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Ferran Font: “Com três anos já calçava patins e aos cinco tornei-me federado quando em Espanha só te deixam ser aos seis”

O patinador do Sporting, que está em Portugal há três anos, fala à Tribuna Expresso sobre a importância da conquista da Liga dos Campeões

Alexandra Simões de Abreu

José Fernandes

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Pessoalmente, o que significa esta conquista europeia?
Muito, todo trabalho que tenho feito. É a minha primeira grande conquista a nível de clubes. Para mim significa tudo o que passei até aqui.

Que outro objetivo maior é que tem?
A nível de clubes tive a sorte de ganhar o campeonato, o ano passado, e este ano a Liga dos Campeões. Falta-nos a taça, que espero seja já no próximo fim de semana; também faltam a Supertaça e a Taça Intercontinental, ainda muita coisa. Quando estamos num clube como o Sporting queremos ganhar tudo. É assim que tem de ser.

O último encontro para o campeonato não correu bem. Voltaram a perder com o Paço de Arcos e disseram o definitivo adeus ao título.
Foi um jogo difícil, não estávamos ao nível que costumamos estar. Acho que foi uma semana anormal depois de termos ganho a Champions aqui. Na quarta-feira tivemos um jogo na Marinha Grande e no sábado em Paço de Arcos. Foi uma semana difícil para todos e não tivemos a sorte que precisávamos para ganhar o jogo. Perdemos o campeonato por dois erros nossos. Jogamos muito abaixo aqui em casa com o Paço de Arcos. Mas para o ano estamos cá outra vez para dar luta.

De todos os troféus que já ganhou, este foi o mais importante?
Este, juntamente com o Europeu de seleções, ganho no ano passado, até porque foi no primeiro ano em que joguei na equipa principal da seleção.

José Fernandes

Era um sonho jogar na seleção espanhola.
Sim. Eu tinha jogado nas camadas jovens, mas obviamente sempre quis chegar à equipa principal. Agora tive a sorte de ganhar o Europeu e a ver se neste verão tenho a sorte de ganhar o Mundial, o troféu máximo que pode atingir uma seleção e um jogador.

Veio para Portugal há três anos. Porque é que escolheu Portugal e o Sporting?
Primeiro, pelo projeto que nos apresentaram. Quando cheguei, o Sporting voltava a ser um clube candidato a ganhar tudo e o campeonato português começava a crescer. Ninguém pode dizer que não é o melhor do mundo. Acho que aqui estão os melhores clubes e os melhores jogadores do mundo.

Mais do que em Espanha, que também tem uma longa tradição na modalidade?
Espanha desceu muito o nível nos últimos anos.

Porquê?
Pelo desinvestimento que se fez lá e pelo investimento que aconteceu em Portugal e em Itália, por exemplo. Há muitos jogadores que não conseguem ficar em Espanha porque não conseguem viver do hóquei. Têm de trabalhar; jogar hóquei passou, para muitos, a ser uma coisa secundária. Aqui e em Itália temos sorte, podemos viver do que gostamos.

Foi sempre esse o seu sonho de criança?
Sim. Desde miúdo que sempre quis jogar hóquei mas sabia que não era como o futebol, em que chegas a qualquer patamar e podes viver tranquilo o resto da tua vida. Aqui podemos viver bem, mas não vamos ser milionários.

Ferran com a Taça dos Campeões

Ferran com a Taça dos Campeões

José Fernandes

Viver do hóquei implica abdicar de outras coisas, como, por exemplo, dos estudos?
Sim, eu acabei o básico em Espanha e quando vim para cá não fiz mais nada. Agora, voltei a estudar, porque quero tentar entrar na faculdade. Estou a fazer à distância, o equivalente ao 12.º ano, para poder entrar na faculdade.

Que curso gostava de tirar?
Gosto muito de desporto, acho que será por aí. Se não for desporto, será direção e gestão de empresas.

Foi difícil adaptar-se a Portugal?
O jogo é muito diferente do de Espanha. Mas, quando cheguei, era mais miúdo do que sou agora. Se calhar não tinha na cabeça tudo o que me podia acontecer e houve muitas coisas que me apanharam desprevenido.

