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A chegar aos 41, o campeão mundial Lúcio ainda joga: “Quando não tiver amor e prazer pelo futebol é que chegou o momento de parar”

Com quase 41 anos de idade - serão festejados na quarta-feira -, o central que foi campeão do mundo pelo Brasil e venceu a Liga dos Campeões pelo Inter de Milão continua a jogar, agora no modesto Brasiliense, e explicou à Tribuna Expresso porquê, além de recordar uma longa carreira, dividida entre Brasil, Alemanha, Itália e Índia

Caio Marinho, no Brasil

Aos 40 anos, Lúcio continua a jogar futebol, agora no Brasiliense, depois de ter passado pelo Bayer Leverkusen, pelo Bayern de Munique e pelo Inter, entre outros clubes

Getty

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Quando se pensa em centrais brasileiros, há um nome que surge imediatamente: Lúcio. Ou melhor, Lucimar da Silva Ferreira, que nasceu na cidade brasileira de Planaltina, no Distrito Federal, e, com a camisola 3, jogou por mais de dez anos na seleção brasileira, participando em três Mundiais e conquistando o pentacampeonato em 2002, na Coreia do Sul e Japão.

O central que completa 41 anos na quarta-feira só tem boas recordações de uma longa carreira na canarinha: no Mundial 2006, quebrou o recorde de mais tempo sem cometer faltas na competição (foram 386 minutos sem nenhuma infração); venceu a Taça das Confederações, por duas vezes, em 2005, frente à Argentina (4-1), e emm 2009, frente aos EUA (3-2), num jogo em que marcou o golo da vitória, com a faixa de capitão no braço.

No Brasil, Lúcio jogou no Internacional, São Paulo e Palmeiras; na Europa, atuou pelo Bayern de Munique (Alemanha), Inter de Milão (Itália) e Juventus (Itália); na Ásia, pelo FC Goa (Índia). Atualmente, o central joga na equipa do Brasiliense, na capital brasileira Brasília, após ter jogado pelo Gama, na mesma cidade.

Numa entrevista exclusiva à Tribuna Expresso, o pentacampeão brasileiro fala sobre o início da carreira, relembra factos marcantes e faz uma projeção sobre o seu futuro no futebol.

Como foi o início da sua carreira como jogador de futebol?
Comecei a jogar no Planaltina, clube pequeno aqui de Brasília, capital do Brasil, e iniciei no amador, até que um treinador viu que eu tinha potencial e levou-me para o 'time' [equipa] profissional da cidade, o Planaltinha EC. Aí comecei a jogar pelo futebol profissional, foi assim que comecei.

Jogou no Internacional, no Brasil, até 2000, altura em que se mudou para a Europa. Como foi?
Cheguei ao Internacional em 1997, no 'time' de juniores e no final de 1997 já estava no 'time' profissional, foi uma expêriencia boa, recordações excelentes. Até hoje tenho um carinho e respeito muito grandes pelos adeptos do Internacional e o último campeonato que joguei lá foi em 2000. Foi quando cheguei à seleção brasileira e onde consegui a minha transferência para Alemanha.

Em 2001, foi transferido para o Bayer Leverkusen, onde esteve por quatro épocas. Depois esteve cinco anos no Bayern de Munique, três no Inter de Milão e apenas um na Juventus. Como foi a sua passagem pela Europa?
Cheguei em janeiro de 2001 ao Bayer Leverkusen, a algumas semanas de reiniciar a outra etapa do campeonato alemão [após a paragem de inverno da Bundesliga]. Foi um choque de cultura e idioma, mas, graças a Deus, junto com a minha família, consegui adaptar-me e fazer três, quatro anos no Leverkusen. Depois transferi-me para o Bayern de Munique, quando já estava mais adaptado na Alemanha. Fiquei cinco anos ali e ganhámos muitos títulos. Foi muito importante a minha passagem por ali. Depois fui para o Inter, onde consegui o grande triunfo, que foi ganhar a Champions League, em 2010. Na Juventus, foi uma passagem muita rápida, onde não estava sendo muito aproveitado. Fiquei só seis meses, mas mesmo assim conseguimos ganhar a Supertaça. Mas foi uma passagem rápida, não consegui nem mesmo ter aquele afeto maior pela Juventus.

