneiras na televisão. Ele dizia-me “Fuck off” todos os dias de manhã, mas era uma partida que o plantel tinha arranjado. Diziam que era “bom dia” em inglês. O Paulinho era o gajo que ligava toda a gente.

E o primeiro jogo, nos Açores?
Sim, 2-2… É preciso pensar nisto: o último jogo que tinha feito fora a final da Liga dos Campeões [triunfo do United sobre o Bayern de Munique] e, agora, estava ali, nos Açores, a defrontar o Santa Clara, a empatar 2-2- com o Santa Clara. “Oh boy, onde é que eu me vim meter?” Não havia ninguém na bancada, ninguém a ver, jogámos péssimo futebol, demasiado tático. O Materazzi era demasiado italiano: fazíamos demasiados exercícios sombra, 11 contra zero, só para solidificar o sistema. Era uma hora naquilo e ele queria que eu passasse a bola sempre para o mesmo lado… Enfim, o futebol não pode ser previsível. Felizmente, o Materazzi não aguentou muito tempo no Sporting. Ah, e lembro-me de um jogo com o Gil Vicente, em casa. Empatámos 1-1 em Alvalade e os adeptos enlouqueceram. Tinha o carro estacionado, as pessoas frustradas comigo. Fiquei chocado com aquela reação dos adeptos.

Por outro lado, recordas-te dos festejos no balneário, quando o Sporting foi campeão?
Não, sabes porquê? Porque eu não estava ali - estava no controlo antidoping. Fiquei tão chateado… Alguém me puxa pela mão: “Vá, antidoping”. E eu: “Então, vã lá!”

E o que aprendeu do futebol português?
Olha, na primeira conversa que tive com o Janela, ele disse-me o seguinte: “Nós nunca ganhamos por causa da arbitragem”. “A sério? Vá lá…”. “Não, a sério, há um clube que controla os árbitros”. Mas, depois, há a final da Taça contra o Porto… E eu tive a sensação de que o árbitro foi mais amigável com a outra equipa, de tal forma que ele passou o tempo todo a dar-lhes livres diretos. Livre direto, livre direto, livre direto. E eu: “Então? O que é isto?”. Livre direto, livre direto, livre direto. E o Porto lá marcou, de livre direto. Depois, há aquele jogo com o Salgueiros, no norte, em que se ganhássemos, éramos campeões e o Porto não poderia fazer mais nada. Na semana que antecedeu esse encontro, lembro-me de ler no jornal: “Porto oferece um bónus aos jogadores do Salgueiros se ganharem ao Sporting.” E eu: “Naaa, não pode ser”. Disseram-me que era normal [risos]. Há outra coisa: o campo. O Salgueiros não tratou do relvado, que estava uma lástima, desta altura, e foi o pior lugar onde jogámos o ano inteiro. Ganhámos 4-1 e para trás ficaram aqueles primeiros quatro meses em que estava desesperado para voltar a Inglaterra. Vou contar-te esta história.

Força.
Então, o Materazzi tinha uma regra, com a qual eu concordo, porque há uma hierarquia: só se comia depois de o capitão começar a comer. O problema era outro: é que a quantidade de comida era medida e era igual para todos. Imagina, eu, um grandalhão, comia o mesmo que o Quim Berto, estás a ver? Eu estava sempre, sempre com fome.

Qual a sensação de ser-se campeão?
Maravilhosa, mas acho que ninguém acreditava que era possível, até tornar-se real. Tivemos a primeira oportunidade contra o Benfica e eles marcaram no último minuto, em Alvalade. E as pessoas começaram a comentar: “Pronto, lá está o Sporting outra vez, perto de ganhar, mas depois vem outro clube e vence o título”. Quando aconteceu, foi um alívio. Saímos do estádio do Salgueiros já tarde, fizemos uma viagem de três horas e tal de autocarro - e quando chegamos a Alvalade, aquilo estava cheio. Cheio. Inacreditável, estava muito mais gente do que deveria lá estar em termos de capacidade. Sentia-se que era especial, que havia muita gente que apoiava o Sporting que nunca tinha visto aquilo. O ano seguinte, foi o pior ano da minha carreira no futebol.

Não podias ter ficado mais tempo?
Acho que… Se o ano seguinte não tivesse sido tão caótico, eu provavelmente teria ficado. Tivemos três treinadores, dois deles completamente inúteis. O Inácio foi um dos melhores do que conheci - não era ele quem decidia que jogador comprar ou vender, mas era bom. A culpa não foi dele por perdermos com o Benfica (eu não joguei esse jogo, estava lesionado). E eles despediram-no, chegaram as notícias de que o Mourinho, que era do Benfica, ia treinar o Sporting - e eu acho que eram verdade. Bom, eu estava a submeter-me a tratamento, na terça-feira, depois do jogo com o Benfica, e ouço a voz do Inácio a entrar. Perguntei-lhe: “O que andas aqui a fazer?”. Ele, que tinha sido despedido na segunda-feira, disse-me isto: “Chamaram-me para uma reunião. Perguntaram-me se eu queria ser treinador ou diretor desportivo ou conselheiro, e eu disse que queria ser o treinador”. “Isso é ótimo”, disse eu. Na quarta-feira, manhã seguinte, ele dá o treino e volta a ser chamado pela administração - e foi despedido. Depois, veio o Manuel Fernandes, certo?

Sim, depois do Inácio.
Não era lugar para ele. Ok, ele tinha sido um grande goleador do Sporting, mas como treinador andava pelo Santa Clara, para cima e para baixo, para cima e para baixo. Não tinha currículo.

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E ninguém gostava dele. A primeira coisa que ele disse no balneário foi: "Marquei muitos golos ao Benfica". Ok. Foi um treinador inútil no Sporting e eu, que estava lesionado, dei graças por estar lesionado e não participar naquilo.