Consegue dar um exemplo?
A forma de jogar. Pensei que chegaria e adaptava-me rapidamente ao jogo, porque sou um jogador que gosta de atacar. Mas em Espanha é um bocado mais parado; o ritmo aqui é muito alto, os defesas estão sempre a pressionar os jogadores e isso custou-me muito. Aqui é um jogo mais aberto, em Espanha é um jogo mais tático, mais tranquilo. Acho que em Espanha há coisas boas, como a tática, eles trabalham muito a tática e isso é bom. Aqui em Portugal, são os contra ataques, a maneira de estar focado e concentrado é muito trabalhado também. Um mix dos dois seria espetacular.

Foi o mais difícil em toda a adaptação a Lisboa?
Sim porque a vida fora do hóquei é boa. Toda a gente ajudou muito, o clube e os colegas ajudaram-me logo bastante.

Veio com a sua namorada?
Sim. Ela estava no 2.º ano da faculdade de Psicologia, pediu equivalência e agora está na Lusófona. Vai acabar este ano. Graças a ela é que também foi mais fácil, porque chegar a casa quando um treino ou um jogo correu mal e ter um apoio é muito importante.

José Fernandes

Qual foi a equipa portuguesa que mais o surpreendeu?
O FC Porto tem uma maneira de jogar... Eles conseguem sair da sua baliza e chegar à tua em segundos. Têm um contra ataque muito rápido e no início isso marcou muito.

Nasceu na Catalunha. Já havia alguém na sua família ligado ao hóquei em patins?
Sim, o meu pai era guarda-redes e até há dois anos foi treinador. Com três anos eu já tinha patins nos pés, quase nem sabia andar e já andava de patins.

Quando começou a jogar num clube?
Em Espanha, só aos seis anos é que se pode ser federado, só que aos cinco eu já estava federado e comecei a jogar com os mais velhos do que eu.

Nunca se interessou por outro desporto?
No verão jogava futebol e ténis, mas era só por diversão. Sabia que o que mais gostava era o hóquei. O meu avô conta que quando eu saía da escola queria ir sempre para o ringue de hóquei. Não queria ir para casa ou para o parque, era sempre para o hóquei.

É filho único?
Tenho um irmão mais novo quatro anos, que já joga no Vic, onde joguei também.

José Fernandes

Tem alguma equipa de sonho onde sonhasse jogar?
A equipa que me faria sair do Sporting é o Barcelona. É o clube da minha terra, sou adepto do Barcelona em futebol.

Quem eram os seus ídolos?
Quando era pequeno havia o Panadero, que agora está no Barcelona - ele jogava no Voltregá, que foi onde comecei a patinar. Era o jogador com quem mais me identificava, era um jogador muito completo, muito rápido, sempre a procurar a baliza, é dos jogadores que mais me marcou.

E português, há algum jogador português que o tenha surpreendido pela qualidade?
Há um colega meu que, quando disseram que podia vir para o Sporting, as pessoas disseram: “Mas esse não sei se é um jogador para o Sporting”. O Henrique Magalhães. Acho que ele faz um trabalho muito grande que pouca gente consegue perceber. E nós agradecemos muito o seu trabalho. É um jogador que não me surpreendeu, porque realmente não o conhecia antes de vir para o Sporting, mas pelo que me tinham falado dele, não tem nada a ver com o que diziam. É muito mais do que as pessoas falavam.

O Ferran é médio. Como é que se definiu essa essa posição? Jogou sempre nessa posição?
No início eu era avançado, não gostava nada de defender. Mas, quando cheguei à primeira equipa do Vic, o treinador disse-me :“Ou vais defender ou não vais jogar”.

Porquê?
Porque em Espanha é muito importante defender, como em todo o lado. Um jogador que só ataca e não consegue ajudar a equipa a defender, não pode jogar numa equipa grande, porque num jogo grande são as pequenas diferenças que marcam o jogo. Por isso ele disse-me: “Se tu queres chegar longe, vais ter de aprender a defender muito melhor, senão, não vais conseguir”. Com ele aprendi muitas coisas a nível de defesa, acho que por isso consegui ser um médio atacante, uma variação das duas coisas.

Tem algum tipo de superstição?
Não. Só uso nos jogos um relógio e um colar que foram prendas de pessoas importantes. Da minha namorada e do meu pai.