Como eram os seus treinos na Europa?
Os treinos são de muita força física e tática. Claro que também a parte técnica, mas normalmente são esses os treinos para nós, defensores, mas é claro que depende da metodologia de cada treinador, cada um tem o seu tipo específico de treino.

Qual foi o facto mais marcante quando jogou na Europa?
Houve vários que marcaram a minha passagem na Europa, mas sem dúvida o jogo da final da Liga dos Campeões, em 2010, em Madrid, pelo Inter, contra o Bayern de Munique. Para mim foi um jogo de muita alegria, muita satisfação, até porque o Bayern de Munique, com o treinador Louis Van Gaal, na época anterior, não queria a minha permanência na equipa. Por isso, nessa mesma temporada encontrá-los na final da Champions e vencer... Tem os dois lados, mas para mim o mais importante é ter conquistado o troféu da Champions, mas é claro que também é importante ter jogado contra a minha ex-equipa

AFP

Qual foi o pior momento?
O meu pior momento foi a minha passagem pela Juventus, porque joguei pouquíssimos jogos, não fui aproveitado. Estava num momento muito bom, mas infelizmente o treinador era italiano [Antonio Conte], os quatro defensores eram italianos e jogavam na seleção italiana, então tudo isso dificultou bastante. Esse foi o pior momento que vivi na Europa.

Já recebeu proposta de alguma equipa de Portugal?
Não, infelizmente não recebi nenhuma proposta do futebol de Portugal. Claro que jogar em Portugal também é um centro do futebol europeu, mas não recebi.

Em 2013, quando regressou ao futebol brasileiro, passou pelo Palmeiras e pelo São Paulo.
Voltei em 2013 para o São Paulo e foi uma passagem rápida. Logo em seguida joguei pelo Palmeiras, e, aí sim, joguei uma temporada inteira, uma temporada boa, apesar de a equipa não ter terminado entre os primeiros, mas foi um prazer grande em jogar pelo Palmeiras, para mim foi importante.

Em 2015/16 e 2016/17 vai para a Índia.
Jogar no Futebol Clube Goa, da Índia, foi uma opção para conhecer outra cultura, outro país, o estilo do futebol indiano também. Foi mais neste sentido que fui. Claro, conseguimos também chegar à final de um campeonato, mas foi muito especial jogar na equipa.

Quando volta ao Brasil, em 2017, vai para a equipa do Gama, e depois passa para o Brasiliense. Por que razão decidiu ir para estas equipas do Distrito Federal?
Em 2017, fiz uma cirurgia no pé direito e em 2018 já estava recuperado. Por interesse do Gama, voltei a jogar lá, e a opção de jogar no Gama e agora no Brasiliense explica-se pelo facto de eu estar em casa, de não ter a necessidade de adaptação. Aqui estou feliz, sinto-me com condições de jogar. Estou a sentir-me bem e feliz de estar jogando. Quando não tiver amor e prazer pelo futebol é que chegou o momento de parar.

Recebeu propostas de outras equipas?
Nesse tempo aqui é um pouco mais difícil, por causa da idade. A maioria das equipas do futebol brasileiro querem investimentos, fica difícil quando você tem uma certa idade, mas estou feliz em fazer o que gosto, que é jogar futebol.

Como recorda a sua carreira na seleção brasileira, desde a primeira convocatória, passando pelos Mundiais?
Para mim, a passagem pela seleção, desde a primeira até a ultima convocação - foram mais de 10 anos servindo a seleção - deixou-me sempre muito orgulhoso, feliz em representar bem meu país, em ganhar uma Copa do Mundo, duas Copas das Confederações, além ter jogado três Mundiais. Agradeço muito a Deus por ter tido a primeira oportunidade, em 2000, ter aproveitado da melhor forma possível e ter conseguido manter-me na seleção, porque a regularidade e a sequência de um bom resultado é o que te mantém na seleção brasileira.

