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André Villas-Boas: “Tenho ambição ainda de treinar no Japão e na América do Sul. Mas não quero treinar mais do que cinco, seis anos”

É um dos treinadores mais conhecidos do mundo e ainda conta treinar mais cinco ou seis anos, antes de se reformar. O sonho começou aos 17, numa conversa de elevador com o vizinho que acabara de se mudar para o mesmo prédio. “Sempre fui irrequieto nos meus desejos e na vontade de saltar”, confessa em entrevista à Tribuna Expresso

João Pacheco (texto) e Rui Duarte Silva (fotos)

André Villas-Boas está sem clube depois de ter passado o último ano na China, liderando o Shangai SIPG

Rui Duarte Silva

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Sente-se bem aqui, entre carros e motos de coleção. Na garagem nova, o treinador André Villas-Boas guarda preciosidades e curiosidades como a moto que era do piloto Cyril Despres, de quando o Dakar não chegou a partir de Lisboa. Ou o bilhete de quando tinha 11 anos e foi ver pela primeira vez uma corrida de Fórmula 1, no Autódromo do Estoril.

O antigo observador de José Mourinho fala sobre corridas de moto e de carro com o mesmo à vontade com que relata aventuras profissionais em Portugal, no Reino Unido, na Rússia e na China. Ou nas Ilhas Virgens Britânicas, onde jogava pela equipa dos jamaicanos.

Antes de falarmos sobre o mister Bobby Robson, pode contar-me a história daquela moto do seu pai?
Sim, a moto já estava em caixas. Conseguimos encontrar o antigo proprietário, pela matrícula. Ainda ninguém tinha dedicado o tempo e o custo de a recuperar. Encontrei o proprietário e montámos a moto que era do meu pai durante a juventude, onde ele andava com a minha mãe. Tenho duas ou três fotos sentado em cima da moto, com cinco ou seis anos. Nós somos muito agarrados às raízes, de certa forma ao nosso fado e à nossa saudade. Recuperar estas coisas tem um grande significado emocional. E eu — da mesma forma — espero passar também aos meus. Principalmente ao meu filho Frederico, que há de ser o mais dedicado a estas coisas quando crescer.

De vez em quando pega na moto que era do seu pai e vai dar uma volta?
Sim, outro dia levei a minha filha e foi uma experiência curiosa. Ela adorou. É uma dois e meio, mas é uma moto bastante calma. Como é uma moto inglesa, a caixa e o travão estão invertidos. Ainda não é como as motos atuais: a caixa fica do lado direito e o travão fica do lado esquerdo. Requer sempre algum cuidado quando se está a conduzir. Ela obviamente não sabe a carga emocional que traz: voltar a trazer um filho numa moto que foi do seu avô... Mas eu sei e acho que isso é valioso.

Rui Duarte Silva

Poderíamos ficar aqui a falar só sobre carros e motos durante muito tempo. Vamos agora à sua experiência como piloto de motos. Aos 17 anos, participava no campeonato de todo o terreno. Diz-se “todo o terreno”?
Sim, aos 17 anos participava no campeonato nacional de todo o terreno. No Troféu XR, que na altura tinha sido criado. Só fiz duas provas desse campeonato, porque foi numa altura em que me comecei a envolver com o futebol. Mais tarde — a preparar-me para a terceira prova — acabei por partir o braço numa pista de motocrosse. E a partir daí deixei. Mas esse Troféu XR foi a primeira prova ou envolvimento numa competição de todo o terreno. Fui um bocadinho também buscar as raízes do meu tio.

Pedro Villas-Boas.
Sim, Pedro Villas-Boas. E a última que fiz — porque achava que era algo que tinha que concretizar — foi a de Portalegre, em outubro do ano passado. Que fiz questão de fazer de moto. Terminar um [Baja] Portalegre é sempre algo emblemático. Principalmente de moto, que é bem mais complicado.

Era mesmo bom como piloto de todo o terreno em moto?
Não, provavelmente agora sou melhor. Porque tenho mais tempo e dedico-me bastante a sair com as minhas motos do monte, no Gerês. Saía muito aqui em Valongo, quando tinha as motos aqui. Mas agora felizmente fui capaz de cumprir outro dos meus objetivos de vida, que era ter uma casa no Gerês, que é uma terra que tem muito significado para mim. Porque o meu pai me levava para lá em passeios a pé. A mim e aos meus irmãos, desde que éramos muito novos. Tive sempre uma relação sentimental muito forte com o Gerês e com a natureza. Mais tarde — quando deixei de ir com o meu pai — passei a ir com o meu carro. Com o meu UMM, com as minhas motos. A nossa família é originalmente de Caminha, a família Villas-Boas. Mas tínhamos uma quinta em Guimarães. E então eu levava as motos daqui para Guimarães e depois fazia o trajeto Guimarães-Gerês permanentemente. Em moto ou em jipe.