Do que gostou mais e menos em Portugal até agora?
Pergunta difícil. Gostei das pessoas. Quando cá cheguei não tinha a menor ideia do que é que ia encontrar e as pessoas receberam-me muito bem, o grupo que formei cá é espetacular. O menos bom... são as estradas [risos]. Não posso ir de carro pelas estradas porque são horríveis [risos].

Estava à espera de melhores infraestruturas do que as que encontrou para jogar?
Há um bocado de tudo. A nível do piso, do parquet dos pavilhões onde vamos, são muito bons. Em Espanha há muitos pavilhões que nem têm parquet. Mas também é verdade que há pavilhões muito antigos em Portugal. Só que de certeza que os clubes preferem ter uma equipa na primeira divisão, do que um pavilhão novo. Preferem ter jogadores, treinadores e material do que investir nos pavilhões.

José Fernandes

O que melhorava na liga portuguesa de hóquei?
A arbitragem. O regulamento atual dificulta muito o trabalho dos árbitros e também lhes dá muita responsabilidade sobre o jogo. Acho que os protagonistas do jogo têm de ser as equipas e não tanto os árbitros. Eles podem deitar abaixo o trabalho de toda a equipa.

Que regra alterava, por exemplo?
Uma com que sofro muito: as simulações. Tu podes levar um cartão azul e a tua equipa ficar com menos um jogador, por cair uma vez e noutra simular. Não vou negar que os jogadores algumas vezes tentam enganar os árbitros. Porquê? Porque também sabemos que muitas vezes se te atiras para o chão, dá um cartão azul ao outro jogador. Mas o que não pode acontecer é tu caíres no chão porque foste empurrado e o árbitro não interpretar que é falta. Ele pode não ter visto, e pode não apitar que é falta, mas também não te pode dar uma falta por simulação e prejudicar a equipa com menos um jogador.

Como se resolve?
Como era antigamente. Se o árbitro considerar que é falta, marca a falta. Se considera que é azul, é azul, se não acabou. Porque se o árbitro também é inteligente para ver se é simulação, se não é simulação, não é falta e quem faz a simulação também se prejudica a ele porque vai perder a bola ou criar inferioridade na equipa.

Acha que não devia haver um cartão para a simulação, é isso? É essa para si a regra mais prejudicial?
Exatamente. Porque acho que pode mexer no jogo. Sem acontecer nada pode mudar o resultado facilmente.

Qual é a sua mais-valia e o que tem de melhorar?
Melhorar, acho que muitas coisas. Como já disse, a defesa custa-me por isso tenho de a melhorar. O aspecto mental também é importante e devia trabalhar mais a cabeça para em momentos importantes do jogo não reagir mal.

É refilão?
Um bocado e isso é mau para mim e pode ser mau para a equipa.

Já foi expulso muitas vezes?
Com azuis já fui várias, com vermelho não.

E o seu ponto mais forte?
É não ter medo de errar, porque se vamos com medo, se antes de fazer uma ação já estou a dizer que não vou conseguir...

Qual é o seu sítio preferido de Lisboa?
O Pavilhão João Rocha [risos]. É onde passo mais tempo e é a minha vida, onde faço o que mais gosto.

Há alguma coisa tipicamente portuguesa que o tire do sério?
Não. Também gosto muito de ir para a linha de Cascais com a minha namorada, é onde mais vou depois do pavilhão.

Alguma prato tipicamente português que o tenha conquistado?
Cozido à portuguesa.

E do que não abdica de Espanha?
O presunto [risos]. Os meus pais e os meus sogros mandam-me sempre.

O que acha dos adeptos?
Não é por jogar no Sporting, mas estes são os melhores do mundo, porque nos jogos contra o FC Porto, Benfica, contra quem for, estão sempre lá. Jogues em casa ou jogues fora, vão contigo, estão o jogo todo a apoiar. Acho que não há mais nenhum clube que consiga ter isso, mesmo os clubes grandes não conseguem ter este apoio em todos os jogos.

Tem contrato com o Sporting até quando?
Por mais dois anos.

Depois disso gostava de ficar em Portugal ou voltar a Espanha?
Não sei, não consigo dizer. Não vou negar que aqui estou bem, também não vou negar que um dia gostava de voltar para a minha casa. Vou trabalhar estes dois anos para dar tudo aqui e depois vamos ver o que acontece.