Lúcio marcou o golo que deu a Taça das Conferações ao Brasil, em 2009

Lúcio marcou o golo que deu a Taça das Conferações ao Brasil, em 2009

Ullstein Bild

Como avalia a seleção brasileira atualmente?
A seleção brasileira passa por mudanças, então é difícil visualizar uma equipa que o treinador tem em mente, porque agora, um ano depois da Copa, há muitas trocas, muitas mudanças, então é difícil avaliar. Pelo talento dos jogadores, pela tradição e qualidade que traz a camisola da seleção, tem tudo para voltar a ser forte e ganhar títulos.

Acha que o Brasil pode ser campeão no Mundial 2022 com a atual seleção ou há alguma mudança que Tite deva fazer na sua avaliação?
É difícil dizer, até porque 2022 está longe e o próprio treinador falou que vai haver mudanças, vai testar outros jogadores, então é difícil dizer como vai chegar a seleção a 2022. A seleção sempre vai à Copa do Mundo para chegar entre os primeiros. Nas últimas competições, o Brasil não teve boas participações e em 2022 tem que entrar com outro espírito, mudar algumas coisas para que possa ser campeão.

Qual foi o golo mais importante da sua carreira?
O golo mais importante pra mim foi o que deu o título da Copa das Confederações, em 2009, porque além do título eu estava vivendo um momento de transição: o Bayern de Munique estava a dispensar-me, para o Inter de Milão, então durante a competição foi uma surpresa muito grande. Não esperava sair do Bayern, estávamos tentando renovar o meu contrato, que iria acabar num ano, mas eles decidiram isso, então sem dúvida foi um momento difícil para mim. Naquela ocasião, também como capitão da seleção brasileira, não podia deixar transmitir o sentimento de tristeza, de desânimo, para a equipa, então quando estávamos empatando com os Estados Unidos, tive a felicidade, fui abençoado por Deus para fazer esse golo. Então para mim foi o golo mais importante.

O que você não realizou profissionalmente e gostaria de realizar?
Acho que já realizei tudo, sou muito feliz, agradeço muito a Deus, já joguei em grandes equipas da Europa, já joguei com os maiores jogadores e contra os melhores, ganhei vários títulos, representei muito bem meu país e isso deixa-me muito feliz e orgulhoso. Se profissionalmente pudesse voltar atrás, voltaria a fazer tudo de novo.

Alexander Hassenstein

Até quando podemos ver o Lúcio em campo?
É difícil dizer, mas está bem próximo. Fisicamente estou muito bem, mas chega um momento em que o cansaço psicológico, mental, começa abalar o corpo. Por enquanto tenho contrato com o Brasiliense até à metade deste ano e depois não sei se vou continuar jogando. Vai haver algumas decisões, reuniões com a família. Já passei tanto tempo em concentração, viajando em jogos, não sei se vou continuar a fazer isso.

O que pretende fazer depois?
A primeira coisa que vou fazer depois de me aposentar é passar um bom tempo em casa com a minha família, aproveitar as atividades com os meus filhos, viajar e, depois sim, fazer alguns cursos de gestão na parte de desporto - e quem sabe até ser treinador.

Como foi trabalhar com Scolari na seleção brasileira?
Trabalhar com o Felipão é muito bom, ele é muito disciplinador, gosta de disciplina, cobra muito dos jogadores, mas por outro lado sabe cooperar também. É uma pessoa muito boa de grupo, que sabe formar grandes equipas e naquele ano foi fundamental para nós, porque ele deixou que os jogadores ficassem à vontade. Foi um prazer muito grande ter trabalhado com o Felipão.

Há alguma coisa que gostaria de acrescentar?
Não, acho que já falei tudo. Sou muito grato a Deus pela minha primeira oportunidade da minha carreira, por ter aproveitado bem, e acho que todos os jogadores de futebol têm de aproveitar muito as oportunidades e momentos que aparecem, com muita dedicação e desejo de conquistas, porque a nossa carreira passa muito rápido. Temos que ter muito desejo de conquista, até porque os dias não voltam. É importante dedicar-se ao máximo para terminar a carreira de forma feliz e realizada.