Qual era o jipe?
Era o UMM. Foi o primeiro carro que eu tive e o primeiro carro que eu comprei. Também pertencia ao meu primo. E antes pertencia ao meu tio.

O primeiro carro que comprou... Legalmente.
O primeiro carro que comprei legalmente. [risos] Porque os outros comprava-os, mas não tinha carta. Eram carros que eu comprava de sucata, no Castelo do Queijo — eu e um amigo meu. E partíamos para a aventura. Um dos objetivos era meter um carro em Guimarães, para depois fazermos um bocadinho de rally-cross. Mas esse partiu o motor na viagem. Eram carros que custavam 20 contos... O primeiro foi um [Fiat] 127, que fizemos o favor de espetar contra três ou quatro carros estacionados. O que resultou num castigo severo por parte dos meus pais.

Foi trabalhar para a fábrica da família.
Não é uma fábrica da família, pertence a um proprietário alemão. É uma fábrica de construção de peças para automóveis. O meu pai é administrador dessa empresa há muitos anos, desde que saiu da antiga Imoaço. É uma fábrica de fundição de peças de alumínio. E esse foi o castigo.

Ia para lá fingir que trabalhava?
Não tanto. Quando passava o administrador... Havia que fazer.

Mas tinha mesmo um horário de trabalho a cumprir?
Tínhamos. Entrávamos às oito e saíamos às seis da tarde. Foi um castigo de 15 dias. Ou melhor, foram as férias da Páscoa todas — na altura, no ensino secundário. E foi duro.

Hoje em dia compreende essa educação rígida do seu pai?
Compreendo, compreendo. E aceito. Acho que acabou por me formar enquanto pessoa. São experiências de forte carga emocional e de exigência. Eu fui castigado muitas vezes. Não só pelas asneiras que fazia, mas também pelas notas que tirava. Nunca chumbei, mas os meus primeiros e segundos períodos eram sempre às sete e oito negativas. Deixava tudo para a última e acabava por passar o ano sempre à rasca. Fui cumprindo com os meus objetivos escolares, até ao 12º. Mas pronto, era sempre castigado nas férias de Natal ou nas férias da Páscoa.

Rui Duarte Silva

Aos 17 anos, andava a fazer todo o terreno com motos, partiu um braço e teve a sorte que o mister Bobby Robson fosse viver para o prédio onde vivia.
Sim. Isso foi uma daquelas coisas que traçam o destino de uma pessoa. A primeira vez que o vi, estava ele precisamente a voltar de ter visto o seu apartamento, no oitavo andar. Cruzámo-nos brevemente, a entrar e a sair do elevador. Eu morava no segundo andar. E achei assim estranho... Tinha-me parecido ele, mas não me tinha dado conta. E depois, começámos — nós e todas as pessoas que habitavam ali na Rua Tenente Valadim — a apercebermo-nos da sua presença. O motivo que nos uniu foi o Domingos Paciência, que depois se vem a tornar fundamental também na minha própria história.

Mas vamos à sua história inicial com o Bobby Robson. Ele aturou-o ao ponto de o levar aos treinos do Futebol Clube do Porto?
Foi. Acho que essa frase acontece de uma forma espontânea, pelo seu cavalheirismo. Ele não estava a contar que eu fosse aparecer no dia seguinte. Acho que foi uma daquelas frases-chave que tu dás para te livrares de alguém, quando estás com pressa.

Qual foi a frase?
A frase foi: “Amanhã apareces aqui às nove da manhã, vens comigo ao treino e eu explico-te”...

E faltaste às aulas.
Faltei às aulas e fui. Estava em êxtase por estar na presença do treinador do Porto. Eu era um adepto ferrenho do Porto. E ter a oportunidade de conviver com um treinador de futebol do meu clube de coração, ver os jogadores profissionais, entrar no seu ambiente... Era algo a que uma pessoa simplesmente não tinha acesso.

E o Bobby Robson tinha razão em deixar o Domingos a jogar um pouco menos do que queria?
Foi na altura em que o Porto contratou o Yuran e o Kulkov ao Benfica. E havia quase como que... Não uma obrigação, mas esperava-se muito da inclusão do Yuran e do Kulkov. Pelo peso que eles tinham tido no Benfica e pelo rendimento que podiam ter pelo Porto. O Domingos nessa altura era um jogador-superstição, que entrava do banco e marcava. Eu — como era adepto ferrenho dele — sentia mais na pele a frustração de não o ver jogar desde início. Mais do que propriamente sentir que ele também era útil nessa função. Como treinador, mais tarde acabei por perceber que há jogadores que não aguentam ou a carga ou a pressão de jogar como titulares — não que fosse esse o caso do Domingos, obviamente — mas que têm um rendimento especial através do banco. São capazes de entrar a determinado ritmo do jogo e fazer a diferença. E isso acontecia nessa altura com o Domingos, que tinha mais golos do que o Yuran começando como titular.

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